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Evanildo Bechara lota dois auditórios da Faculdade de Letras

Diante dos auditórios GI e GII lotados, onde as pessoas disputaram espaços para se sentarem no chão, Evanildo Bechara, um dos maiores gramáticos do Brasil e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), expôs suas impressões sobre a Reforma Ortográfica durante a  Aula Inaugural da Faculdade de Letras, na última terça-feira (dia 17).

 Diante dos auditórios GI e GII lotados, onde as pessoas disputaram espaços para se sentarem no chão, Evanildo Bechara, um dos maiores gramáticos do Brasil e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), expôs suas impressões sobre a Reforma Ortográfica durante a  Aula Inaugural da Faculdade de Letras, na última terça-feira (dia 17). A presença de Bechara e a relevância do tema abordado justificaram a maciça presença dos alunos no evento.

Ronaldo Lima Lins, diretor da Faculdade de Letras, abriu a palestra apontado as diferentes reações provocadas pela reforma em Portugal e no Brasil. “Em Portugal as novas regras ortográficas foram amplamente discutas pela população. Havia movimentos em defesa do português de Portugal. Na época li a seguinte frase em um jornal luso: ‘Vão nos obrigar a dizer uai.’  Já no Brasil o assunto não havia mobilizado a população até o atual momento, quando ela sente a necessidade de se adaptar às novas regras”, esclarece.

O imortal esclareceu pontos importantes sobre a reforma, sempre com muito bom humor: “No começo da minha carreira, em 1941, entrava na sala de aula com um dicionário debaixo do braço. Ao ser questionado por um aluno, respondia cretinamente que o dicionário havia sido feito para ser consultado e quando eu  não sabia a resposta torcia para que a palavra estivesse no dicionário”, declarou.

Bechara começou falando do importante papel da Faculdade de Letras da UFRJ nos estudos da Língua Portuguesa: “Estudei nos livros dos grandes mestres desta casa, conhecida naqueles tempos como Faculdade Nacional de Filosofia. Ela reunia o maior grupo de especialistas da Língua Portuguesa. Dessa forma voltar à Faculdade de Letras é voltar a um passado muito querido, muito estimado”, pontuou.

Segundo o professor, o esforço em produzir uma expressão lingüística única para o português começou há mais de cem anos, quando Gonçalves Viana propôs, em 1885, a primeira reforma ortográfica da nossa língua. Em 1904 foi lançado o livro Ortografia Nacional, que estabelecia as regras gramaticais, e em 1911 foi assinado um documento oficial regulamentando as normas. No ano de 1986, foi proposta uma reforma radical da língua em que apenas as palavras oxítonas seriam acentuadas, à maneira dos italianos.

Devido a seu caráter radical, o acordo foi combatido por intelectuais dos dois lados do Atlântico, como Ivo Castro, professor de Lingüística na Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1990, o texto do acordo foi reescrito de maneira mais simples, facilitando a vida das pessoas que utilizam a Língua Portuguesa. O novo acordo atua em dois campos: a acentuação tônica e o emprego do hífen.

Bechara explicou que à Academia Brasileira de Letras coube o papel de operacionalizar o acordo para a redação da 5ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Segundo ele, a academia estabeleceu quatro princípios metodológicos para a operacionalização, como, por exemplo, a  obediência ao acordo e sua leitura crítica.

O imortal falou sobre o desconforto provocado pelas mudanças. “Toda mudança traz um desconforto, um ambiente de má vontade. Uma mudança ortográfica não é para a geração que a faz, e sim para as posteriores”, refletiu.

O Vocabulário, que será lançado no dia 18, em Brasília, teve a capital federal como local escolhido para o lançamento como uma forma de homenagear o presidente Lula por ter assinado o acordo de 1990 e ter colocado a reforma em prática dentro do prazo de quatro anos. O lançamento oficial acontece no dia 19 de março, às 17h30, na ABL.