Como utilizar a inteligência artificial generativa na produção de monografias, dissertações e teses? Quais são os limites éticos dessa utilização? E como fica a relação entre estudantes e orientadores diante de uma tecnologia que já começa a transformar práticas de pesquisa, escrita e avaliação acadêmicas?
Essas questões estarão no centro de um debate promovido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no dia 13/11, no auditório do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), no CT2, Cidade Universitária. Organizado pela Câmara Técnica de Ética em Pesquisa (Ctep/PR-2), o encontro será realizado das 10h às 16h30 e terá como protagonistas estudantes e docentes da Universidade.
Com o tema “Um debate institucional sobre oportunidades, desafios éticos e culturais no desenvolvimento de monografias, dissertações e teses na interface humanos–IA”, o evento pretende reunir diferentes experiências e perspectivas sobre as mudanças provocadas pela IA na produção acadêmica.
As inscrições para participar dos painéis discente e docente estão abertas até 14/10. Os integrantes serão escolhidos por sorteio público, marcado para 17/10, para que haja representação dos diferentes centros e campi da UFRJ.
Segundo a coordenadora da Ctep, Sonia Vasconcelos, do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM), a proposta é ampliar uma discussão que a Universidade já vem desenvolvendo nos últimos anos. “O objetivo é dar um passo adiante e promover um debate cada vez mais transversal, envolvendo orientadores e estudantes em diferentes estágios de formação e carreira. A ideia é reunir diferentes visões e experiências sobre oportunidades e desafios na produção acadêmica gerada na interface humanos–IA”, explica.
Para a coordenadora, a discussão ocorre em um campo no qual não há respostas prontas para muitas das questões suscitadas neste novo contexto de produção intelectual: “É um ambiente rico para o diálogo, que naturalmente gera incertezas e questões que incluem as de natureza ética e de confiabilidade nessa interação”, diz.
Voz dos estudantes
A programação será organizada em torno de painéis com participação de estudantes e docentes. Em cada grupo, serão sorteados dez titulares e dez suplentes. Para ampliar as possibilidades de participação e potencializar a diversidade nos campi da UFRJ, os painéis serão compostos por sorteio público (a ser divulgado nos canais oficiais da Universidade), totalizando 10 titulares e 10 suplentes por grupo.
A seleção busca envolver participantes de cada um dos centros: Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE); Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN); Centro de Ciências da Saúde (CCS); Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH); Centro de Letras e Artes (CLA); Centro de Tecnologia (CT); Centro Multidisciplinar UFRJ–Macaé (CM UFRJ–Macaé) e o campus Duque de Caxias Professor Geraldo Cidade.
Podem se candidatar ao painel discente estudantes de mestrado e doutorado, bolsistas ou não, bem como de graduação oficialmente vinculados à iniciação científica. Os dez titulares terão a tarefa de elaborar pontos e dúvidas considerados críticos sobre o uso da IA na produção acadêmica. As questões serão encaminhadas previamente ao painel docente e servirão de base para parte das discussões do encontro. Informações detalhadas serão encaminhadas pela coordenação da Ctep aos grupos sorteados.
Para o vice-coordenador da Ctep, Renan Almeida, da Coppe, colocar os estudantes no centro dessa etapa pode ajudar a Universidade a compreender melhor como a tecnologia está sendo incorporada à formação acadêmica. “As questões trazidas pelos estudantes ajudarão a dar o tom deste debate. Essa é uma característica que pode ampliar nossa compreensão, como orientadores, sobre suas preocupações e dificuldades quanto ao uso de uma tecnologia que não é apenas mais uma, mas tem um potencial transformador em nossas práticas acadêmicas sem precedentes”, constata.
No painel docente, poderão se inscrever professores e pesquisadores — incluindo os do Colégio de Aplicação (CAp–UFRJ) —, pós-doutorandos e técnicos-administrativos em Educação com doutorado, desde que credenciados como docentes permanentes ou colaboradores em programas de pós-graduação stricto sensu da Universidade.
A vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci, integrante da Ctep, destaca que o sorteio e a representação dos diferentes centros e campi possuem papel central em um contexto no qual a produção de monografias, dissertações e teses se desenvolve em um novo ambiente de orientação e geração de conhecimento. “Não temos uma experiência prévia, mas um caminho a construir na Universidade” acrescenta.
Debate em construção
O encontro dá continuidade às discussões promovidas pela Ctep sobre inteligência artificial generativa. O tema entrou de forma mais sistemática na agenda da Câmara em 2023, em uma atividade dedicada à produção intelectual na Universidade e ao ChatGPT.
Em dezembro de 2025, um workshop promovido pela UFRJ avançou sobre questões relacionadas à autoria científica e ao uso responsável da IA na pós-graduação. As discussões contribuíram para a elaboração da minuta de revisão das Diretrizes de Integridade Acadêmica da Universidade, posteriormente apresentada ao Conselho de Ensino para Graduados (Cepg) e colocada em consulta pública no início de 2026.
O uso da inteligência artificial na vida acadêmica também mobiliza a Comissão de Assessoria de Inteligência Artificial (Cria), desenvolvida pela Reitoria. Para Edson Watanabe, da Coppe, integrante da Ctep e da Cria, levar essas questões para o ambiente institucional contribui para que a Universidade construa coletivamente suas respostas às mudanças em curso.
“Discutir essas questões em um ambiente institucional é um aprendizado coletivo para a comunidade universitária, e fomentar esse debate transversal é parte das ações estratégicas que precisam ser ampliadas na UFRJ”, observa Watanabe.
No workshop realizado em 2025, o reitor Roberto Medronho também chamou a atenção para uma dimensão que vai além das possibilidades técnicas da inteligência artificial. Segundo ele, o tema envolve “valores, ética, impacto social e modos de vida, muito mais do que apenas tecnologia”. Ao evocar o educador Paulo Freire, Medronho ressaltou ainda “o papel transformador da educação” e lembrou que “são as pessoas, e não a técnica, que mudam o mundo”.
Da discussão às diretrizes
O encontro dá continuidade às discussões promovidas pela Ctep sobre inteligência artificial generativa na produção acadêmica na Universidade. O tema entrou de forma mais sistemática na agenda da Câmara em 2023, em uma atividade dedicada à produção intelectual frente à popularização da IA por meio do ChatGPT. (https://eventos.ufrj.br/evento/producao-intelectual-na-universidade-e-chat-gpt/)
Em dezembro de 2025, um workshop promovido pela UFRJ aprofundou o debate sobre autoria científica e uso responsável da inteligência artificial na pesquisa, com ênfase na pós-graduação. (https://conexao.ufrj.br/2025/12/workshop-da-ufrj-debate-autoria-cientifica-e-uso-responsavel-da-ia-generativa-na-pos-graduacao/)
(Acesse aqui o relatório detalhado: https://drive.google.com/file/d/14FbPfLXhCyR35vGDWBtMFX1QfSB-dtqJ/view?usp=sharing)
As discussões contribuíram para a elaboração da minuta de revisão das Diretrizes de Integridade Acadêmica da Universidade, posteriormente apresentada ao Conselho de Ensino para Graduados (Cepg) e colocada em consulta pública no início de 2026.
Como participar
Estudantes e orientadores interessados em integrar os painéis podem se inscrever até 14/10. O sorteio dos participantes será realizado no dia 17/10.
O encontro será aberto também ao público externo à UFRJ. Não haverá transmissão ao vivo, mas as atividades serão gravadas. A programação contará com intérpretes de Libras nos períodos da manhã e da tarde. Haverá emissão de certificado para os participantes que registrarem presença.
As inscrições para integrar os painéis devem ser feitas pelo link https://forms.tic.ufrj.br/index.php/765691.
