A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tornou público dois documentos preliminares que orientam a comunidade acadêmica sobre o uso ético e responsável da inteligência artificial, em especial nas atividades de ensino e pesquisa. Trata-se da revisão das Diretrizes de Integridade Acadêmica, organizada pela Câmara Técnica de Ética em Pesquisa (CTEP), e das Recomendações sobre o uso da Inteligência Artificial na UFRJ, produzidas pela Comissão de Assessoria de Inteligência Artificial (CRIA). Juntos, os textos ajudam a definir princípios institucionais para lidar com os desafios e as oportunidades trazidos pela rápida expansão da Inteligência Artificial Generativa (IAGen).
A revisão das Diretrizes de Integridade Acadêmica (https://conexao.ufrj.br/2021/09/diretrizes-sobre-integridade-academica-compromisso-com-a-etica/), enquanto reafirma princípios como a honestidade intelectual, a devida atribuição de autoria e da responsabilidade autoral, reflete a ampliação natural do olhar institucional para o papel da integridade, em especial, nas atividades de pesquisa, que se estendem para o campo do ensino e da extensão, em um momento de grande transformação nas universidades.
A minuta do documento, que está aberta a comentários e sugestões até 15/4/2026 (ctep@pr2.ufrj.br), reafirma que apenas pessoas que tenham contribuído de forma intelectual substancial para uma pesquisa devem ser reconhecidas como autoras de um trabalho científico.
No caso de trabalhos acadêmicos, como monografias, dissertações e teses, a universidade reforça que os estudantes devem demonstrar claramente suas próprias contribuições intelectuais. Simplesmente delegar a responsabilidade de elaboração desses trabalhos a terceiros ou a sistemas de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) é considerado desonestidade acadêmica e pode resultar em sanções institucionais, inclusive a perda do título, de acordo com a proposta do documento.
As diretrizes também destacam que o uso de ferramentas de IAGen pode auxiliar na preparação e elaboração desses trabalhos, incluindo exploração de temas de pesquisa e organização de ideias, mas a responsabilidade final sobre o conteúdo produzido deve permanecer vinculada à autoria humana. Por isso, pesquisadores e estudantes devem verificar criticamente as informações geradas por essas ferramentas, especialmente diante de riscos como imprecisões, vieses ou referências incorretas. Nesse contexto, o documento reforça o papel central de seus pesquisadores e corpo docente nesse processo, quanto “à leitura e avaliação cuidadosa e pessoal dos trabalhos acadêmicos, incluindo monografias, dissertações, teses e artigos elaborados por estudantes”.
Uso da IA
As recomendações elaboradas pela CRIA complementam essas orientações ao tratar de forma mais ampla os impactos da inteligência artificial no ensino, na pesquisa e na administração universitária. A comissão foi criada pela Reitoria para assessorar decisões institucionais sobre o desenvolvimento e o uso da IA na universidade.
O documento parte do reconhecimento de que a inteligência artificial representa uma das transformações tecnológicas mais significativas das últimas décadas e pode ter impactos profundos na educação, na ciência e na sociedade. Ao mesmo tempo, destaca que seu emprego no ambiente acadêmico exige atenção aos riscos associados, como o uso acrítico da tecnologia, possíveis violações de direitos autorais e a redução do desenvolvimento do pensamento crítico dos estudantes.
Entre os princípios propostos pela comissão estão a promoção do uso ético, crítico e responsável da inteligência artificial, o respeito à propriedade intelectual, a transparência na utilização dessas ferramentas em trabalhos acadêmicos e a valorização do esforço intelectual dos estudantes e pesquisadores.
As recomendações também defendem que professores tenham autonomia para definir, em suas disciplinas, quais usos da inteligência artificial são aceitáveis, deixando essas regras claras para os estudantes. A comissão também recomenda que a universidade promova, de forma contínua, workshops, seminários e mesas-redondas sobre inteligência artificial em diferentes unidades e campi, incentivando o diálogo interdisciplinar e a disseminação de conhecimento sobre a tecnologia.
Outra proposta é a criação de um repositório institucional com materiais de referência sobre inteligência artificial, ética e integridade científica, além da oferta de cursos de extensão voltados à chamada “literacia em IA”, com o objetivo de ampliar o entendimento da comunidade universitária sobre as possibilidades e os limites dessas ferramentas. Presidente da CRIA, Edmundo Albuquerque de Souza e Silva (COPPE/UFRJ) destaca a percepção da Comissão de que “a relação da comunidade acadêmica com a IA Generativa será cada vez mais dinâmica; o documento da CRIA, portanto, também será atualizado, acompanhando criticamente a evolução dos usos e discussões na sociedade.”
A UFRJ divulga estes dois documentos em um momento crucial para a discussão de integridade acadêmica e o uso da IAGen na atividade científica no país. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) instituiu sua nova Política de Integridade na Atividade Científica por meio da Portaria nº 2.664, de 6 de março de 2026 (https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/cnpq-publica-portaria-que-institui-politica-de-integridade-na-atividade-cientifica).
Essa política, alinhada com diversos pontos que integram os documentos da UFRJ, reforça a orientação sobre a necessidade de responsabilidade autoral e supervisão humana na produção acadêmica resultante do uso de IAGen. Ela também enfatiza a importância da transparência nesse processo e atribui responsabilidade pela produção de conteúdos imprecisos, recomendando que, no caso de elaboração de pareceres científicos, a IA não seja utilizada.
A UFRJ continuará aprimorando suas políticas de integridade acadêmica e científica, valorizando ambientes institucionais que garantam produção autoral, pensamento crítico e credibilidade em suas contribuições para a sociedade.
Recomendações sobre o uso da Inteligência Artificial na UFRJ
