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Aula Magna debate impactos da crise no Brasil

Em tempos de crise global, não havia personalidade mais adequada para ministrar a Aula Magna 2009 da UFRJ que Maria da Conceição Tavares (Foto). A professora deu importantes lições de Economia ao público presente no auditório Roxinho na manhã desta quinta-feira, 19 de março.

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Em tempos de crise global, não havia personalidade mais adequada para ministrar a Aula Magna 2009 da UFRJ que Maria da Conceição Tavares. No auge dos seus 79 anos, a economista, que já foi deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e é professora emérita da universidade, deu importantes lições de Economia ao público presente no auditório Roxinho na manhã desta quinta-feira, 19 de março.

Por quase duas horas, Maria da Conceição discursou sobre os desafios do Brasil frente à crise internacional. A professora comentou os impactos da crise no país, destacando algumas vantagens que temos em relação às demais nações e pontuando os problemas de curto e longo prazos a serem resolvidos para que o Brasil saia da turbulência sem grandes seqüelas.

Logo de início, a economista enfatizou que os brasileiros devem vencer a crise sem, no entanto, hipotecar as conquistas sociais obtidas nas últimas décadas. Ela afirmou ainda que, embora o Brasil disponha de uma das melhores condições fiscais do mundo, estamos atrasados quanto à adoção de medidas anticíclicas. “Os governos estrangeiros estão adotando medidas anticíclicas ao diminuir os juros e ampliar o déficit fiscal. Como nós temos uma taxa de juros alta, podemos baixá-la. Se o Banco Central tivesse reduzido essa taxa em dezembro do ano passado, não haveria a queda verificada na indústria nesse período”, sublinhou.

Além da questão dos juros, Maria da Conceição elegeu duas outras vantagens relativas que o Brasil guarda em relação aos outros países. A primeira delas se refere aos bancos públicos. Ao contrário de grande parte do mundo, o Estado brasileiro controla três bancos — Caixa Econômica Federal, BNDES e Banco do Brasil. Enquanto os dois primeiros estão encarregados de projetos especializados, o último pode vir a compensar a perda do crédito: “Com a baixa de juros somada a uma atuação mais firme do Banco do Brasil, podemos retomar a expansão do crédito. Se isso não acontecer, a renda das famílias será atingida, gerando desemprego”, alertou.

A vulnerabilidade externa é, segundo Tavares, outro ponto que pode se converter em benefícios para o Brasil durante a crise internacional. Alguns países da América Latina, como o México e a Venezuela, por exemplo, dependem excessivamente de recursos externos. Por ser auto-suficiente na produção de petróleo e alimentos, o Brasil pode comercializar esses bens com essas nações, orientando, assim, o desenvolvimento para o seu próprio mercado interno.

Problemas pendentes

Durante a Aula Magna, Maria da Conceição Tavares enumerou problemas a serem sanados pelo Brasil. Para a professora, os economistas brasileiros devem se preocupar em expandir o crédito dos bancos privados e em promover meios de a produção industrial ser retomada.

Mas o principal entrave promovido por esses tempos difíceis é o desemprego. “Se não conseguirmos sustentar o emprego, não conseguiremos manter a renda das famílias que já estão na ativa. O emprego público também não pode diminuir”, declarou a professora que se mostrou entusiasta dos investimentos maciços em Educação e do ingresso tardio dos jovens no mercado de trabalho.

Ao final da palestra, Maria da Conceição Tavares destacou metas que o governo brasileiro deve cumprir em curto e longo prazo. Para 2009, a professora acredita que o Brasil deva apressar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), manter as políticas sociais e o salário mínimo e combater o desemprego aberto.

Para um horizonte mais amplo de tempo, Tavares destacou a importância de o Estado do Bem-estar Social, com suas políticas universais, ser salvaguardado. “O viés igualitário, da segurança nacional em todos os níveis, tem que se manter. Qualquer que seja a luta de vocês, ela tem que ser por uma sociedade mais igualitária, caso contrário não haverá desenvolvimento sustentável em nenhum sentido”, assegurou.