O que é a gambiarra e como ela se manifesta na cultura brasileira? Essa é uma resposta que a Escola de Samba São Clemente pretende responder em seu desfile no Carnaval de 2027 na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Com um enredo intitulado “Crialogia — gambiarra à brasileira”, a proposta é mostrar como a criatividade brasileira pode ser compreendida como uma ferramenta de sobrevivência cultural. A narrativa se inspira em duas obras da escritora e pesquisadora Sabrina Sedlmayer: Jacuba é gambiarra (2017) e Quem não tem cão, caça com gato: estudando a gambiarra (2024), publicado pela Editora UFRJ. A obra tem sido usada como referência para o projeto da carnavalesca Annik Salmon, desenvolvido em parceria com a enredista Bianca Behrends.
Com mais de 15 livros publicados, Sabrina Sedlmayer é professora universitária na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora bolsista do CNPq há anos, onde atua na área de Letras. Com três pós-doutorados, a professora se concentra em orientar e escrever. Atualmente, é também presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL), instituição que reúne pesquisadores de 24 países e fomenta os estudos de língua, literaturas e culturas dos países de língua portuguesa. Nesta entrevista, podemos conhecer um pouco mais sobre a trajetória da autora e o encontro inesperado com a maior festa popular brasileira.
Conexão: Nós soubemos dessa novidade muito interessante: seus livros estão sendo referência para um enredo de escola de samba. Você pode nos contar um pouco sobre você, seus livros e sobre essa experiência?
Sabrina Sedlmayer: Comecei a dar aula desde os 18 anos de idade. Então, sou uma professora e que tem a sala de aula como esse lugar da transmissão. Me causou muita surpresa quando eles entraram em contato, porque é muito bonito. É tanto tempo de solidão desenvolvendo ali com aquele objeto de pesquisa… Eu trabalho com a questão da gambiarra há mais de 15 anos. Primeiro fiquei muito surpreendida, porque tentei olhar para o mundo e localizar esse tema nas atividades mais ordinárias do cotidiano, onde a gente encontra a gambiarra. Agora, o mundo foi ler esses livros que eu traduzi para a academia e ele vai voltar outra vez para o mundo. Esse trânsito me deixou muito emocionada e muito feliz.
Trabalho a gambiarra não só nos aspectos linguageiros da palavra, mas também como uma estratégia política. Além de estética, acho que ela é incrível. Ela é uma tática. Eu brinco que é a tática dos vencidos. Ela tem uma manifestação muito forte no Brasil em termos de arte. A arte visual, mais ou menos desde os anos 2000, vem trabalhando não só com o significante “gambiarra”, mas também com esses materiais reutilizados e artistas muito bons.
É claro que a gente pensa no Bispo [do Rosário], que não era um artista tout court, mas também se lembra da Carolina Maria de Jesus, como esses sempre estiveram ligados ao resto e transformaram aquele objeto, deram outro uso ao objeto. Porque a gambiarra é mais ou menos isso. Mas temos artistas muito mais cerebrais, que colocaram, por exemplo, uma baita exposição fora do país chamada Poéticas da Gambiarra. O Cao Guimarães, a Rivane Neuenschwander, o Marepe, o Cildo Meireles… É uma quantidade imensa de artistas que já trabalharam e pensam também nessa estratégia daqueles que não têm, da escassez, da falta, e de fazer alguma coisa com isso.
Conexão: Sobre o livro Quem não tem cão, caça com gato: estudando a gambiarra, como você chegou a querer publicá-lo pela Editora UFRJ?
Sabrina Sedlmayer: Eu já tenho muitas publicações internacionais. Meu segundo livro foi publicado em Portugal. Também publiquei pela Editora UFMG, que é uma editora acadêmica, e vários livros meus saíram pela Autêntica, que é uma editora de Belo Horizonte e São Paulo, mas circula pelo Brasil inteiro. O que senti falta com esse trabalho — principalmente o Quem não tem cão, caça com gato, que é um desenvolvimento de Jacuba é gambiarra — é que eu queria voltar para uma editora universitária. É uma pesquisa que o CNPq banca. (…) Então procurei a Editora UFRJ, que já vinha me sondando havia algum tempo, muito por querer esse público universitário. (…) Tento variar as editoras para circular e ter um alcance de leitores, isso em termos de livros, porque artigo a gente publica no mundo inteiro. Mas livros, tenho dois em Portugal, um na Unicamp, esse na UFRJ, vários na Autêntica e os demais pela Editora UFMG. Então, você vê que eu tento expandir. Acho isso importante demais.

Conexão: E essa pesquisa da gambiarra está relacionada ao seu doutorado ou surgiu como uma pesquisa específica de pós-doutorado?
Sabrina Sedlmayer: Do pós-doutorado, na USP. Foi um pós-doc que fiz com a Eliane Robert Moraes. Trabalhei a “rasura do trágico”, tema da minha pesquisa de pós-doutorado, que virou depois uma pesquisa do CNPq. É exatamente um prolongamento. E, a meu ver, o ápice da minha pesquisa é o livro da UFRJ, e não o Jacuba. O Jacuba é um livro bilíngue, em inglês e em português. Eu queria mostrar como, no campo da alimentação, havia também uma gambiarra. Aí inventei esse termo, “jacuba”, que é um prato feito com o que você tem. É só um líquido, uma farinha e qualquer outra coisa. (…) Eu reconheço que meus livros sempre tratam da questão da falta e da fome. Walter Benjamin, que é um filósofo com quem trabalho — 15 anos que eu coordenei o núcleo Walter Benjamin. No Benjamin inteiro existe essa questão dos vencidos. É algo que me punge, que me toca, que tenho vontade… Nunca liguei muito para esses grandes temas, sabe? Assim, o tempo, o espaço, o amor… Fico achando que o Brasil já é um país com tantas rachaduras, com tantas quebras sociais e econômicas, que eu queria muito trabalhar alguma coisa com o dinheiro que é do governo. Eu sou da universidade pública e gratuita.
É uma alegria saber que pessoas dessa festa imensa — que eu nunca vi — sentiram interesse. Nunca vi um Carnaval no Rio, nunca dancei, só vi pela televisão. Vamos ver se eles vão me convidar. (risos) Porque sou uma saturnina, muito melancólica, muito quietinha. Estou achando muito engraçada essa ironia: alguém tão tristinha como eu estar numa festa tão alegre. Estou achando incrível isso. Um milagrezinho, assim. Porque eu só fico estudando. Por isso ver as pessoas lendo, junto com outros livros tão interessantes, chegando a qualquer um. Porque a gambiarra é isso. Eu brinco que ela é a tática dos vencidos. Ou seja, são estratégias dos que não têm. Porque os que têm nem sabem o que é gambiarra. Os que têm, compram e trocam. Eles não estão interessados nessa criatividade que a gambiarra produz, que é mudar as coisas de função, mudar a finalidade das coisas. Um lápis vira outra coisa. Um bombril vira outra coisa. Um clipe vira outra coisa. Então, ver isso na maior festa é muito bonito.
Conexão: Como foi o contato da escola com você? Foi primeiro a carnavalesca ou a equipe de marketing?
Sabrina Sedlmayer: Foi muito engraçado. Eu estava lançando esse livro em Portugal, sobre o António Lobo Antunes, e não uso muito rede social. Aí vi umas pessoas querendo me seguir. Meu Instagram é fechado, porque é um Instagram caseiro. Vi aquelas pessoas me procurando, só que eu estava trabalhando demais e não respondi imediatamente. E aí naquele silêncio de aeroporto, quando você fica fazendo hora, resolvi responder. Eles perguntavam: “Você é a Sabrina Sedlmayer?”. Aí perguntaram: “Você é a que escreveu Jacuba é gambiarra?”. Eu falei: “Sou eu mesma”. Depois outra pessoa falou: “Eu sou do marketing da São Clemente”. Quando vi que era uma escola da década de 1960, “tradicionalésima”, e vi que já tinha assistido a carnavais da São Clemente, descobri também que ela era irreverente, crítica, que não fazia aqueles enredos ufanistas, só elogiando tudo. Aí fiquei muito feliz. Respondi às mensagens, marcamos uma reunião. E foi ótima. A gente conversou umas horas.
Dei muitos toques e falei: “Cuidado, não vai para esse lado. Muita gente pensa a gambiarra só pelo lado positivo. Mas ela também, se a gente pensar em termos de conceito, tem uma face noturna, muito triste. Não pode ser olhada como um museu de curiosidades, porque aí fica aquele olhar exótico, terceiro-mundista”. Então foi uma reunião de verdade. Eles me perguntaram muitas coisas. Eu senti que orientei, assim. Foi muito lindo. Achei a Annik muito sensível. O Rafa, do marketing, também. Estou gostando muito deles. E a Bia também. O que senti, que pode parecer bobo, foi honestidade intelectual. Porque eles poderiam muito bem fazer como a gente sabe que muita gente faz: achar que as ideias estão aí, como um supermercado, e você vai lá, pega uma batata e põe no carrinho. Isso é muito triste. Então achei que existe uma maturidade, uma honestidade intelectual. Eles falaram: “Nós pensamos nesse tema depois de ler os seus livros”. Eu queria que o mundo fosse assim. Que as pessoas respeitassem, porque são 15 anos de pesquisa.
Conexão: O livro da Editora UFRJ pode ser vendido?
Sabrina Sedlmayer: O livro não me deu um centavo porque ganhei um edital da Capes. O recurso foi integralmente para a Editora UFRJ. Eu, como autora, não ganhei um centavo e não vou ganhar um centavo. Ele é vendido, mas não recebo direitos autorais. Porque o dinheiro é do governo. É um livro que foi custeado pelo governo. Por isso ele é tão baratinho. Talvez, se não fosse assim, não teria chegado aonde chegou. Antes mesmo de a escola de samba eleger, ele já estava na segunda edição. A primeira edição acabou rapidíssimo. Lancei o livro no Rio em março, a segunda edição já. O que também é raro. O livro foi lançado no ano passado e este ano já está na segunda edição. O editor, o Marcelo Jacques de Moraes, falou que acha que vai ter a terceira já, já. Então, é um sucesso. Quando a gente vê que é dinheiro do governo, é lindo. É lindo, porque volta para o público.
Conexão: E agora de uma forma ainda mais expandida, não é? Vai para a boca do povo.
Sabrina Sedlmayer: Tomara, oxalá. Porque é o povo que inventa. Eles que são os inventores do cotidiano, é o povo. Eu só fui uma tradutora. Eu só vi a vida, vi o cotidiano com outros olhos. Mas nada é meu, a não ser esse olhar, essa reflexão: ter sido tocada por esse tema.
