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O Grito de Mueda emociona público na UFRJ em apresentação histórica

Montagem dirigida por Maria José Chevitarese revive massacre e reforça laços entre Brasil e Moçambique

O Salão Leopoldo Miguez, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ficou lotado nessa terça-feira, 25/11, durante a última récita de O Grito de Mueda, primeira ópera nacional moçambicana. A produção é uma recriação artística do Massacre de Mueda (1960), episódio decisivo na formação da consciência independentista em Moçambique. A direção-geral é de Maria José Chevitarese, com regência de Feliciano de Castro Comé e direção cênica de José Henrique Moreira. A apresentação contou com a Camerata de Cordas da UFRJ e o Coral Brasil Ensemble.

Antes da apresentação, o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, agradeceu os servidores da Escola de Música e a todos os profissionais envolvidos na produção do espetáculo. Ele também destacou a diversidade das ações realizadas na Universidade, que é capaz de produzir descobertas científicas inovadoras, mas que também produz manifestações culturais singulares, como a ópera apresentada no Salão Leopoldo Miguez:

“Esta é a UFRJ, que descobre a polilaminina, que, se for comprovada, será disruptiva para as pessoas que têm lesão de medula, e que, ao mesmo tempo, faz uma ópera maravilhosa como esta, a primeira ópera moçambicana, com maestro moçambicano, aluno de doutorado da UFRJ, e que relata um tema absolutamente fantástico, como a luta pela soberania de um país e também contra o racismo”, disse o reitor.

O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, agradeceu os servidores da Escola de Música e a todos os profissionais envolvidos na produção do espetáculo | Foto: Fernando Souza

A ópera é uma composição coletiva, da qual participaram, inicialmente, músicos e dramaturgos moçambicanos liderados pelo argentino Óscar Castro. Sua estreia foi em setembro de 2019 em solo moçambicano. Foi trazida ao Brasil pelo doutorando Feliciano de Castro Comé, que também fez parte do processo de criação e apresentação da ópera em Moçambique. Em cena, a ópera evoca temas universais, como a luta contra arbitrariedades, unidade entre os povos africanos, solidariedade, autoestima e esperança.

Feliciano de Castro Comé foi o regente do espetáculo apresentado na Escola de Música da UFRJ | Foto: Fernando Souza

“Tanto o libreto como as canções foram escritas de forma coletiva. O preparo da obra para a estreia moçambicana em sua grande parte foi feito pelo processo de transmissão oral, no qual a improvisação esteve sempre presente. Não havia partituras de orquestra, e para essa montagem partimos de uma grade de coro, que continha indicações das linhas melódicas para o coro e cifras, e também de um vídeo gravado ao vivo durante a apresentação da ópera na estreia em Maputo, capital de Moçambique. A partir destas pontes, editamos toda a obra, tentando manter o mais fiel possível. Além disso, havia canções que estavam previstas no libreto, mas que não tinham sido compostas”, explicou Maria José Chevitarese.

A última récita de O Grito de Mueda, primeira ópera nacional moçambicana | Foto: Fernando Souza

A obra reuniu músicos e dramaturgos de Moçambique, Argentina e Brasil, e resultou em uma reflexão sensível sobre memória e resistência.