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Conexão Literária #17: Parceiras

O escritor Charles Luiz traz um conto de ficção fantástica pelo Nordeste brasileiro

Era difícil para Carla aceitar que o sol carioca não se comparava ao calor do Nordeste. As estradas das redondezas de Salvador eram tão quentes que alguns visitantes suspeitavam ser possível fritar um ovo no asfalto. Essa era uma das piadas que ela e sua mãe mais ouviram nos engarrafamentos da viagem.

         — Como uma viagem de 19 horas se alongou por quatro dias? — a jovem perguntou, antes de levar seu milkshake à boca. — Meu pai vai matar você. Eu deveria estar no Rio no domingo.

         — Que se dane seu pai! — Regina riu no meio da resposta. — Não me lembro de você reclamando quando estávamos naquele iate em Recife. Talvez estivesse com a boca ocupada. Qual era o nome dele mesmo? Thiago?

— Mãe! Que nojento.

         — O que foi? — Regina ajeitou os cachos na cabeça. Seu cabelo era comprido e por vezes atrapalhava sua vista enquanto dirigia. — Eu já tive sua idade. Se não fosse por namoricos de verão, você nem estaria aqui.

         Mãe e filha já estavam a caminho de Mossoró, última parada antes de seguirem para seu destino final: as Dunas do Rosário. Certamente aquelas eram as férias mais divertidas de Carla. A princípio, seguir de carro de Salvador ao Rio Grande do Norte não era uma boa ideia. Porém, Regina conseguia deixar tudo mais divertido, mesmo isso sendo parte do seu trabalho.

         — É ótimo quando meu trabalho se torna tão alegre — a mulher admitiu para sua filha, depois de muito rirem das idiotices da viagem. Como quando viram um idoso mijando em cima de um telhado. — Você podia estar de férias mais vezes.

         — Só mais um pouco e eu acabo o ensino médio — comentou a garota, certa de seu futuro. — Assim posso passar mais tempo com você, viajando e tudo mais.

         — Não é tão simples, Carla. Não posso ficar te trazendo pra todos os trabalhos, é perigoso. Sabe que seu pai…

         — Que se dane meu pai! — repetiu o que sua mãe disse mais cedo. — Se ele quer ser um engravatado de escritório, tudo bem. Mas eu quero isso! A estrada, os monstros. Me deixa ir pra Academia. Quero pelo menos tentar ser igual a você.

         — Tanto faz, só não quero que vire uma desempregada qualquer. Do jeito que é esperta como teu pai, vai ser uma caçadora muito melhor do que eu.

Um tempo depois…

“Por Deus, ainda bem que esse lugar tem ar-condicionado”, pensou Carla, ao fugir do calor de Mossoró num pequeno restaurante da cidade. No almoço pediram um ensopado de caranguejo que a jovem nunca havia provado. E estava ótimo.

         A jovem notou rapidamente a beleza da cidade aonde chegaram. Havia poucos prédios por onde passou, bem menos do que estava acostumada na capital carioca. As construções eram simples, mas muito bem arquitetadas e preservadas. Não fosse pela falta de praias, o passeio favorito da garota, ela passaria semanas muito bem por ali.

         — Esquecemos de passar o protetor solar — comentou a garota. — Tanto sol não faz bem pra pele.

         — Pelo menos não vamos ficar descascando ou ardidas — disse Regina, massageando seus ombros para certificar-se do que falava. Ela era uma mulher bem vaidosa. Muitos diziam que aparentava ser mais nova do que realmente era.  — Vantagens da melanina — é o que sempre respondia.

         O restaurante onde estavam era aconchegante. Bem pequeno, lembrando as pensões que costumam frequentar no Rio de Janeiro. As mesas quadradas eram de madeira e a janela, que tinha vista para a rua, era fechada com uma grade pintada de branco. Sentaram-se perto da geladeira de bebidas e do congelador repleto de vários tipos de sorvete. Um ambiente totalmente agradável, mas pouco movimentado.

         — Mas minha marquinha tá ótima — Carla comentou, olhando para si mesma.

         — Assim vai arrumar um namorado rapidinho.

         — Mãe! — repreendeu. — Tá fazendo de novo!

         — O que foi? Está certo, vou parar com isso.

         — É o que sempre diz — a jovem revirou os olhos, mas não estava realmente chateada. — Agora vamos, chega de baboseira e me conte o que viemos procurar. Essa é a última parada e você não me disse.

         — Quer mesmo estragar o almoço falando de trabalho? — nem precisou de uma resposta. Regina viu a convicção no olhar de sua filha. Deu mais uma garfada no caranguejo antes de continuar. Depois, disse em voz baixa e entre as mastigadas: — É claro que quer. Bom, eu nem acreditei na fofoca, mas o pessoal da Academia me implorou pra verificar. Estamos atrás do Corpo-Seco há quase cinco anos. Ele voltou pro Nordeste, seu lugar de origem. Isso já sabemos. Mas esse cara me disse que rastreadores paranormais encontraram vestígios dessa aparição nas Dunas do Rosado. Ele é confiável, mas não sei não.

         — O quê?! — Carla se exaltou, antes de baixar a voz assim como a mãe. — O Corpo-Seco é tipo… o vilão final dos bichos-papões. Estamos indo atrás do drácula e você não traz um exército?

         — Decidi vir sozinha porque sei que não é o bichão lá. Os níveis de energia paranormal alegam “vestígios”. Se fosse o poder desse daí, todos os alertas escondidos no Nordeste iam disparar. Tipo um “cataclisma”.

         — Então, se não é ele, o que você acha que é?

         — É o que viemos descobrir — a mulher se acomodou na cadeira novamente e melhorou o tom de voz. — Não quero que fique preocupada, viu? Sabe o quanto eu sou boa, confie em mim.

         Não houve resposta. No lugar disso, Carla sacou seu celular e começou a teclar rapidamente.

         — O que está fazendo? Vai me ignorar?

         — Não é isso. Se vamos correr esse risco, quero pelo menos estar preparada. Quero saber tudo que temos sobre o Corpo-Seco. Meus amigos lá da Academia continuam atualizando aquele aplicativo de bestiário. Você não viu? É por lá que eu estudo essas coisas.

         — Jovens e seus aplicativos… você está mesmo se preparando para se tornar uma de nós.

Acalmados os ânimos, ambas voltaram a comer.

Um tempo depois…

Elas se divertiram até o pôr do sol, logo depois do café da tarde. Quando viram os primeiros traços do céu noturno, era hora de botar de novo o pé na estrada. Mais duas horas de viagem foram suficientes para chegarem ali, no meio do nada.

         — Posso até ser corajosa, mas nunca vou me acostumar com esses passeios noturnos — comentou a filha.

         — Não estamos passeando, cabeçuda. Estamos trabalhando — corrigiu a mãe. — Além disso, prende essas tranças antes que elas prendam em algum lugar.

         — Eu esqueço que esse seu coque-abacaxi tem motivo.

         — Respeite sua mãe! — Respondeu com tapinhas amistosos no braço da garota.

         Na querida picape amarela, seguiram dunas adentro até depois que as estradas terminaram e tudo que restou debaixo das rodas era areia. A vegetação era muito baixa e seca, as pedras eram dignas de algum dos famosos desertos africanos. Se não estivessem acostumadas com paisagens exóticas, diriam que aquilo não se tratava do Brasil, mas estariam erradas.

         Parando para pensar, Carla imaginou como seria legal apreciar essas paisagens com a luz do sol, sem o clima sinistro da noite escura. Não muito interessada no breu da janela da picape, passou o caminho todo vasculhando o aplicativo de bestiário, no qual os jovens da Academia compartilhavam entre si as informações dos monstros catalogados.

         — Pelo visto é aqui. — Depois de alguns minutos seguindo ao interior do deserto, Regina estacionou o veículo ao lado de um pequeno lago. O lugar lembrava muito o que dizem sobre algum oásis: um punhado de árvores, pedras e água no meio do deserto árduo. Mas aquele local escondia segredos inimagináveis.

         As duas saíram do carro ao mesmo tempo. Não estavam desarmadas. Todavia, menos armadas do que gostariam.  Encararam a total escuridão por alguns segundos e logo em seguida Carla acendeu a lanterna. Diante delas, na vasta escuridão, havia a pequena entrada de uma caverna.

         — Não podemos demorar. Já sinto o mau cheiro — comentou a mulher, segundos antes de se assustar com algo se mexendo no meio do matagal. — Ei! O que é aquilo?

         Carla apontou a lanterna para a direção do mato num único pulo. Rapidamente revelou o motivo do seu susto: um grupo de aves, parecidas com patos, que se moviam sorrateiramente em direção ao lago.

         Quando ouviu o grasnado do animal, a jovem não pôde deixar de soltar um sorriso.

         “Não tinha momento melhor para aparecer”, pensou.

         Convictas, entraram na caverna sem olhar para trás. Mãe e filha não se distanciaram a mais de um metro nem por um segundo, guiando-se apenas pela luz da lanterna. Do lado de dentro a caverna era bem maior do que parecia. Seus caminhos eram ladeiras rochosas sem um pingo de água empoçada. As paredes não tinham uma raiz sequer. Era um ambiente totalmente seco.

         Andaram por alguns metros até que, durante uma curva no trajeto, Regina notou algo curioso.

         — Cinzas. — Havia áreas no chão totalmente cobertas por aquilo. Poderiam ser cadáveres queimados ou apenas resquícios de fogueiras. Não conseguiriam saber.

         O cheiro estava ficando pior a cada passo para o interior da caverna. Até que elas chegaram num espaço um pouco maior. A câmara de pedra, pelo que conseguiam ver com a pouca iluminação que tinham, estava cheia de tecidos e pequenas lascas de madeira queimadas, como se uma fogueira tivesse sido feita ali há muito tempo. No meio dos escombros, algo reluzia nitidamente, como um espelho. Reviraram a bagunça com os pés e um baú de madeira se revelou no meio da tralha. Estava sujo, repleto de cinzas e poeiras, mas intacto. O baú era comprido. Daria para dizer que tinha a metade do tamanho de um caixão, mas era estreito demais para guardar um corpo.

         — Alguém tentou destruir — disse Carla, curiosa quanto ao conteúdo do baú. — Deve ser importante.

         Usando uma das madeiras velhas, Regina, sem responder, abriu a tranca que guardava o segredo da caixa. Com as mãos sujas, levantou a tampa do baú lentamente até se deparar com uma pá.

         — Uma pá? — sua filha lhe questionou.

         Porém, assim que Regina decidiu empunhar a estranha relíquia, foi contemplada com uma visão.

“Foi enterrado com essa pá o homem que foi rejeitado até pelo próprio diabo. Sua maldade era tanta que até a terra o rejeitou. Eis o objeto que sepultou o Corpo-Seco.”

         Ao contar o que viu para sua filha, ambas ficaram perplexas. Como é possível que um objeto de tamanha importância ainda esteja intacto? Talvez o poder do Corpo-Seco esteja presente nele. Esse é o vestígio. Por isso não foi destruído pelo fogo.

         — Se é tão importante, por que encontramos com tanta facilidade? — Não demorou nem um segundo e… Assim que a jovem terminou os dizeres, um grito de agonia ecoou por toda a caverna.

         — Você precisava mesmo abrir a boca? — resmungou sua mãe. — Vamos, temos que sair daqui antes de…

         Era tarde demais. A caverna já não estava tão escura quanto antes. Pequenos focos de luz surgiram no meio do breu, da cabeça de serpentes vermelhas que rastejavam silenciosamente pelas pedras. As duas estavam cercadas por boitatás, as cobras de fogo. Esses animais eram de cor alaranjada e suas cabeças queimavam feito uma tocha. Não eram dos mais poderosos, mas incomodavam em qualquer tarefa quando encontrados.

         “Corre!”, foi o que Carla pensou em dizer. Mas, quando se deu conta, já estava correndo. A garota estava de posse de um facão grande como seu antebraço, e suas habilidades com ele eram de se invejar. Cortou a cabeça de duas serpentes tão rápido quanto sua mãe alvejou outras três com disparos de pistola.

         Aquilo foi suficiente para abrir caminho às passagens da caverna. Mas ainda estavam em apuros. Carla teve dificuldades para deter os botes das serpentes enquanto guiava a mãe com a luz da lanterna pelos caminhos. Todavia, no fim, elas eram uma boa dupla. Tiros e cortes foram lançados para todos os lados e, bem mais rápido do que elas imaginavam, chegaram ao lado de fora.

         Assim que viram a confusão entre serpentes de fogo e as moças, os patos fugiram do lago, desesperados.

         Os boitatás não foram até muito longe. Ao chegarem perto da picape, já não estavam mais sendo perseguidas. Ou, pelo menos, era isso que pensavam.

         Paradas de frente para a picape, ofegantes e assustadas, ambas se encaram com um misto de entusiasmo e alívio no olhar.

         — Eu te abraçaria, mas estou imunda — comenta a jovem.

         — Relaxa, eu também. — Antes de Regina pensar em se recompor, algo puxou seu pé. Nesse momento, lembraram-se do grito que ecoou na caverna. Boitatás não falam. Nem gritam. Internamente, a caçadora reclamou consigo mesma por não ter percebido. Baita vacilo.

         O monstro que a puxou era um bradador, espírito maligno com aspectos de caveira que estava pronto para sugar sua alma. Ela tentou puxar sua pistola, mas a deixou cair no chão.

         — Mãe! — Carla gritou de desespero ao vê-la, inutilmente, debater-se contra o espírito. Seus socos e pontapés passavam direto pelo corpo fantasmagórico da criatura.

         Quando a raiva e o desespero de Regina estavam bem maiores que a coragem, uma luz se acendeu. Sua filha apontou a lanterna em direção a ela e ao monstro. O bradador gritou de agonia. No entanto, antes que pudesse fugir da luz, foi alvejado por dois tiros da pistola, que agora estava nas mãos de Carla.

         “Obrigada”, pensou Regina. Mas somente conseguia pensar no vacilo que cometeu. Aquilo poderia ter custado sua vida e a de sua filha.

         — Eles ficam intangíveis na escuridão. Li no aplicativo — revelou Carla, finalmente. A mãe, agora, só podia sentir orgulho.

         Sentadas na picape, tentavam se acalmar antes de pôr, de novo, o pé na estrada.

         — Está ferida? — perguntou Regina, avaliando os arranhões que sua filha levou durante a corrida pela caverna. — Nossa, esse corte aqui está feio. Vai fazer uma baita cicatriz. Seu pai vai me matar! — Nesse caso… — ela respondeu com uma risada. — Ele vai adorar a pá que conseguimos.

Charles posa pra foto e tem uma mão no rosto.

Charles Luiz é estudante de Letras−Literaturas e pesquisador de Literatura Contemporânea Brasileira. Revisor e editor de textos da Procuradoria Geral do Estado e, mais importante, leitor e escritor sedento de ficções fantásticas.

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