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Plano Popular da Vila Autódromo conquista prêmio internacional

O projeto que prevê alternativas à tentativa de remoção da comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro foi idealizado por moradores e contou com o apoio do Instituto de Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Por Gustavo Natario

O Plano Popular Vila Autódromo, uma alternativa à tentativa de remoção dessa comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro, ganhou a premiação máxima do concurso Deutsche Bank Urban Age Award (DBUAA), realizado na última terça-feira, 3/12, na sede do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).
 
O projeto foi idealizado pelos moradores da comunidade e contou com a participação decisiva do Núcleo Experimental de Planejamento Conflitual (NEPC), que faz parte do Instituto de Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, além da contribuição da Universidade Federal Fluminense (UFF).
 
Como prêmio, o Plano Popular receberá U$ 80 mil. Segundo o coordenador do NEPC, professor Carlos Vainer, a decisão do que será feito com o dinheiro caberá à associação de moradores da Vila Autódromo, que deverá convocar uma reunião para discussão interna.
 
O professor ainda informou que a UFRJ está assessorando outras comunidades com o mesmo problema no Rio de Janeiro, dentre elas a Arroio Pavuna, próxima à Vila Autódromo, e localidades da comunidade Santa Marta.
 
Desenvolvido a partir de 2011, o Plano Popular consolida uma alternativa de planejamento urbano da Vila Autódromo. A ideia é que a população, assessorada por pesquisadores e professores especializados, possa elaborar soluções para a sua própria comunidade. Desta maneira, o projeto é classificado como “uma luta popular e não um monopólio de políticos e tecnocratas”, segundo informa o documento do projeto, publicado em 2012.
 
Um dos motivos alegados para a remoção da vila é a ocupação de uma parte da faixa marginal de proteção de 15 metros de largura ao longo da Lagoa de Jacarepaguá. O plano alternativo prevê o reassentamento, dentro da própria comunidade, dos moradores que estão nesta área. Além disso, um parque com vegetação nativa seria criado no local.
 
Segundo o professor Carlos Vainer, além de afirmar que a localidade está parcialmente em uma zona de proteção ambiental, a prefeitura do Rio já alegou outros motivos para tentar justificar a remoção. “A comunidade ficaria no local do Centro de Mídia dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e do estacionamento do Parque Olímpico. Ou então, uma alça viária ligando a Transcarioca à Transolímpica, duas vias expressas que estão sendo construídas, passaria pela Vila Autódromo. A última justificativa é que existe um projeto de alargamento da Avenida Embaixador Abelardo Bueno”, criticou o professor.
 
“Eduardo Paes já declarou em público que havia cometido erros com relação à comunidade. Mas continuou sendo muito intransigente nas discussões com os moradores, sempre propondo, ao menos, a remoção de uma parte do local”, disse Vainer.
 
A população da Vila Autódromo não quer apenas a manutenção da sua comunidade. Os moradores também reivindicam melhoria na qualidade de vida, já que os órgãos públicos sempre foram omissos com o local. Eles querem a implantação de uma rede pública de água, de esgoto sanitário e de coleta seletiva de lixo. Outro problema são as recorrentes enchentes em dias de chuva. Para facilitar o escoamento de água, um sistema de drenagem foi proposto.
 
A comunidade também carece de áreas de lazer para todas as faixas etárias e de escolas públicas próximas. A principal demanda é por uma creche, pois existem muitas crianças de zero a 6 anos lá. Segundo uma pesquisa do IBGE, realizada em 2010, a Vila Autódromo tem 145 crianças nessa faixa de idade.
 
A determinação e a resistência da comunidade impressionam. Quanto a isso, Carlos Vainer é categórico: “A Vila Autódromo está resistindo bravamente”. O professor acredita que a prefeitura quer fazer uma “limpeza” étnica e social na região e afirma com uma dose de esperança: “Espero que o prêmio dê legitimidade ao projeto e à luta da comunidade”.

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