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Seminário discute os 40 anos do lançamento do livro “Crítica à Razão Dualista”

O Centro Celso Furtado promoveu, na última sexta-feira (21/9), um seminário para comemorar os 40 anos da primeira edição do livro Crítica à Razão Dualista, de Francisco de Oliveira, que marcou a sociologia brasileira.

 O Centro Celso Furtado promoveu, na última sexta-feira (21/9), um seminário para comemorar os 40 anos da primeira edição do livro Crítica à Razão Dualista, que marcou a sociologia brasileira, de autoria de Francisco de Oliveira. O encontro, realizado no Centro de Filosofias e Ciências Humanas da UFRJ (CFCH), contou com as presenças do professor Reinaldo Gonçalves, do Instituto de Economia da UFRJ; da economista e socióloga Tania Bacelar, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); da socióloga Cibele Rizek, da Universidade de São Paulo (USP); do sociólogo e historiador Mauro Iasi, da Escola de Serviço Social da UFRJ; e da presidente do Centro Celso Furtado, Rosa Freire Furtado. O grande homenageado, Francisco de Oliveira, teve problemas de saúde ao receber a notícia do falecimento do professor Carlos Nelson Coutinho, de quem era amigo, e não pôde comparecer ao evento.

Antes do início do debate, Rosa Furtado contou sobre a convivência que teve com o professor Carlos Nelson Coutinho, dizendo que aprendeu muito com ele. Rosa também lembrou a amizade entre Celso Furtado, seu falecido marido, e Francisco de Oliveira, apesar de o livro Crítica à Razão Dualista conter críticas à Teoria do Subdesenvolvimento, de autoria do próprio Celso Furtado. A mediadora do encontro disse que esse fato é irrelevante e que ela foi a primeira a aceitar a homenagem à obra.

Primeira a ter a palavra no debate, Cibele Rizek se desculpou pelo "caráter dialógico" de sua fala, pois contava com a presença do autor homenageado. Rizek lembrou que está presente na obra uma resposta à Teoria da Dependência, publicada pelo sociólogo que viria a se tornar presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso. Segundo Rizek, Francisco de Oliveira sempre criticou a corrente que denominava “sociologia paulista” por condenar a intervenção do Estado na economia. “Mas mal sabia ele que viraria referência para essa tal de sociologia paulista", frisou.

Ao afirmar que Chico de Oliveira ancorou sua discussão na acumulação de capital e na articulação entre política e economia, Rizek lembrou a tese da funcionalidade, representada na pergunta retórica do autor: "A quem serve tudo isso?" A convidada ainda citou a avaliação de Francisco de Oliveira sobre a própria obra: "A minha crítica pertence ao campo marxista, com especificidade cepalina".

“O ressurgimento de arcaísmos”

Dando sequência ao debate, o sociólogo Mauro Iasi lamentou o "atual esvaziamento de conteúdo sobre o tema do desenvolvimento". Entre outros elogios à obra Crítica à Razão Dualista, afirmou que o texto é inovador para a época e, não por acaso, gera reflexão 40 anos depois de sua publicação. Por meio do conceito hegeliano de dialética, o convidado explicou que a revolução burguesa no Brasil se completa sem romper com o antigo regime.
"Francisco de Oliveira trata o populismo como um pacto social entre as classes trabalhadoras e o governo, sendo que, na verdade, não é feito diretamente com os trabalhadores, que só teriam a perder com isso, mas com a burocracia partidária e a sindical, que sequestram as demandas trabalhistas para buscar a harmonia com o Estado burguês", destacou Iasi.

O convidado encerrou sua participação justificando por que a obra é um marco para a discussão política no Brasil: "Mesmo que digam que o argumento do autor de que o Brasil não romperia com o antigo poderia ser desmentido pelo atual desenvolvimento brasileiro com inclusão social, o que aconteceu, como ele previa, foi a retomada dos arcaísmos da política brasileira, como o populismo".

A questão agrária

Já Reinado Gonçalves contou que, na época do lançamento do livro, encantou-se com a forma com que Francisco de Oliveira apresentava suas teses, mas não conseguiu entender todo o conteúdo da obra na primeira leitura. "Vinte anos depois, quando li o texto pela segunda vez, já conhecendo as teses do autor, o impacto que senti foi maior. Agora, passados outros 20 anos, a minha admiração aumentou ainda mais; o que me chama atenção é o método, ele tem uma precisão impressionante na definição do seu conjunto de teses que se reúnem em uma tese maior. Deve ser o único livro que eu li três vezes." Para Gonçalves, muitos têm conhecimento, mas Francisco de Oliveira demonstrou que, além disso, tem criatividade, rigor e coragem: "Francisco de Oliveira preconizou a força que tomaria o sistema financeiro desde aquela época".

Última a falar, Tânia Bacelar propôs que se abordasse a questão agrária, ainda não explorada na mesa. Bacelar enfatizou a característica brasileira de o moderno se alimentar do atrasado, usando a situação da agricultura brasileira como exemplo: "A gente ainda encontra trabalho escravo nessa agricultura tão moderna". A convidada continuou a análise: "A estrutura arcaica permanece até hoje, continuamos com um desenvolvimento baseado na agricultura, e a concentração fundiária aumenta. Mas não se pode dizer que a sociedade não se organiza contra isso, pois temos o MST".

Encerrando a homenagem à obra de Francisco de Oliveira, Bacelar afirmou: "O livro me ajudou a escapar da visão do colonialismo moderno, que não vê que o verdadeiro problema não está nas relações inter-regionais, mas na questão capital versus trabalho. O livro também me ensinou que, apesar de a CLT ter sido um inegável avanço, seu papel era o de segurar a luta do trabalhador, em um contexto de industrialização e aumento da produtividade no país”.