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Memória

Anita e a Coluna Prestes

Professora aposentada do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ, Anita Prestes ministrou uma aula do “1º Curso de Extensão História dos Movimentos Sociais no Brasil, do século XIX aos nossos dias”, realizado pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (Nepp-DH) da UFRJ, na última quarta (18/4).

Em palestra no Nepp-DH, historiadora analisa um dos principais movimentos sociais do século XX

 A trajetória de Anita Leocádia Prestes está intrinsecamente vinculada à história dos movimentos sociais no Brasil. Luís Carlos Prestes, pai de Anita, liderou a Coluna Prestes, aquela que foi, nas palavras da historiadora, “um movimento de militares com participação popular”. Professora aposentada da UFRJ e atualmente vinculada ao Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ, Anita ministrou uma aula do “1º Curso de Extensão História dos Movimentos Sociais no Brasil, do século XIX aos nossos dias”, realizado pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (Nepp-DH) da UFRJ, na última quarta (18/4).

Anita Prestes destacou a importância do movimento, desfez alguns mitos e contou curiosidades sobre a marcha liderada por seu pai. “A Coluna Prestes contou com cerca de 1500 homens, dos quais, apenas 12 oficiais. A maioria era de soldados, civis, gente do povo. No cerco das tropas legalistas a São Luiz Gonzaga, havia aproximadamente 14 mil homens do governo Artur Bernardes. Mesmo assim, a Coluna não sofreu uma derrota sequer. No entanto, até hoje, as classes dominantes tentam apagar a memória daquele movimento”, afirmou.

A estratégia de Prestes, de acordo com a historiadora, era “conhecer bem o terreno e os inimigos. Só assim, eles conseguiram implementar a ‘guerra de movimento’ e escapar ilesos aos cercos impostos pelas tropas federais”. Ainda segundo a análise de Anita Prestes, o objetivo da Coluna era partir para o interior do país, atrair a atenção das tropas governistas e provocar levantes nas grandes cidades, principalmente no Rio de Janeiro, então sede do governo federal, onde se encontrava o presidente Artur Bernardes.

No entanto, o movimento terminou antes de atingir seu ápice. “A Coluna escapou do cerco federal por diversas vezes sem sofrer nenhuma derrota e chegou a derrubar 18 generais do Exército. No entanto, percebeu que a missão de tomar a capital federal seria impossível. Assim, tomou o rumo da região Norte e seus líderes foram obrigados a buscar exílio na Bolívia”, recordou.

Legados

A Coluna Prestes deixou legados. “Embora não se possa afirmar uma ligação tão direta entre os dois movimentos, a Coluna contribuiu para um clima político favorável para a vitória de Vargas e seus seguidores em 1930”, disse, referindo-se ao movimento liderado por Getúlio Vargas, que governaria o país durante os 15 anos seguintes, além do período 1951-1954. De acordo com a historiadora, Prestes recusou-se a participar do movimento por perceber que este não intencionava uma reforma socioeconômica estrutural no país. “Na verdade, o que Vargas propiciou foi a substituição de uma velha oligarquia por outra. Vargas era um grande oligarca agrário e promoveu um avanço no capitalismo no país. Já Prestes representava uma grande liderança dos trabalhadores e passou à história como um dos principais líderes da história dos movimentos sociais no Brasil”, comentou.

Anita Prestes derruba o mito de que a Coluna Prestes tratava-se de um movimento de ideologia comunista ou socialista. “Nem Prestes nem os demais líderes do movimento tinham conhecimento das Ciências Sociais. Eram liberais. Tanto que alguns integrantes do movimento se entusiasmaram com a Revolução de 1930 e fizeram parte do governo Vargas”, analisou a historiadora.

Lampião

A professora do PPGHC recorda ainda que o governo federal contou com o apoio de latifundiários para debelar a Coluna. “Alguns coronéis colocavam jagunços à disposição do governo para combater os revolucionários”, afirmou. No entanto, um famoso cangaceiro nordestino conseguiu ludibriar Artur Bernardes. “Lampião foi convidado para perseguir os revolucionários e impedir que a Coluna avançasse. Aceitou de bom grado a recompensa e os armamentos oferecidos. No entanto, ao cruzar com Prestes e seus comandados, deixou que eles progredissem e se recusaram a combatê-los”, contou a historiadora.

Uma nova Coluna?

Para Anita Prestes, imaginar uma nova Coluna Prestes em pleno século XXI soa por demais anacrônico. Apesar de constatar que, hoje, ainda há resquícios de uma estrutura social extremamente desigual no país e a relação entre explorados e exploradores ainda permanece, Anita acredita em outras formas de resistência. Sobre o governo petista, há dez anos à frente da administração federal, a historiadora e professora do PPGHC-IH-UFRJ posiciona-se criticamente. “Acho que é uma continuidade da política neoliberal do governo Fernando Henrique. Enquanto os bancos continuam lucrando, os trabalhadores e movimentos sociais têm que se contentar com as migalhas oferecidas”, finalizou Anita Leocádia Prestes.