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Jogo de interesses no Carnaval envolve política, fama e comunidades

A terceira e última matéria sobre o Carnaval, realizada pela equipe do Portal UFRJ, questiona se ainda há identidade com as comunidades que, de fato, trabalham durante o ano todo para fazer a festa acontecer.

As adequações às regras do desfile para favorecer a transmissão televisiva vêm provocando mudanças no ritmo dos sambas-enredo, na harmonia, evolução, fantasias e demais quesitos. Há muitos carros alegóricos, efeitos especiais, entre outras novidades desfilando na avenida nos últimos Carnavais.

A terceira e última matéria sobre o Carnaval, realizada pela equipe do Portal UFRJ, questiona se ainda há identidade com as comunidades que, de fato, trabalham durante o ano todo para fazer a festa acontecer. Ou se o Carnaval tornou-se um grande negócio com enredos encomendados por grandes empresas, políticos que patrocinam escolas para promover suas cidades/estados, turistas e celebridades que tomaram o lugar dos foliões com samba no pé.

De acordo com a professora Helenise Guimarães, vice-diretora da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ, o samba-enredo e o ritmo do desfile foram alterados em função do espaço cênico onde a escola se apresenta e o tempo que lhe é destinado pelo regulamento. “Se antes elas (as escolas) desfilavam por até 18 horas, sem muita preocupação, a partir dos anos 1970, adotam-se parâmetros de tempo para definir a apresentação, e a fluidez do desfile requer sambas mais rápidos”, diz.

Sobre o número de elementos alegóricos, Helenise assegura que não há excessos. “Existe uma divisão proporcional para as escolas. Os elementos pontuam cenograficamente o desfile de cada agremiação. As comunidades continuam participando e há uma tendência cada vez maior das escolas em financiar numerosas alas da comunidade para garantir, cada vez mais, a perfeição da apresentação, em que o elemento afetivo dos grupos auxiliará no desempenho do todo”, explica a docente.

A respeito do enredo patrocinado, a professora afirma que isso é resultado do custo, cada vez mais alto, do próprio espetáculo, do interesse das agremiações e a contrapartida do interesse de empresas ou estado em aparecer na "vitrine" do sambódromo.

Por último, sobre a participação da comunidade, “as escolas fazem uma triagem e buscam ser equilibradas no que se refere ao excesso de turistas. A participação de celebridades não afeta a participação das comunidades, embora o desfile seja de fato muito caro. Quanto ao samba no pé, é uma questão técnica. Com o tempo reduzido, é difícil se ver, hoje, passistas parando para grandes apresentações, mas, sim, pode-se dizer que o verdadeiro folião ainda busca sua escola”, conclui Helenise.