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Gestão social é debatida junto a moradores de comunidades

No primeiro dia de debates (14/12), o “1º Seminário de Gestão Pública em Áreas Pacificadas”, realizado no Salão Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura (FCC), abordou temas como movimentos sociais, cidadania e direitos humanos. O círculo de palestras, que durou até sexta-feira, 16/12, teve o objetivo de integrar os meios acadêmico e civil, além do poder público, para encontrar soluções aos problemas relacionados às comunidades do Rio de Janeiro e seus respectivos moradores.

No primeiro dia de debates (14/12), o “1º Seminário de Gestão Pública em Áreas Pacificadas”, realizado no Salão Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura (FCC), abordou temas como movimentos sociais, cidadania e direitos humanos. O círculo de palestras, que durou até sexta-feira, 16/12, teve o objetivo de integrar os meios acadêmico e civil, além do poder público, para encontrar soluções aos problemas relacionados às comunidades do Rio de Janeiro e seus respectivos moradores.

O evento, coordenado pelo doutorando e mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Daniel Misse, contou com a organização da Secretaria do Estado de Assistência Social e Direitos Humanos (SEASDH) e da Superintendência de territórios. Além disso, as palestras tiveram apoio do FCC, do Laboratório de Direitos Humanos (LADIH), vinculado à Faculdade de Direito da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito (PPGSD) da UFF.

O grupo de trabalho em Gestão Social e Cidadania compôs o segundo ciclo de debates. A mesa incluiu os gestores do “Território da paz” Jocelene Ignácio (Providência) e Bruno Machado (Cidade de Deus), ambos do SEASDH, que trouxeram, respectivamente, Sidney e Yara, representantes das comunidades.

Sidney, morador do morro da Providência há 37 anos, falou sobre a remoção dos moradores para que projetos como o “Porto Maravilha” sejam concretizados. Segundo ele, a revitalização daquela área implica uma realocação dos habitantes pela prefeitura. Desta forma, frisou a importância da união dos residentes diante dos abusos. “Alguns moradores saem de suas casas por quantias irrisórias (cerca de seis mil reais), ou se submetem a aluguel social. Quem escolhe esses valores? Cada pessoa sabe o quanto gastou e sofreu pra ter sua casa própria, e a prefeitura não sabe mensurar isso”, contestou.

O representante da Providência abordou ainda a questão de planejamentos como o “Morar carioca”, apresentado pelo prefeito aos moradores em janeiro deste ano. “Os políticos chegam aqui mostrando vídeos e maquetes como se isso fosse solucionar todos os problemas. Não perguntam a opinião dos moradores, nem se isso realmente será útil. E, na verdade, nada saiu do papel desde o começo do ano”, explicou.

Yara, pedagoga e representante da Cidade de Deus, falou do pioneirismo da comunidade no que tange à organização em busca de uma identidade social, antes mesmo do advento das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Coordenadora do grupo “Alfazendo” (http://alfazendo.blogspot.com/), a moradora afirmou fazer parte de movimentos sociais há 25 anos.

A pedagoga discorreu com segurança sobre os conflitos entre poder público e moradores da favela, destacando a importância do trabalho da academia como mediadora. “O estudo de campo, feito pelos especialistas, é capaz de construir uma consciência coletiva em prol das comunidades, mas é primordial que estas análises não se detenham à universidade”, explicou Yara, afirmando que as teses devem ser levadas às autoridades de alguma forma.

Sobre planejamentos, a moradora falou da conexão entre saber acadêmico e popular. Para ela, ambos se complementam. “Ninguém sabe de tudo. Ouvir os moradores é essencial porque eles sabem o que deve ser prioridade. Ater-se a isso é uma questão de não desperdiçar dinheiro público." Para ilustrar sua fala, Yara citou o exemplo do centro de formação tecnológica que seria construído no lugar do Colégio Pedro II. “Os bandidos ou os que estão suscetíveis ao crime não vão deixar de roubar, traficar, saindo de suas posições de comando, para serem subalternos. Pois em um curso de capacitação de 15 dias, só isso que dá pra ser”.

Yara falou também sobre a importância de não se banalizar os fatos, absorvendo a visão da mídia. Segundo ela, projetos sociais exigem entrega, emoção e empatia. “Não é só mais um que morre, não é só mais um que perde o emprego, não é só mais um! É um ser humano”, declarou.

Por fim, a questão da dificuldade em criar grupos de resistência foi discutida por gestores e moradores. Chegou-se a um consenso de que, em geral, as pessoas esperam por um líder, alguém que vai resolver todos os problemas sozinho. “Esse líder é aquele que, se tudo der certo, será exaltado; se der errado, vai preso”, disse a pedagoga. Bruno Machado completou sua fala: “E quando as comunidades se organizam, são prontamente desarticuladas por forças externas. Já está na hora de se (re)pensar políticas públicas de baixo para cima”, concluiu.