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América Latina em debate

Qual é o primeiro passo para entender as desigualdades que afetam o mundo? E, feito isso, como a América Latina (AL) se insere nesse contexto díspar? Essas foram algumas das questões apresentadas na “4ª Jornada América Latina”, que contou com o discurso de Luis Manuel Rabelo, professor da UFRJ e da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

Qual é o primeiro passo para entender as desigualdades que afetam o mundo? E, feito isso, como a América Latina (AL) se insere nesse contexto díspar? Essas foram algumas das questões apresentadas na “4ª Jornada América Latina”, que contou com o discurso de Luis Manuel Rabelo, professor do Instituto de Relações Internacionais da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e da UFRJ.

De acordo com o docente, existem diversas formas de se introduzir o tema. Entre elas, a análise de gastos militares, da participação nos investimentos diretos e mercados monetários de cada país ou ainda por meio da produção científica. O palestrante, no entanto, preferiu abordar o assunto por meio da participação no Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Rabelo explicou que, como os países, em geral, possuem moedas diferentes do dólar, os dados do PIB são suscetíveis às variações cambiais. Sendo assim, o professor elegeu o Poder Paritário de Compra (PPP) como critério mais preciso na comparação de produção de riqueza por região, já que esse modelo exclui as flutuações da bolsa. “Esse critério faz uma espécie de ajuste de cada moeda ao dólar, como se todas valessem mais ou menos a mesma coisa. Desta forma, nenhum país tem vantagem sobre os outros, pelo menos não no aspecto monetário”, explicou o professor.

A observação do conteúdo da pesquisa foi feita em quatro anos diferentes e marcantes para a história mundial. Primeiro, 1900, passagem de século que marcou a ascensão econômica dos EUA, Alemanha e Japão no cenário internacional. Ainda nesse ano, no contexto da AL, é possível observar uma discrepância no próprio continente, onde o México ainda superava Argentina e Brasil, respectivamente, no que tange à produção de riqueza.

Rabelo lembra ainda que, em 1950, pós 2ª Guerra Mundial, alguns países tiveram suas economias nitidamente abaladas. Os EUA ultrapassam a Europa Ocidental no índice PPP, mas esta continuou na dianteira. Na AL, o Brasil expandiu sua riqueza e ultrapassou México e Argentina. No entanto, a desigualdade no continente prosseguiu bastante acentuada.

O ano de 1980 foi de conversão na política econômica, principalmente nos países desenvolvidos. Notou-se um crescimento das nações derrotadas pelos EUA na 2ª Guerra, como Alemanha e Japão (7,8% do PIB mundial), a ponto de estudiosos apontarem este último como substituto dos norte-americanos na economia mundial. “De fato, esta transição vem acontecendo, mas com um outro país asiático: China”, analisou o professor.

Em 2008, último ano em que se possuem tais dados, a China ultrapassou a Europa e, até 2016, existe a previsão de que ultrapassará os EUA com relação à produção de riqueza, acompanhado, no entanto, do aumento das desigualdades. Na AL, de 1980 a 2008, não houve grandes alterações nos três principais países. Apenas a Colômbia ultrapassou a Venezuela em produção de riqueza.

No cenário atual, é notório um enfraquecimento em setores de economias desenvolvidas, mas a formação de novos polos em países em desenvolvimento, como China e Índia, por exemplo, não significa a diminuição da desigualdade no mundo. “É por esse motivo que o termo BRIC’s (Brasil, Rússia, Índia e China) fez tanto sucesso, uma vez que conseguiu captar o fenômeno”, esclareceu o docente.

Para Rabelo, “é necessário repensar, neste contexto, quais são as economias centrais do séc. XXI, cedendo lugar aos países latino-americanos e asiáticos, no que tange aos direcionamentos políticos, econômicos e sociais em âmbito internacional”. O professor finaliza com a ideia de que o dinamismo da última década, tanto na Ásia como na América Latina, mostra que ambos os continentes têm se preocupado em fortalecer seus mercados nacionais. “Assim, gerando riqueza, é mais provável que se alcance um nível de igualdade atípico em países de terceiro mundo”, concluiu o professor.