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A imigração e a família mexicana em pauta

A professora Yvette Flores-Ortiz, da Universidade da Califórnia, apresentou a palestra intitulada Violência Íntima e Depressão em Mulheres de Jalisco, Michoacán e Guanajuato: sua relação com fenômeno migratório do México aos Estados Unidos, nesta última sexta-feira (03/06).

A professora Yvette Flores-Ortiz, da Universidade da Califórnia, ministrou a palestra intitulada Violência Íntima e Depressão em Mulheres de Jalisco, Michoacán e Guanajuato: sua relação com fenômeno migratório do México aos Estados Unidos, na última sexta-feira (03/06). A psicóloga foi uma das convidadas para o Colóquio Internacional Fronteiras e Diversidades Culturais no século XXI, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (Eicos) da UFRJ.

Nascida no Panamá, Yvetter é professora do Programa de Estudos Chicanos da universidade onde leciona, e analisou os impactos da ida da figura masculina da família aos Estados Unidos, nos três estados mais rurais do México, onde grande parte da população nem mesmo conclui o Ensino Fundamental. O estudo, realizado desde 1998 em parceria com uma professora mexicana, tinha como objetivo verificar se havia maior índice de depressão e violência na zona rural entre mulheres cujos maridos deixam o país em busca de trabalho. Depois de aferida a constatação, a pesquisa visou obter mais informações sobre as singularidades desse fenômeno.

Cerca de 600 mulheres foram entrevistadas, durante entrevistas em que elas cogitaram a ideia de maltrato à distancia e controle remoto por parte dos maridos. Segundo seu depoimento, quando o marido deixa a casa, instrui sua família, sobretudo sua mãe (no caso, a sogra) a cuidar da mulher e dos filhos, o que é frequentemente confundido com controle. “A vida dessas mulheres vira um inferno: a sogra passa a controlar tudo, onde estavam, com quem estavam. E o marido também controla à distância, exigindo que a mulher esteja sempre próxima ao telefone da comunidade para atender às suas ligações”, explicou. O homem cobra de sua esposa servidão e obediência à sogra, e sua mulher e sua mãe são vistas como infratoras da ordem social. Muitas vezes, até mesmo o dinheiro enviado dos EUA é administrado pela sogra.
 
A volta dos maridos na baixa temporada de trabalho nos EUA também é um problema: “A mulher espera que quando o marido volte ao México seja um bom pai, brinque com os filhos, bom marido, mas eles normalmente vêm nas datas das festas, para a festa, causando grande frustração. E continua bebendo demais e sendo violento”, explica.
 
A violência doméstica é outro ponto importante nessas relações familiares estudadas. De acordo com as estatísticas, 34% das entrevistadas relataram sofrer agressão física. No entanto, as leis de proteção à mulher são insipientes. “O problema das leis de proteção à mulher é que elas dependem de cada estado e, nos estados mais rurais, elas não existem. Como os vilarejos são muito pequenos e machistas, muitas vezes as mulheres optam por não dar queixa, pois o delegado é amigo da família e todos ficariam sabendo”, relata a pesquisadora.

Com a intenção de impactar nas políticas públicas de Saúde, Ortiz foi até o secretário de Saúde do estado de Guanajuato apresentar o estudo. “Ele disse que era um absurdo, irritou-se, disse que não sabíamos o que estávamos dizendo e saiu da sala”, conta. De acordo com Yvette, em 2001, enquanto ainda realizava o estudo, havia 23 milhões de pessoas nos Estados Unidos com algum vínculo sanguíneo com o México. Nas escolas de ensino infantil da Califórnia, metade das crianças são filhos de pais imigrantes. Estima-se que até a metade do século, um quarto da população residente nos Estados Unidos será mexicana.