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Moscas no combate ao crime

Técnica desenvolvida pelo doutorando Carlos Augusto Chamoun, do Museu Nacional, capaz de resgatar DNA de estupradores no estômago de larvas decompositoras de corpos de suas vítimas poderá se tornar um protocolo de procedimento das polícias investigativas de todo o Brasil e outros países.

 Restos do sêmen de Dominique Strauss-Kahn, encontrados na gola da camareira do hotel novaiorquino, permitiram à polícia identificar o DNA do ex-diretor-gerente do FMI, no caso que movimenta a mídia internacional. E quando a vítima, como é comum no Brasil, jaz morta em um terreno baldio, incapaz de revelar o agressor da violência sofrida, o que é possível fazer? Com essa indagação, o perito Carlos Augusto Chamoun decidiu pesquisar uma técnica para resgatar o esperma do estuprador no estômago de larvas decompositoras de corpos.

A ideia virou defesa de doutorado, agraciada com nota máxima pela banca examinadora do Museu Nacional da UFRJ pelo ineditismo e, tão logo concluída, poderá se tornar um protocolo de procedimento das polícias investigativas de todo o Brasil e outros países. “Ao ler um livro sobre os vestígios deixados pelos insetos, percebi que era um caminho possível para os casos de estupro”, conta Chamoun.

Autora da obra Entomologia Forense – Quando os insetos são vestígios, Janyra Oliveira-Costa é, hoje, orientadora de Chamoun, ao lado da professora Márcia Souto Curi, do Museu Nacional. A publicação, inclusive, será relançada no dia 30 de julho, no Hotel Novo Mundo, no Rio de Janeiro. “A larva da mosca preserva o DNA do agressor, pois estoca em uma cavidade o material orgânico do qual se alimenta para a fase em que se transforma em animal alado”, conta a professora Janyra.

Segundo ela, o trabalho do perito Carlos Augusto Chamoun é o primeiro no mundo com uma espécie universal, a mosca varejeira (Chrysomya albiceps) oriunda da África e cosmopolita. “Na verdade, o americano James Michael Clery, já havia feito um experimento com a Lucilia sericata, mosca esverdeada-metálica de climas temperados, mas dando uma dose pura de esperma para o inseto. Aqui, estamos verificando em um animal que também existe na Europa e Estados Unidos, apesar de não ser a predominante, após ingerir carne decomposta”, esclarece a professora Janyra Costa.

De acordo com Chamoun, outra diferenciação da pesquisa é identificar o prazo limite após a ingestão do alimento pela larva é possível revelar o DNA do criminoso. “Recolher o sêmen é difícil, pois com o passar do tempo ele oxida e também é digerido. A larva é de fácil identificação para a coleta e aumenta o prazo que temos para assegurar quem teve relações com aquela vítima”, conta o pesquisador.

Outro fato importante é a possibilidade, por meio de análise mais apurada com base nos dois pares de cromossomas, dizer de quem é o esperma. “Inicialmente, fazemos apenas o sequenciamento dos cromossomas masculinos, o y, que é o autossomático, mas ele não permite identificar o agressor, se ele for da mesma família. O que é raro em estupro, mas possível. Pela pesquisa somática, não”, conta.

A perícia tem o objetivo de revelar quem está no local do crime, auxiliando a investigação criminal a recriar o evento. “Hoje, a ciência tem colocado muito mais gente atrás das grades que a truculência usada no passado. Muitas vezes, o juiz liberta o criminoso que alega ter confessado sob tortura. Ainda bem que isso está mudando e estamos contribuindo para isso”, concluiu Carlos Augusto Chamoun.