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Michel Misse discute segurança pública na ECO

Michel Misse, coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu), do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) debateu acerca de seus estudos a respeito de segurança no Brasil e no exterior. O encontro aconteceu na última segunda-feira (09/05), na Escola de Comunicação (ECO).

 Michel Misse, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) da UFRJ e coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu), debateu a problemática das atitudes ilícitas, o conceito de mercadoria política e seus estudos a respeito de segurança no Brasil e no exterior. O encontro aconteceu na última segunda (09/05), no Auditório da Central de Produção Multimídia (CPM) da Escola de Comunicação ECO-UFRJ, no campus da UFRJ na Praia Vermelha, durante o curso de Jornalismo de Políticas Públicas Sociais (JPPS), ministrado pelo professor Evandro Ouriques, da ECO-UFRJ. O objetivo foi explicar a corrupção no Brasil, tendo o cidadão brasileiro como participante, ainda que nós nos recusemos a aceitar que pequenas atitudes, como subornar um guarda de trânsito, têm impacto direto nas políticas de segurança do país.

Misse iniciou sua fala citando o livro O Capital, de Karl Marx. ”Olhada como um todo, a sociedade contemporânea aparece como um imenso acúmulo de mercadorias. O que não se consegue transformar em mercadoria se abstrai”, citou. ”O que Marx não focou em sua obra foi a sobrevivência de outras formas de troca que sobreviveram de sociedades anteriores ao capitalismo moderno. Assim como Marx, nós acreditamos que o sistema de trocas é igualitário. Nos acostumamos a encarar como ilegais as formas residuais que são atualmente criminalizadas”, completou.

O professor trabalha a questão da mercadoria política e ilustra o argumento com dois exemplos. O primeiro, mais simples, e o segundo, mais complexo: o vereador que leva vantagem do eleitor comprando voto com a construção de uma ponte, e o sequestrador que negocia a liberdade do sequestrado. ”O Brasil vive um processo de modernização e tem um Estado incapaz de exercer a função que lhe é atribuída, deixa espaços de poder para serem ocupados. Quando a segurança se torna mercadoria a ser comercializada para fins privados, têm início conflitos sociais graves”, explica.

Outra questão abordada foi o papel do cidadão na corrupção que não somente comete no dia-a-dia “pequenas ilegalidades”, como também enquadra na categoria de “crime” ações que vão refletir indiretamente em sua vida. O docente lembrou a música de Bezzera da Silva, cujo refrão “Se gritar pega ladrão/Não fica um, meu irmão” ilustra bem este pensamento. “Se ‘não fica um’, não se salva nem mesmo aquele que está acusando. É um pensamento niilista, mas serve para despertar a atenção de que algo está errado e levar à mobilização”, afima o coordenador do Necvu-Ifcs-UFRJ.

 O roubo contra a sociedade é pouco percebido pelos indivíduos. Misse citou as estatísticas do Instituto de Segurança Públic (ISP) de 2009, em que os registros de crimes contra o indivíduo são infinitamente maiores do que os números referentes a crimes contra o Estado e o patrimônio público. ”Se um menino te rouba R$ 50, você chega em casa traumatizado. Mas, se te roubam mais do que isso, de forma indireta, nada é feito. O primeiro passo é o indivíduo tomar conhecimento disso”, explicou. De acordo com os dados apresentados, no ano de 2009 foram registrados 138 mil roubos a mão armada, contra oito tentativas de corrupção ativa, mais de 400 crimes sexuais, contra nove ocorrências de financiamento do tráfico de drogas.

Misse ressalta a importância do entendimento de que, na medida em que o cidadão se posiciona como elemento alheio à corrupção, mais distante se torna a possibilidade de mudança. “Enquanto você está fora do poder, critica-se a corrupção, mas quando se está no poder há as regras efetivas que se dão nos departamentos, na TV, na redação jornalística, na política. É o famoso ‘jeitinho brasileiro’”, concluiu.