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É possível ensinar ética?

A mesa-redonda "Bioética, Laicidade e Direitos Humanos" debateu a moral e a ética nos campos acadêmico, jurídico e religioso. O evento  foi mediado por Renato José de Oliveira, professor e pesquisador integrante do Observatório de Laicidade do Estado (OLE).

A mesa-redonda "Bioética, Laicidade e Direitos Humanos" debateu a moral e a ética nos campos acadêmico, jurídico e religioso. O evento aconteceu na última sexta (10/12), no Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFRJ, e foi mediado por Renato José de Oliveira, professor e pesquisador integrante do Observatório de Laicidade do Estado (OLE), vinculado à Faculdade de Educação (FE) da UFRJ.

Sérgio Rego, editor da Revista Brasileira de Educação Médica e coordenador-adjunto geral do Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva, resgatou pensamentos iniciais sobre o desenvolvimento da moral defendidos por teóricos como Kant, Piaget e pelo contemporâneo Georg Lind. Rego ressaltou características da sociedade contemporânea, como a individualidade e o egoísmo exacerbados, destacando a necessidade de se firmar compromissos em busca de transformações socioculturais. “A inclusão do outro, o reconhecimento do outro é fundamental para que se perceba uma noção ética”, disse.

Para Maria Fernandes, advogada criminalista e presidente da Comissão de Bioética da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ), "discutir princípios e convicções permeia uma abordagem mais prática". Baseando-se no artigo 5º da Constituição Federal, que legitima os direitos individuais, a especialista abordou assuntos polêmicos como o aborto, o infanticídio em tribos indígenas e o fanatismo religioso. “O direito à igualdade pressupõe o direito à diferença. Só há democracia se houver respeito às minorias”, afirmou.

O ambiente de ensino foi consensualmente apontado pelos palestrantes como o mais adequado para a formação de pessoas mais autônomas e reflexivas. Através de um trabalho transversal e interdisciplinar, Rego acredita em um futuro promissor para o “eixo formador ético-humanístico”. “Hoje as pessoas ainda querem uma solução prescrita, evitando ousar e pensar. À medida que se mobilizam recursos pedagógicos necessários, a avaliação e o questionamento são estimulados no dia a dia”, completou.

Já Renato Oliveira pontuou aspectos relevantes a respeito da moral e da religiosidade, presentes em seu artigo mais recente. Para o professor, a moral é um objeto de construção humana e, portanto, não pode ser entendido como algo “natural”, como defende a Igreja. "Como falar em uma moral intrínseca ao homem se ela se desenvolve em sociedade?”. Oliveira fez questão de ressalvar que não vê problema algum na religião enquanto crença, mas, sim, enquanto instituição, pois percebe negativamente “a palavra dogmática”.