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Memória

Seminário debate o ensino de história indígena

Na última terça-feira (24/08), teve início, no Auditório Professor Manoel Maurício de Albuquerque, o I Seminário Nacional Ensino de História e Diversidade: caminhos abertos pela Lei 11.645/2008, promovido pela Faculdade de Educação (FE) da UFRJ. O evento foi planejado a partir da implementação da lei que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. A intenção foi debater as contribuições à formação de professores para a educação das diferenças éticas e raciais, contribuindo para a construção de uma prática docente que questione preconceitos e que seja pautada pelos princípios da pluralidade cultural e do respeito às diferenças.

Na ocasião, a mesa de abertura tratou do tema Ensino de História Indígena no Brasil, tendo como participantes, a professora Circe Bittencourt, da Universidade de São Paulo (USP), e o professor Giovani José da Silva, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Ambos relataram suas experiência na pesquisa de história indígena. A mesa foi mediada pela professora Cinthia Monteiro de Araújo, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) da UFRJ.

De acordo com os especialistas, as grandes diferenças entre a cultura branca e as culturas indígenas – como a língua, os hábitos e os valores –, bem como o desconhecimento de uma por parte da outra, dificultam as relações entre elas e fazem surgir desafios para o ensino de história. Silva atentou para a existência de “professores amarrados a estereótipos e preconceitos, que não enxergam os indígenas como nossos contemporâneos”, remetendo-os a lugares remotos da história.

A professora Circe explicou o projeto que coordena atualmente, intitulado Momentos e lugares da Educação Indígena: memória, instituições e práticas escolares, que busca delimitar os “momentos e lugares” do índio na trajetória de escolarização, visando, segundo ela, “privilegiar as ações das populações indígenas e as suas formas de integração e de resistência a um sistema educacional sob a forma escolar e com forte presença do catolicismo”. O projeto envolve ainda a produção de materiais didáticos para as escolas indígenas e de história indígena para as escolas da rede pública.

Os convidados expuseram alguns dos principais desafios. Em relação ao senso comum em relação aos indígenas, não devem ser feitas generalizações, visto que existem mais de 200 povos indígenas no Brasil, com enormes diferenças culturais entre eles. “Nosso desconhecimento gera dúvidas em como colocar a história na sala de aula. Cada comunidade tem sua história”, disse o professor Geovani José da Silva.

De acordo com o docente, outras diferenças são a noção de temporalidade e a construção da própria história; em sua experiência com a tribo dos Kadiwéu, no Mato Grosso do Sul. Em sua pesquisa, Silva percebeu que os indígenas se situam em um tempo cíclico, classificando atividades e eventos de acordo com as estações do ano, por exemplo, em vez do ordenamento baseado nos meses do ano, como fazem os brancos. “A obsessão pela escrita tampouco é experimentada por esses povos, que comprovam os fatos históricos através da palavra de membros da comunidade, geralmente os mais velhos, dignos de maior confiança”, afirmou.

Para o professor e pesquisador, “na sala de aula da formação de professores indígenas, os valores como a confiança e a comunidade, intrínsecos à essas cultura, suscitam questionamentos acerca do funcionamento de sociedade capitalista, em que as respostas são óbvias e automáticas”. No entanto, ainda de acordo com o docente, “tais questionamentos forçam o homem branco a uma desconstrução momentânea desses valores, constituindo um ensinamento de como se constrói o conhecimento”.

Antes do encerramento, a professora Circe Bittencourt propôs a reflexão: “por quê o europocentrismo é tão forte na educação do Brasil?”. De acordo com ela, “os professores precisam continuar debatendo e repensando todo o ensino de história, trabalhando para que conheçamos mais à nossa própria cultura e, portanto, a nós mesmos”.