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Memória

Faixa de horror

Em entrevista à Coordenadoria de Comunicação da UFRJ (Coordcom), o historiador Daniel Chaves classifica como “absurda” a situação humanitária imposta à população civil da Faixa de Gaza, além de humilhante.

 
  Bombas israelenses sobre a Faixa
de Gaza

Em entrevista à Coordenadoria de Comunicação da UFRJ (Coordcom), o historiador Daniel Chaves classifica como “absurda” a situação humanitária imposta à população civil da Faixa de Gaza, além de humilhante. Após uma análise equilibrada da ofensiva israelense que se arrasta há 17 dias, o pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (TEMPO) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) aponta que a brutalidade do ataque é desmedida, destacando as crianças e adolescentes palestinos como principais vítimas deste horror em pleno século XXI. Esta guerra, apesar de tingida como imutável, pode ser vencida desde que a intolerância de ambos os lados seja vencida. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

O Estado de Israel aproveita o fim da era Bush para demonstrar seu poderio bélico. Após a posse de Obama, é possível prever um acordo de paz na região?

Obama já expressou – tardiamente, diga-se – a sua "preocupação em relação a situação em Gaza" no último dia 6, além de prometer uma ação mais efetiva de seu governo junto à solução do conflito. É interessante notar como mais uma expectativa (otimista, sempre) é gerada sobre o novo governo democrata. Nessa direção, Obama promete contribuir com uma equipe qualificada para discutir os termos da paz, um time que goze de confiança dos dois lados, inspirado no exemplo Clinton. Nada é concreto ainda, mas o presidente eleito já disse na TV americana e em visita à Israel que a defesa dos cidadãos é um direito soberano; ou seja, assinalou sutilmente seu apoio à soberania israelense. Sem dúvida, a tendência ao acordo é muito maior com Obama do que com Bush filho.

A desmedida força israelense para revidar os ataques do Hamas colocou, praticamente, toda a opinião pública pró-palestina. Mesmo assim, o Estado de Israel ignora solenemente países e organismos internacionais como a ONU. Quais serão as consequências para o mundo, dito globalizado, deste unilateralismo?

Mais hostilidade contra o Estado judeu e mais um exemplo de que a soberania dos Estados não é uma peça de museu do século XX. Pelo contrário: cada vez mais as controvérsias entre países são oportunidades para demonstrar força e impor a vontade para além dos mecanismos internacionais multilaterais. Se pensarmos em uma lógica de continuidade sobre o nosso atual momento político internacional, as expectativas não são nada boas. É só olhar o retrospecto dos oito anos de unilateralismo na Era Bush filho.

O avanço de Israel não é um desrespeito à Convenção de Genebra e aos direitos humanos por atacar alvos civis?

O avanço israelense em si não é um desrespeito, já que se trata de uma ofensiva em um conflito declarado por ambas as partes. Além disso, tanto o Hamas quanto Israel negam a resolução do Conselho de Segurança da ONU por um cessar-fogo. A guerra em si já é o horror, é deplorável, não há boa guerra. Existem muitos olhares ingênuos nesse sentido. Entretanto, não há como negar que a situação humanitária imposta à população civil da Faixa de Gaza é um absurdo, desnecessária, humilhante. A proibição da população se movimentar e sair de Gaza foi duramente criticada (e com razão) pelo relator Falk, da ONU. O argumento israelense de que Gaza é demograficamente densa de modo a não permitir a melhor distinção entre alvos milicianos e civis é um tanto frágil se pensarmos que a brutalidade do ataque é desmedida; os mortos palestinos são 50 vezes maiores do que os israelenses, sendo que um terço deste contingente é de adolescentes e crianças.

Toda ação gera reação. O conflito de Gaza não irá radicalizar e fomentar novos grupos terroristas?

É bastante possível que sim. A idéia de destruir a ameaça que vem do Hamas é ilusória; a violência e a imposição das atuais condições humanitárias não vai gerar paz. Só motivará mais agressão e intolerância. É importante, nesse exato momento, que os ânimos de todos os envolvidos se acalmem – incluindo-se aí a mídia mais inflamada e as lideranças de ambas as partes – e que se pense que o conflito político entre palestinos e israelenses é um problema relativamente novo do ponto de vista histórico. Não há em hipótese alguma uma condição natural imutável: o que há é uma brutal intolerância de facções dos dois lados, que incorporaram uma rivalidade artificial forjada pelo colonialismo. Os poucos que estão interessados no conflito, com ele muito lucram.