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Coppe: tecnologia no combate à dengue

O Instituo Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) realizou, na tarde desta quinta-feira (10), o seminário “A epidemia de dengue: contradições e desafios”. O evento promoveu a discussão do papel da academia na luta contra a dengue, bem como suas propostas para o enfrentamento da doença.

 O Instituo Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) realizou, na tarde desta quinta-feira (10), o seminário “A epidemia de dengue: contradições e desafios”. O evento promoveu a discussão sobre o papel da academia na luta contra a dengue, levantando possíveis propostas para o enfrentamento da doença nos campos da saúde e da tecnologia.

Para Luiz Pinguelli Rosa, atual diretor da Coppe/UFRJ, “o objetivo do seminário é esclarecer e, talvez, utilizando o alcance que a universidade pode ter, até mesmo influenciar o governo em suas diversas esferas”.

Além do professor, que mediou as apresentações dos convidados, compuseram a mesa de honra: Roberto Medronho, coordenador do Departamento de Medicina Preventiva da UFRJ; Adilson Elias Xavier, do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe/UFRJ; e Victor Berbara, superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria de Saúde e Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro, representante do secretário Sérgio Côrtes, o qual não pôde comparecer ao seminário.

Dengue: saúde e governo

Durante sua exposição, Medronho falou sobre a dengue e a situação em que caminha a epidemia enfrentada pelo Rio de Janeiro neste ano de 2008. Cada vez mais, é visível que a doença se agrava e os óbitos aumentam, atingindo, sobretudo, as crianças.

Conforme o especialista explicou, cada sorotipo da dengue (1,2,3 ou 4) proporciona uma imunidade específica por toda vida, ou seja, um indivíduo que teve dengue do tipo 2, por exemplo, está imune a este vírus, em específico. A chamada imunidade cruzada, por outro lado, vem em curto prazo, e isto significa que aqueles que já contraíram a doença estão mais suscetíveis a desenvolver as formas mais graves dela.

Medronho ressaltou a necessidade de se repensar o trabalho de combate à dengue feito pelos agentes de saúde, tornando-o mais inteligente e eficaz: “Hoje nos limitamos a um trabalho que não dá certo para um município grande como o Rio de Janeiro”.

Reforçando a apresentação do professor, o superintendente de Vigilância em Saúde também defendeu a mudança na estratégia de controle do vetor transmissor da doença – o mosquito Aedes aegypti -, bem como destacou a importância da mobilização social.

Globalização da doença

Ambos, Medronho e Victor, chamaram a atenção para o trânsito de pessoas e de insetos que ocorre entre as fronteiras do Brasil com seus vizinhos. Devido a tal fato, a entrada, no Rio de Janeiro, do vírus tipo 4 da dengue, já detectado na região norte do país, é apenas uma questão de tempo. “Sabe-se que o sorotipo 4 vai entrar aqui, só não sabemos quando”, completou o professor.

Ele também fez uma análise da relação entre os processos de globalização e a disseminação da dengue pelo mundo. Com a intensificação das relações comerciais e do turismo internacional, o Brasil entrou numa espécie de rota do tráfico de microorganismos.

– O Rio de Janeiro é pólo de turismo internacional, o que, junto ao clima favorável e ao processo de urbanização desordenada, facilita a ocorrência da dengue, ao mesmo tempo em que dificulta o seu combate – afirmou o professor.

Medronho também alertou que, devido ao aquecimento global, regiões do planeta até então imunes poderão ter a presença do mosquito transmissor da dengue, pois a área de clima favorável à reprodução do inseto irá aumentar. Desta forma, segundo ele, a tendência é que a quantidade de pessoas suscetíveis à dengue também aumente. “Não é mais possível erradicar o Aedes Aegypti na atual conjuntura de globalização”, opina.

Tecnologia: importante aliada no combate

Um sistema computacional desenvolvido pela Coppe/UFRJ, junto às universidades Estadual do Ceará (UECE) e de Avignon, na França, é capaz de agilizar o mapeamento das áreas que possuem foco de dengue. Tal recurso torna mais eficiente o controle das visitas dos agentes de saúde a estes locais de risco, por exemplo, além de permitir o conhecimento em tempo real das pessoas infectadas e de suas áreas de origem.

O projeto, intitulado “Arcabouço Computacional para Vigilância Integrada da Dengue”, se propõe a dar apoio aos gestores municipais no combate e prevenção da doença, possibilitando rapidez e qualidade nas informações. Começou a ser desenvolvido em 2003, logo após a grande epidemia de 2002 e, alguns anos depois, em 2005, o sistema foi implantado em Fortaleza, no Ceará, com ótimos resultados.

– Estamos em uma guerra contra a dengue, não estamos? Neste projeto, nós usamos modelos estratégicos de guerra, mas ao invés de destruir pessoas, o objetivo é destruir a doença e ajudar a salvar vidas – explica Adilson, responsável pelo sistema.

A idéia é proporcionar velocidade, integração, completude e qualidade às informações. O atual “sistema de prancheta” utilizado no Rio de Janeiro, onde o agente de saúde preenche dados em um formulário de papel, é demasiado obsoleto e lento. As informações podem demorar de 15 a 30 dias para entrar no sistema, o que causa uma defasagem inaceitável. O ciclo da dengue é rápido demais; ao se lidar com dados antigos, fora da realidade imediata, o trabalho de combate à doença é dificultado.

Neste sistema, a cartografia da cidade onde um agente atua, incluindo nomes de ruas, números, CEP, bairros etc., fica disponível em um palm – computador de bolso portátil que cabe na palma da mão -, levado por ele nas visitas de casa em casa.

Se este agente encontra um foco da dengue, ele lança de imediato esta informação no sistema, fazendo com que o gestor tenha um panorama dos focos e do trabalho do agente em tempo real. Caso não seja possível entrar na residência, o sistema também indica o que está pendente para que outro agente veja esta informação e tente realizar o trabalho outro dia. 

Ao mesmo tempo, nos hospitais, o médico pode lançar diretamente no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) a notificação dos casos de dengue, junto à informação de onde a pessoa doente mora, o que auxilia no mapeamento das regiões críticas da doença.

Atualmente, leva-se mais tempo para preencher esses formulários do que para atender os pacientes. A conseqüência disto é a subnotificação, que faz com que os dados reais da doença nunca sejam os registrados. “Em uma situação como a de epidemia, com muitos pacientes na fila dos hospitais, os médicos deixam de preencher os relatórios, o que leva tempo, para atender às pessoas”, conclui Adilson.