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Cultura, Movimentos Sociais e o Hip-Hop

 A Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ promoveu nesta sexta-feira, dia 19 de outubro, a mesa redonda “Cultura e movimentos Sociais”, sob a coordenação de Maria Lídia da Silveira, professora da ESS, integrando o ciclo de debates “Interlocuções: Serviço Social e Cultura”. Foram convidados para a mesa Ramiro Marcos Dulcich, professor da Universidade Federal Fluminense e doutorando da ESS / UFRJ, e Gaspar de Souza, o “Gaspa”, do Movimento Coletivo de Hip-Hop Lutarmada.

Ramiro Dulcich inicia a discussão ressaltando a importância do evento ao abrir espaço para o diálogo com movimentos sociais e manifestações culturais. “É de grande necessidade estabelecer essas trocas, pois permite a compreensão de categorias fundamentais e de diferentes concepções quando o assunto é cultura”, destaca o professor, lembrando que diversos movimentos sociais que atuam nessa área marcaram diversos períodos históricos: “O tripé cultura, movimentos sociais e história social estão geralmente correlacionados”, explica.

Dulcich critica também a tendência de entender a cultura como homogênea. “Ao contrário do que se pensa, ela é produto das lutas, dos embates na sociedade marcados por diferentes costumes, política, valores e ideologias. Esses parâmetros que produzem os diferentes tipos de cultura”, conta o palestrante. Para ele, esse pensamento pasteurizado evidencia a necessidade de mecanismos de manutenção da sociedade capitalista. “Nossa sociedade é marcada por uma estrutura de classes antagonista e desigual, onde o todo é contraditório e caótico. Para que a classe dominante continue a se beneficiar, precisa-se incutir às pessoas uma cultura que aceite esse funcionamento, permitindo a manutenção dessa forma de pensar e agir”, lamenta Ramiro.

O professor reforça ainda a necessidade da existência do diálogo, pra que a sociedade possa sair da “pré-história social”. “Não existe uma cultura dominante sozinha, embora a visão Eurocentrista seja a principal. Existem outras que também exercem influência no cenário social, estabelecendo uma tensão permanente, conflitos e a luta de classes, que é o que origina e revitaliza a cultura”, afirma Dulcich, ressaltando que, apesar da imposição dos valores europeus em nosso continente, devido principalmente à nossa colonização, não devemos menosprezar totalmente esses aspectos. “A cultura européia contribui também para a formação do nosso caráter cultural. Depreciar essa participação é fugir do Eurocentrismo e cair num Américo-sulismo”, afirma o palestrante.

Gaspar de Souza, por sua vez, conta a história de diferentes movimentos culturais relacionados à música que antecederam o Hip-Hop e que também contribuíram para sua formação, como o Jazz, o Rock n’ Roll, o Soul e o Funk. “Todos esses movimentos nasceram nas comunidades pretas dos Estados Unidos, possuindo um caráter de manifestação e inconformidade com a situação vigente. O Jazz teve o potencial de seu estilo musical reconhecido pelas classes dominantes, que esvaziaram seu conteúdo, tornando-o um produto. O Rock n’ Roll foi desvinculado de seu caráter de manifestação da comunidade preta pela indústria fonográfica, que nomeou Elvis Presley, um cantor branco, como rei do rock. O grito de reinvidicação do Soul, com a representação máxima de James Brown, foi também transformado em algo vendável. O Funk passa pelo mesmo caminho: não é originalmente como vemos aqui no Rio de Janeiro, com letras vazias e falando de mulheres, sexo e assuntos similares. Isso é o que no resto do mundo chama-se Miami Bass. No Brasil, podemos destacar, por exemplo, o cantor e compositor Tim Maia como alguém que produziu o funk de verdade”, enumera o palestrante.

Gaspar também explica, de forma bem-humorada, o que é o movimento Hip-Hop, que muitas pessoas confundem com a música, que é o rap. “No início, era complicado falar do Hip-Hop porque poucas pessoas o conheciam. Hoje é ainda mais complicado, pois muita gente acha que conhece. Tudo começou em festas que a comunidade preta de bairros carentes, como Bronx, Brookylin e outros, realizavam nas ruas. Nessas festas, Dj’s exerciam o cargo de mestres de cerimônia, os chamados MC’s. Estes, por sua vez, misturavam nos intervalos das músicas o soul e o funk, originando os breaks, cuja mensagem é o rap. Apenas nesses momentos que alguns ‘caras’ dançavam, sendo apelidados de break boys ou b’boys. Com o tempo, esses eventos começaram a ser feitos em prédios abandonados, pois os participantes ficavam à mercê das condições climáticas. Esses locais foram então ‘decorados’ pela marca de grafitteiros, que também participavam da festa. Certa vez, então, um Dj, da ONG Zulu Nation propôs unir esses elementos:  o break dos MC’s, o rap,a dança dos b’boys e  o graffiti ao conhecimento das causas sociais, formando o movimento Hip-Hop, no qual, mais tarde, também se inseriu a comunidade latino-americana”, descreve o rapper.

Gaspar lamenta, entretanto, que a atual imagem do Hip-Hop esteja vinculada a um segmento que não está associado ao ideário de movimento social. “Os Gangsters são uma vertente do Hip-Hop destrutivo, que a indústria fonográfica e as classes dominantes adotaram com o intuito de desmantelar o cunho de manifestação popular. A imagem que se tem atualmente do movimento é a desse grupo: ostentação de carros caros, jóias, da mulher como objeto, violência, homofobia, drogas e outros temas duvidosos aos quais eles fazem apologia”, explica.

O palestrante conta ainda que o movimento chegou ao Brasil em 1984 quando ainda carregava um cunho político de contestação, o que Gaspar acredita ter sido essencial para que surgissem no país grupos empenhados nessa organização com o intuito de transformar a realidade. “Nesse momento surgem movimentos de Hip-Hop como a central Única das Favelas (CUFA) e a própria Lutarmada, que leva para a comunidade, como realizamos no Morro da Lagartixa, debates que não faziam parte do cotidiano daquela população. Discutimos questões sobre auto-estima, o trabalho e a falta dele, aumento do preço das passagens, e muitos outros assuntos. Além dessa ação junto às favelas, buscamos levantar nossa voz à sociedade, na luta armada com informação, música e movimentos sociais contra a ignorância”, declara Gaspar de Souza.

Por fim, a coordenadora do evento abriu espaço para as perguntas do público, que sanou suas dúvidas em relação à palestra dos convidados. Em seguida, Gaspar, que faz parte do grupo de rap “O Levante” apresentou em parceria com outro componente do grupo, Edmilson Campos, uma música sobre desemprego e os dilemas envolvidos nessa problemática, sob a perspectiva de um “pai de família, preto e favelado”, relacionando diversas questões sociais.