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Óleo de copaíba sob investigação científica

Mônica Freiman da Faculdade de Farmácia da UFRJ , pesquisa um produto natural extraído do óleo de copaíba, que emerge como possível medicamento no tratamento anti-inflamatório.

 Testado em laboratório na pesquisa de doutorado da professora adjunta da Faculdade de Farmácia da UFRJ Mônica Freiman, um produto natural emerge como possível medicamento no tratamento anti-inflamatório. Trata-se de substâncias extraídas do óleo de copaíba do qual se suspeita a presença de um poder de ação antialérgico e antimicrobiano, ainda em fase de averiguação. O processo de análise pretende buscar a comprovação de possíveis atividades de compostos do óleo que, apesar de seu consumo popular, ainda não é regulamentado pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

– O óleo resina é bastante utilizado na região norte e na região centro-oeste do Brasil para os mais diferentes fins, como a grande maioria dos produtos naturais. Porém, no Ministério da Saúde, ele não é reconhecido como de uso popular, não constando no Anexo 2, onde são catalogadas as substâncias fitoterápicas – explica a pesquisadora Mônica Freiman.

Em outras palavras, isso significa que para se introduzir um produto no mercado que contenha óleo de copaíba é preciso fazer uma série de testes obrigatórios para um produto novo. Isso não o coloca como um fármaco desconhecido, já que há pequenas alterações, mas o difere de fármacos descritos na lista descriminativa do Anexo 2, onde não é necessário comprovar determinadas atividades porque o conhecimento popular já o fez. A lista, no caso, é elaborada de acordo com o uso antigo e popular de uma determinada substância.

– Quando buscamos o pouco que há na literatura científica sobre o óleo, o que encontramos é que tem certa tendência a uma atividade antimicrobiana e antiinflamatória, porque são usadas principalmente para as irritações das vias áreas e nas pomadas de uso tópico para algumas feridas, entre outras coisas -, ressalta a professora.

Porém, é necessário destacar a importância da pesquisa, com a promoção de testes e análises antes de sua introdução no mercado, para que se possa prevenir possíveis reflexos tóxicos. Na pesquisa, com a observação de algumas amostras de copaíba de diversas regiões do país, o que foi observado é que em todo fitoterápico há mudanças na composição química. Por isso na literatura científica há conflitos de resultados: um grupo pode identificar atividade, enquanto outro, fazendo as mesmas verificações, não encontra atividade alguma. Durante o trabalho realizado, Mônica Freiman revela que a grande diferença do projeto é a avaliação da atividade farmacológica, porém eles não identificaram um perfil químico, impedindo que obtivessem subsídios suficientes para chegar a um produto. “Só buscávamos informações científicas, mas havia uma forte indicação da medicina popular”, observa a pesquisadora.

Um grande entrave na pesquisa foi causado pela própria popularização do uso do possível medicamento. O óleo de copaíba passou a ser comercializado ilegalmente, sendo falsificado para reduzir seus custos, substituindo-o por óleos comuns, como de coco, ou de soja. Inicialmente não era possível perceber tal alteração, mas estudos do Instituto de Química revelaram a falsificação a partir da análise de diferentes amostras de óleo de copaíba de diferentes regiões do país. O problema foi sanado pela metodologia criada pela pesquisa do Instituto que, apesar de não ter baixo custo, tem alto índice de eficiência. “Isso não respondia nada especificamente em nossas pesquisas, mas nos levava a crer que os testes que não encontraram atividades podiam ter sido feitos através de amostras falsas”, complementou Mônica Freiman.

Para o processo de identificação e seleção das substâncias para aproveitamento de uma parte ativa do óleo foi feito a separação, para análise isolada de frações do óleo. A pesquisadora selecionou diversas amostras e encontrou uma fração em potencial. A unidade foi avaliada á parte, testando a presença de atividade antiinflamatória. Foi feita uma pré-extração em uma única etapa, conseguindo uma fração enriquecida, com conseqüente avaliação farmacológica. “Para minha surpresa a atividade antiinflamatória estava ali. Repeti o processo em vários sistemas que produzissem uma resposta antiinflamatória e os resultados foram positivos”, revela Mônica.

Porém, o sucesso apontado pelo processo gerou dois problemas. O primeiro determina que quando se analisa um produto, é preciso ter um marcador químico e um marcador biológico, para que ele possa virar um futuro medicamento. O segundo é que a fração que tinha atividade era uma fração volátil, o que não permitia colocá-lo num medicamento comum. “O primeiro foi resolvido quando selecionei o principal componente e ao testá-lo descobri que ele podia ser o marcador biológico, já que a atividade estava muito relacionada a ele. Isso me deu outro respaldo, já que ter o marcador biológico próximo ao marcador químico significa que eu posso qualificar os óleos de copaíba do mercado com potencial de atividade.” Traduzindo, cada medicamento é aplicado em determinada dose, ou seja, como matéria prima, se um dia o óleo resina virar um medicamento, precisaria saber quanto do componente ativo seria necessário para que ele configurasse um bom medicamento.

– Para solucionar o segundo problema, relativo ao estado volátil da substância, eu utilizei uma técnica de tecnologia farmacêutica, colocando-a numa cápsula onde ela pudesse se tornar pó. De líquido ela virou pó armazenado na cápsula e, após testes em animais, via oral, os resultados foram os mesmos dos que não são capsulados. Com isso eu consegui obter a resposta desejada, descobrindo onde estava a fração necessária, já que só uma fração da resina possui atividade – complementou a pesquisadora.

Feitos os testes e encapsulados o óleo, foi possível conseguir uma patente do óleo resina de copaíba, uma patente da atividade e da preparação farmacêutica, incluindo a UFRJ, a FIOCRUZ e a USP de Ribeirão Preto. Segundo Mônica, “no momento tenta-se angariar recursos para ampliar o projeto, melhorando a preparação, chegando aos testes pré-clínicos e farmacocinéticos.” A toxicologia, por exemplo, já foi inicialmente investigada, mas ainda há muitos testes a serem feitos, apesar de a substância não apresentar quase nenhum efeito tóxico.

O grupo da farmacologia que estudou a substância começa a explorá-la em outro campo, que é o campo da antialérgica, via muito similar à estudada. Segundo a pesquisadora, não há quase nada que responda bem aos processos antialérgicos, embora os problemas na área sejam muitos. Porém, Mônica afirma que essa é somente uma tendência em função da lógica científica, sem comprovações prévias.

Há a intenção de incluir num projeto maior uma avaliação tópica, para análise antimicrobiana, embora alguns testes feitos no Pará comprovem que há certa exacerbação da ferida, ao invés da cura, dependendo do caso. Isso pode acontecer porque é uma característica do próprio óleo-resina, então se as feridas forem profundas, não é interessante tratá-la sem assepsia, devido à possibilidade de necrosar a área, que não deveria ser fechada. Porém, essas pesquisas seriam de longo percurso para que tudo seja feito com segurança.