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Memória

Obsessão da moda

Encarada por alguns como um distúrbio alimentar e por outros apenas como um efêmero modismo, a ortorexia nervosa surge no cenário contemporâneo como um novo comportamento. Neologismo originado dos radicais “orthos” (correto, certo) e “oréxis” (apetite) e cunhado recentemente, a ortorexia é a obsessão pela alimentação saudável.

 Encarada por alguns como um distúrbio alimentar e por outros apenas como um efêmero modismo, a ortorexia nervosa surge no cenário contemporâneo como um novo comportamento. Neologismo originado dos radicais “orthos” (correto, certo) e “oréxis” (apetite) e cunhado recentemente, a ortorexia é a obsessão pela alimentação saudável.

Essa preocupação leva o indivíduo a perder horas no supermercado perseguindo informações nutricionais e a abolir tudo que contenha estabilizantes, corantes ou quaisquer outros elementos químicos. Também influencia seu convívio social, na medida em que “ortoréxicos” evitam comer fora de casa, para não perder o controle daquilo que vão ingerir. É uma opção extrema pela alimentação “natureba” e restringe o cardápio quase que unicamente a vegetais e cereais, deixando de lado carnes, enlatados e outros produtos industrializados.

A ortorexia ainda é pouco familiar para os estudiosos e não é reconhecida como doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, praticamente não existem pesquisas e levantamentos científicos sobre a ortorexia, que alguns qualificam como “patologia cultural” – devido à influência que certos preceitos e valores da sociedade atual, como alarmismo em torno do uso de agrotóxicos e as sucessões de “dietas da moda”, teriam sobre o surgimento dessa nova conduta alimentar.

A discussão em torno da ortorexia ainda tem um longo caminho pela frente, com muitos tópicos a serem acrescentados. Para opinar sobre ela, o Olhar Vital convidou dois especialistas: a vice-diretora do Instituto de Nutrição Josué de Castro, professora Glória Valéria da Veiga, e a professora Viviane Soldati, do Instituto de Psicologia da UFRJ.

Glória Valéria da Veiga

 

Viviane Soldati

Professora e vice-diretora do Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC–UFRJ)   Professora de Técnicas Expressivas e Projetivas do Instituto de Psicologia

É muito difícil pensar na preocupação em manter a alimentação saudável como algo negativo. Ela é quase sempre positiva, bem-vinda, válida. Mas um exagero, uma obsessão, que leva a deturpações, é sempre prejudicial. O conceito de alimentação implica que ela tem que ser variada, composta por todos os grupos de alimentos. Por isso, ela não pode estar vinculada só ao consumo de vegetais, por exemplo. Eles são válidos e têm que estar presentes, assim como os cereais, também muito importantes. Mas todos os tipos de nutrientes são necessários, desde que ingeridos em quantidades controladas, em função do gasto calórico que cada um tem. Sempre com bom senso.

Essa ‘onda’ da ortorexia apresenta indícios de uma preocupação excessiva, mas classificá-la como transtorno é, no meu ponto de vista, precipitado. Os sintomas dos transtornos alimentares mais conhecidos, a anorexia e a bulimia, são detectados em questionários, mas seu diagnóstico é clínico. São síndromes psiquiátricas, por terem origens complexas e por se tratarem de quadros de difícil tratamento. Encaro a ortorexia mais como um modismo, um dos muitos que surgem na sociedade moderna.

Não gostaria de encarar como uma neurose a preocupação com os rótulos dos alimentos e as informações nutricionais que eles contêm. Acho importante a população começar a se conscientizar e olhar a data de validade em um rótulo, por exemplo. As pessoas deveriam ser instruídas pelo Ministério da Saúde – que já iniciou um programa de regularização da rotulagem dos alimentos – a ler com mais atenção esses dados. A população já vem condenando alimentos que contêm gordura trans e a confusão entre os produtos diet e light, por exemplo, deve ser esclarecida. Não vejo isso como uma preocupação negativa. Porém, eu não sei até aonde chegam os excessos cometidos por algumas pessoas.

O ideal é se adaptar às circunstancias, e não tentar voltar à Idade da Pedra. Até porque uma fatia mínima da população consegue comprar alimentos orgânicos, pelo preço mais elevado e pela oferta reduzida. Os alimentos industrializados estão aí, cada vez mais abundantes nas prateleiras de supermercados. Temos que trazer a indústria para jogar a nosso favor.

Provavelmente, as pessoas que seguem esse comportamento, denominado ortorexia, têm um poder aquisitivo mais alto, lêem demais e têm acesso a computador. Têm muito mais informação, mas acabam exagerando para um lado desnecessário. A alimentação hoje está sendo encarada como uma culpa e não mais como uma necessidade ou prazer”

A Ortorexia me parece estar ligada a transtornos como a bulimia e a anorexia. Não estudei o assunto a fundo, mas acredito que todos eles tenham o mesmo foco, por envolverem um exagero, uma agressão muito grande no que diz respeito ao próprio corpo. Esses distúrbios aparecem na adolescência e, com muita propriedade, estão ligados à questão da auto-imagem. Esta última funciona num tripé: ‘como me vejo’; ‘como me vêem’; e ‘como eu gostaria que me vissem’.

Por mais que a Ortorexia possa, a princípio, fugir da imagem de doença, por envolver a questão da preocupação com a saúde – e nesse sentido ela me parece estar próxima da obsessão dos malhadores das academias em ter o corpo perfeito a qualquer custo -, é preciso notar toda a auto-agressão de quem sofre do problema. A pessoa se violenta.

Como já disse esses distúrbios que aparecem na adolescência, brotam mesmo é na infância. Essas pessoas não conseguiram uma relação saudável com o alimento desde muito cedo.

Para o tratamento é de fundamental importância um acompanhamento psicoterápico, mas nesses casos normalmente também é preciso entrar com medicamentos, como o antidepressivo, por exemplo. Além disso, o envolvimento da família e seus esforços são importantíssimos”.