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A postura da igreja Católica no Século XXI

A igreja Católica, quanto ao número de fiéis, é considerada uma das principais organizações religiosas do mundo e o ramo mais importante do Cristianismo. Com a vinda do papa Bento XVI ao Brasil, inúmeras discussões a respeito da relação de seus dogmas com a sociedade, foram levantadas. Visando aprofundar a discussão e levantar aspectos referentes ao Concílio Vaticano II, catolicismo e sexualidade, igreja e a relação com jovens, entre outros; o Olhar Virtual entrevistou o sociólogo Ivo Lesbaupin, professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ.

 A igreja Católica, quanto ao número de fiéis, é considerada uma das principais organizações religiosas do mundo e o ramo mais importante do Cristianismo. Com a vinda do papa Bento XVI ao Brasil, inúmeras discussões a respeito da relação de seus dogmas com a sociedade, foram levantadas. Visando aprofundar a discussão e levantar aspectos referentes ao Concílio Vaticano II, catolicismo e sexualidade, igreja e a relação com jovens, entre outros; o Olhar Virtual entrevistou o sociólogo Ivo Lesbaupin, professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ.

Olhar Virtual: O que o Concílio Vaticano II representou para igreja Católica?
Ivo Lesbaupin: O Concílio Vaticano II representou a reconciliação da igreja com o mundo. Desde muito tempo, o catolicismo assumiu uma postura fechada, que o colocava em confronto com o mundo moderno, desenvolvido. O Vaticano II foi o grande responsável pelo rompimento dessa tradição – para se ter uma idéia, com ele a igreja passou a reconhecer o valor das outras religiões.

Todo esse caráter modernista já existia dentro da igreja Católica, sendo que sempre foi contestado pelo setor conservador, que não aceitava uma igreja preocupada com a questão social.

Olhar Virtual: Décadas depois do Concílio, o senhor acredita que a Igreja está voltando a assumir uma postura conservadora perante a sociedade?
Ivo Lesbaupin: Mesmo com toda a modernidade religiosa, o setor conservador não foi extinto. Ele conseguiu fazer valer suas idéias nos documentos do Concílio, que continham tanto posições mais abertas em relação ao mundo, quanto mais ortodoxas. No período do Vaticano II, padres deixaram o celibato, fiéis abandonaram a religião e o reconhecimento da igreja ficou abalado. O lado conservador atribuiu essa perda ao novo comportamento e resolveu atuar mais incisivamente. Desde então, duas interpretações foram feitas: uns acreditaram que a reformulação do paradigma ajudou no desenvolvimento religioso da igreja, no seu entendimento melhor do mundo; e outros que o mesmo contribuiu para o total fracasso. Expliquei tudo isso para mostrar que o lado conservador sempre esteve presente na igreja Católica. Ora mais acentuado, ora menos.

Olhar Virtual: É verdade que no Pontificado de João Paulo II voltou a se defender e afirmar a soberania da igreja Católica?
Ivo Lesbaupin: O Pontificado de João Paulo II foi considerado um pontificado de restauração do lado ortodoxo e de afirmação da igreja diante das outras religiões. O teólogo e atual, Joseph Ratzinger, foi um dos importantes elementos nessa restauração, pois em 1982, se tornou presidente da Congregação para Doutrina da Fé. Durante todo seu período, o vaticano foi muito duro em relação à teologia da Libertação, à inserção dos cristãos na política na América Latina e a todo engajamento político que vem do final dos anos 50 e cresce nos anos 60 e 70.

Olhar Virtual: Qual a sua postura diante desse movimento “show missa”, no qual a igreja está inserida?
Ivo Lesbaupin: Uma das coisas que vinha preocupando muito o episcopado era o crescimento das igrejas evangélicas, e a possibilidade de mostrar, através do movimento “show missa” e dos padres cantores, que nós (católicos) somos capazes de reunir e atrair mais fiéis, atingiu a igreja como uma lufada de ar fresco. Nessa guerra religiosa, a grande questão era descobrir como captar mais fiéis, e essa foi a solução encontrada.

Olhar Virtual: Em sua opinião, como anda a relação da igreja Católica com os jovens?
Ivo Lesbaupin: A relação entre os dois é a que estamos vendo na mídia. Recentemente, um bispo comparou o ato de “ficar”, muito praticado pelos jovens, à prostituição; e o mais surpreendente foi a resposta deles (os jovens) a essa comparação — durante a visita do papa, vários jovens foram entrevistados e perguntados a respeito. A maioria não se opôs, reforçando a idéia de que muitos aceitam essa linha mais conservadora da igreja. No passado, falo de 40 anos atrás, os jovens tinham problemas com os princípios da igreja ligados ao sexo. A dúvida entre o que era pecado ou não permeava a mente dos que buscavam seguir à risca os ideais. Acho engraçado verificar que isso perdura até hoje — o que valeu para os meus pais, está valendo para meus filhos. Entretanto, por mais que esses dogmas ainda se mantenham de pé, os jovens não mais os seguem, e é esse descompasso que a igreja finge não perceber. Ela sabe que sua postura é incoerente e anacrônica, mas não procura mudar, e isso me incomoda bastante