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Iphan aprova projeto de revitalização do Museu Nacional

As soluções arquitetônicas são fruto do grupo Museu Nacional Vive, uma colaboração entre a UFRJ, a Unesco e o Instituto Cultural Vale. Confira detalhes do projeto

Quando parte do acervo de um dos maiores museus de história natural das Américas pegou fogo, em 2018, o sonho de uma revitalização parecia distante. Mas o momento de ter seu acervo histórico reexposto está cada vez mais próximo. O Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) aprovou o projeto arquitetônico para a revitalização e recuperação do Paço de São Cristóvão, sede do Museu Nacional (MN). Segundo o instituto, que já tinha aprovado o projeto conceitual em 2023, o plano arquitetônico atende a todas as diretrizes de preservação do bem tombado. A previsão é que parte do paço seja reaberto ao público em junho do ano que vem. Em 2028, uma década depois do incêndio, todo o prédio deve estar entregue e com exposições ativas.

Depois do sinal verde para os planos da obra, a expectativa do Museu Nacional Vive, grupo de trabalho formado pela UFRJ, Unesco e Instituto Vale Cultural, é entregar um monumento histórico restaurado por completo. O trabalho de restauração começou em 2021, com a contratação do consórcio firmado entre os escritórios H+F Arquitetos e Atelier de Arquitetura. “Com o projeto concluído e aprovado, o desafio agora é avançar com o planejamento das obras no interior do palácio, a fim de entregar o museu com a mesma qualidade que executamos no restauro das fachadas e coberturas”, afirma Lucia Basto, gerente executiva do Museu Nacional Vive.

Aprovação e desenvolvimento do projeto

Construído há mais de dois séculos para servir de residência para a família imperial, o paço revitalizado irá reunir os seus 200 anos de história com elementos necessários para um projeto moderno. Em seu plano conceitual, apresentado há dois anos, os principais objetivos já estavam traçados: recompor a maior quantidade possível de elementos artísticos e históricos do palácio, conectar o museu aos jardins da Quinta da Boa Vista e garantir requisitos de acessibilidade universal e sustentabilidade. 

Depois de delimitado o conceito, o grupo partiu para o projeto de reconstrução em si. Segundo Patrícia Wanzeller, superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, essa é a parte mais delicada do processo. “É mais do que um simples restauro”, destaca. “Precisamos devolver à sociedade um prédio histórico, que manterá as marcas da tragédia, ressignificando o fato através da democratização do espaço, que contará com acessibilidade plena e novas exposições.” 

Ainda que a restauração esteja avançando, o apoio financeiro é essencial para que as obras do MN sigam em frente e saiam do papel. Com orçamento estimado em R$ 516,8 milhões de reais, o projeto já arrecadou mais de R$ 350 milhões, aproximadamente 67% do valor necessário. A arrecadação é fruto de 18 parcerias institucionais e governamentais, tanto do próprio Governo Federal como de outros países e museus. Além de avanços na obra, os esforços da captação de recursos também recuperaram 10 mil objetos do acervo original. 

Para Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional/UFRJ, essas conquistas reafirmam o sucesso da reconstrução do palácio. Mas todo apoio ainda é bem-vindo e necessário. “Precisamos de mais recursos financeiros que possam somar neste desafio, que é reerguer o primeiro museu e a primeira instituição científica do país”, afirma Kellner. 

Na quarta-feira, 2/4, em evento realizado no MN, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou que destinaria R$ 50 milhões para ajudar na reforma do prédio. No total, o BNDES já colaborou com mais de R$ 100 milhões em apoio. O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, e o diretor do museu comemoraram a notícia. “Essa conquista é resultado do trabalho incansável do ministro da Educação, Camilo Santana, e do comprometimento pessoal do presidente Lula, que tem se empenhado na reconstrução do museu o mais rápido possível”, declarou Medronho.

Conheça o projeto

Todo o projeto foi pensado para valorizar a história do paço, que, inevitavelmente, passa pela história da própria tragédia. As primeiras buscas aos artefatos danificados pelo fogo revelaram detalhes escondidos do palácio, escondidos por reformas anteriores e por trás de antigas camadas de tinta. Durante as obras, partes de um antigo piso de pedra do edifício foram reencontradas, assim como pinturas nas paredes e elementos ornamentais. Até mesmo o local onde se iniciou o incêndio será objeto de exposição, a fim de preservar a memória de um desastre que não pode se repetir. Confira abaixo detalhes do projeto de revitalização do museu.

 (Reprodução: Museu Nacional Vive)

Lateral do prédio, com destaque para os jardins que serão revitalizados, assim como o prédio anexo. Totalmente integrados ao resto do museu, essas áreas devem contar com auditório multiuso, salas administrativas, refeitório e espaços de apoio às exposições.

 (Reprodução: Museu Nacional Vive)

A famosa entrada do museu, que já contava com o maior meteorito encontrado no Brasil, o Bendegó, agora também terá em sua escadaria um esqueleto de baleia cachalote. O fóssil estará içado na nova claraboia que irá cobrir o pátio de entrada e seu processo de instalação já foi iniciado. As paredes também estarão ornamentadas com parte da pintura decorativa original que, antes do incêndio, estava coberta por camadas de tinta. Por trás dessas camadas, foi possível encontrar ornamentos ilusionistas nas colunas, uma técnica difundida no século XIX que imita ranhuras nos pilares do edifício.

 (Reprodução: Museu Nacional Vive)

Nas salas de exposição, centenas de ornamentos como medalhões, brasões e símbolos que decoravam as quinas do ambiente serão reconstruídos em moldes de gesso. O revestimento histórico que decorava as salas também foi revelado pela chama, depois de anos de anonimato por trás das camadas de tinta. A decoração, aplicada a partir da técnica de imitação de pedra stucco marmo, estará nas salas do primeiro andar.

 (Reprodução: Museu Nacional Vive)

O espaço “Memória” promete ser um ambiente de importante recordação do incêndio para o museu. Vigas retorcidas pelo fogo estarão expostas no local em que se iniciou o desastre de 2018. Além de local de observação, o espaço também funcionará como sala de acolhimento e introdução às exposições.

Em dezembro do ano passado, o MN lançou uma campanha incentivando os brasileiros a doarem parte de seu imposto de renda para a Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN). Apesar de não ser tão difundida no Brasil, essa modalidade de doação é muito popular entre países europeus e deve ajudar na evolução da obra. Para apoiar o projeto de revitalização, acesse o site do grupo Museu Nacional Vive.