Bem próximo à Baía de Guanabara, no Parque Tecnológico da Cidade Universitária da UFRJ, está situado um laboratório interdisciplinar que reúne conhecimentos e tecnologias das áreas de engenharia, meteorologia, meio ambiente, entre outros. O Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce) está ligado à Coppe/UFRJ e tem atuado ao longo de quase 50 anos em inúmeros projetos que propõem o desenvolvimento de soluções computacionais para problemas de engenharia e geociências, com forte atuação em modelagem numérica e simulação. Na prática, isso envolve acompanhamento de plataformas marítimas, detecção e simulação de manchas de óleo nas águas, além de pesquisas nas áreas de energias renováveis e saúde.
Surgido inicialmente em 1977, a partir de um contrato com a Petrobras, o Lamce possui uma estrutura robusta, com um supercomputador, sistemas de visualização avançada e antenas para recepção de dados de satélite. Em um determinado momento, a coordenação do laboratório enxergou a necessidade de ter um olhar atento para as questões de impacto ambiental que são inerentes à retirada de óleo em alto-mar. O interesse em criar esse equilíbrio possibilitou o desenvolvimento de projetos com foco no meio ambiente, como é o caso de uma parceria que vem sendo realizada em conjunto com a Secretaria Estadual de Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro.


O projeto Baía Azul tem como objetivo usar a tecnologia para revitalizar e monitorar a Baía de Guanabara. Para isso, a base do trabalho consiste na produção de um gêmeo digital da baía: um modelo matemático que integra dados oceanográficos, meteorológicos e socioeconômicos coletados por sensores, radares e satélites em tempo real. A partir disso, é possível produzir previsões e prognósticos que permitem apoiar os gestores públicos na tomada de decisões. Da mesma maneira, o sistema permite o monitoramento contínuo do que acontece na baía, bem como a simulação de cenários de acidentes para planejar ações de mitigação, como é o caso de derramamentos de óleo, por exemplo.
O coordenador do Lamce, Luiz Landau, defende que não é possível negar a importância da saúde do meio ambiente e a sua relação com a saúde humana, mostrando o quanto esses dois olhares estão conectados. Assim, a Baía de Guanabara se mostra enquanto um laboratório natural a partir do qual é possível encontrar diversas possibilidades. “A Baía de Guanabara é muito atraente (…) e tem todos os ingredientes de um projeto. Se você vir a saúde da Baía de Guanabara de um modo geral, aqui tem de tudo: população enorme em torno dela, questão portuária, dois aeroportos, duas cidades enormes, outras cidades em torno, poluição, pesca, lixo. Você tem todos os problemas que a gente vai demorar a resolver, mas é um laboratório muito importante para a gente trabalhar essas soluções e mostrar que é viável”, explica.
A questão do lixo, mais especificamente, vem sendo trabalhada há mais de dois anos, como uma forma de retorno para a comunidade, a partir do projeto de extensão Futuro Flutuante. Unindo educação ambiental e tecnologia, a proposta surgiu com o nome de Caminho do Lixo e, desde então, tem recebido estudantes dos ensinos fundamental e médio, prioritariamente de escolas públicas, a fim de mostrar como resíduos descartados incorretamente percorrem rios, córregos e chegam ao mar, em especial à Baía de Guanabara.


Nas visitas, os alunos conhecem os laboratórios e os equipamentos de visualização científica, além de acessar uma simulação que se vale do mesmo sistema de modelagem do projeto Baía Azul, para mostrar o trajeto de um resíduo desde o ponto de descarte até seu destino final no mar. É uma experiência completa, na qual eles também podem visitar a beira da baía para observar a presença real do lixo e ter conversas sobre preservação ambiental e descarte adequado. Até o momento, o projeto já recebeu 28 escolas públicas, mais de 500 alunos e cerca de 40 professores.
Para Landau, o esforço não é tão grande, mas o resultado sim, o que torna o processo gratificante para toda a equipe ao enxergar a curiosidade e o interesse nos olhares dos pequenos. “É muito bom! Esse é um projeto que a gente leva com muito carinho aqui. Não precisa nem dizer por quê, né?”, brinca ele.
O Lamce reúne profissionais multidisciplinares — engenheiros, oceanógrafos, meteorologistas, geólogos, geofísicos, cientistas de dados, especialistas em visualização científica — e mantém parcerias com empresas, órgãos públicos e centros de pesquisa internacionais.