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Memória Sociedade

Reitores da UFRJ e Uerj fazem live sobre ciência e pós-pandemia

Live foi realizada pelo Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, da FND/UFRJ

Por Ana Paula Jaume*

Na quinta-feira, 28/5, o Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco), da Faculdade Nacional de Direito (FND) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), promoveu uma conversa, em formato de live, com o tema Universidade: Resistência Científica e Amanhã Pós-pandemia, com a reitora da UFRJ, Denise Carvalho, e o reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Ricardo Lodi.

O debate foi mediado por Júlia García, integrante do Caco, e transmitido pelo canal do Youtube. O público pôde interagir enviando perguntas aos reitores, que,  durante cerca de uma hora e meia, falaram sobre o papel da universidade pública e os ataques à ciência. Eles comentaram a situação que o país atravessa e destacaram que, se aqueles que implementam as políticas públicas no Brasil seguissem rigorosamente as recomendações dos cientistas, os efeitos da pandemia seriam menores.

Medidas de combate ao coronavírus desenvolvidas por instituições públicas brasileiras, como a fabricação de álcool em gel, construção de Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs) e respiradores, também foram enfatizadas.

Denise e Ricardo citaram um fenômeno que ganha força com a disseminação do novo coronavírus: a infodemia. A palavra refere-se a um excesso de informações ligadas, nesse caso, à pandemia de COVID-19, sendo algumas verídicas e outras de origem duvidosa. A infodemia, ou desinformação, foi apontada pelos reitores como consequência da falta de credibilidade nas universidades por parte das camadas conservadoras da sociedade.

UFRJ faz 100 anos e Uerj, 70

O reitor da Uerj, também advogado e professor associado de Direito Financeiro da universidade, citou momentos decisivos na história da instituição, como a fundação, em 1950, o incentivo à pesquisa e a prática da extensão. Frisou, ainda, um marco na democratização do acesso à graduação: o fato de a Uerj ter sido a primeira a implementar o sistema de cotas raciais no Brasil.

Apesar das notáveis conquistas, Lodi pontuou que “a universidade precisa se aproximar mais das comunidades”, não só a Uerj, mas toda universidade pública. Para ele, em algum momento, esforços foram direcionados ao aprofundamento da pesquisa, enquanto o contato com a comunidade ficou em segundo plano.

Sobre o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe/Uerj), Ricardo Lodi acredita que “em curto prazo, todos os leitos sejam voltados para a COVID-19”. No entanto, afirmou que a instituição encontra dificuldades que inibem o atendimento mais adequado aos acometidos pela doença. A disparada no preço dos fornecedores e a falta de insumos hospitalares, por causa da alta demanda, são fatores complicadores do enfrentamento da pandemia.

Finalizando sua primeira fala no debate, o reitor da Uerj ponderou: “Negar a ciência, negar a universidade num momento de praga, significa a morte”. Ele também propôs que o momento de isolamento social funcione como um período de reflexão do que vivemos e do que se espera viver futuramente.

Em seguida, Denise Carvalho enalteceu a importância das faculdades de Direito da UFRJ e Uerj, que ganham força neste momento. A reitora ressaltou a relevância do cenário plural e inspirador proporcionado pela área das Humanidades, afirmando que “não há desenvolvimento sem que o pensamento humano se desenvolva na sua base. Senão vamos ser reprodutores de conhecimento, e não produtores”.

Médica e professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da UFRJ, Denise comentou a amplitude das atividades que ocorrem dentro da universidade pública. Além das aulas, alunos e professores estão engajados em uma gama de projetos de pesquisa e extensão fundamentais tanto ao público interno como externo. A reitora lembrou as atividades extracurriculares da instituição, em conjunto com Uerj e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a exemplo de planos de ação solidária em favelas da cidade.

Embora as universidades públicas sejam excelência em ensino, ela apontou um problema: menos de um quarto dos jovens de 18 a 24 anos ingressa no ensino superior. Nesse sentido, a reitora também observou um passo importante na história do centenário da UFRJ: a instituição entrou, em 2007, num programa de democratização do acesso que inclui o aumento do número de vagas, a criação de novos cursos, de cursos noturnos e a implantação do sistema de cotas”.

Denise Carvalho fez questão de enfatizar a importância do isolamento social na proteção dos servidores e estudantes da UFRJ e informar a população acerca da necessidade do distanciamento durante a pandemia. Quanto à volta às aulas, a reitora afirmou que o movimento de retorno será estratégico e em conjunto, visto que o interesse técnico-científico se volta à proteção das comunidades.

Universidades na pandemia: medidas de combate e ensino acessível

Ricardo Lodi manifestou-se a favor da unidade construída entre as universidades do Rio de Janeiro, principalmente no momento em que as instituições são atacadas por defenderem a ciência em detrimento de interesses políticos. Ele assegurou que, hoje, a volta remota das atividades acadêmicas não é viável, pois não seria um retorno inclusivo e de qualidade: “Não podemos transmutar o que fazemos em nossas aulas presenciais em educação à distância. A gente vai ter que construir, junto com nossas comunidades, um modelo que possa garantir a qualidade do ensino com as possibilidades do momento”.

Segundo Lodi, a integração das universidades do Rio vai deixar marcas, já que elas têm compromissos em comum: democracia, pluralismo, ciência, tecnologia e cultura. “Este momento tem que nos levar a construir uma sociedade melhor. O esforço na área da Saúde precisa ser acompanhado pelo esforço em compreender o que está acontecendo.” Dessa forma, a distinção entre a vida e a renda não seria mais atribuída a nenhuma pessoa.

Denise contou que há grupos na UFRJ que estudam a possibilidade de uma vacina. No Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ), que possui um Centro de Terapia Intensiva (CTI) com 60 leitos destinados a pacientes infectados pelo novo coronavírus, ocorrem estudos clínicos em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e outras entidades. Existem também grupos de alunos solidários trabalhando no atendimento às famílias remotamente.

Para a reitora, não se pode “ficar sem avançar no sentido de ter relação com estudantes de forma remota. Não temos ideia de quando será possível voltarmos a frequentar um transporte público”. Contudo, Denise afirma que o ensino remoto poderá acontecer em algum momento, mas garante que será bem pensado, estratégico e se dará quando os docentes estiverem capacitados. Seria um ensino remoto emergencial, voltado aos estudantes que precisam se formar. “O ensino remoto não substituirá, jamais, o ensino presencial”, garantiu.

Para avanço, ciência!

O debate destacou o poder de transformação de uma universidade, assunto intensificado pela reitora da UFRJ ao lembrar que “nenhum país do mundo avançou socioeconomicamente sem que houvesse a valorização da ciência e da tecnologia”.

Ao concluírem o debate, ambos os reitores concordaram que muitos aspectos devem ser ponderados antes de se pensar em implementar o ensino remoto e retomar as atividades. As condições socioeconômicas dos estudantes precisam ser levadas em conta. Diversos alunos residem em repúblicas e dividem o quarto e o computador com dois ou mais colegas. Além disso, é necessário analisar o caso de cursos essencialmente práticos, como Fisioterapia, Odontologia, Dança etc.

*Extensionista, sob supervisão da Assessoria de Imprensa/Coordcom.