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Professor da ECO tem livro sobre comunicação publicado na Suíça

O professor Milton Campos acaba de publicar o livro “Traversée – Essai sur la communication”, propondo uma nova abordagem teórica e metodológica para o estudo dos processos de comunicação, fundamentada na ética.

Por Thaynara Lima

O professor Milton Campos acaba de publicar o livro “Traversée – Essai sur la communication”. De acordo com o autor, a obra propõe uma nova abordagem teórica e metodológica para o estudo dos processos de comunicação, fundamentada na ética.  O livro acaba de ser publicado pela editora científica da Suíça Peter Lang, Éditions scientifiques internationales.

Em entrevista ao Portal UFRJ, o autor falou um pouco mais sobre seu livro. "O estatuto científico da comunicação ainda é vago e inúmeras disciplinas dedicam a ela suas teorias e metodologias. Com o objetivo de abordar esse problema contemporâneo, esse livro apresenta a teoria comunicativa da ecologia dos sentidos e uma proposição metodológica ancorada, ao mesmo tempo, na pesquisa-ação e na semiótica construtivista-crítica”.
 Ao longo do texto, o autor navega nas águas da pesquisa contemporânea entre os riscos da radicalização epistemológica, tecendo contribuições de Jean Piaget, Jean-Blaise Grize e Jürgen Habermas com as suas, na busca de um consenso epistemológico ético e equilibrado. “O ensaio valoriza a transdisciplinaridade da comunicação, buscando mostrar sua pertinência na construção crítica dos conhecimentos em todas as disciplinas científicas, das matemáticas as ciências sociais", afirma.

Na apresentação do livro, o senhor diz que utiliza uma nova abordagem, fundamentada na ética. Porque o senhor entende que seja importante a mudança de abordagem para falar sobre a comunicação?

 “A maioria das abordagens teóricas e metodológicas em comunicação são emprestadas de outras disciplinas como a sociologia, a ciência política, a antropologia e a psicologia, entre outras. A consolidação de um campo teórico-metodológico específico na comunicação requer abordagens originais que sejam fundamentadas no processo das trocas interativas comunicativas e não necessariamente nos processos sociais e/ou individuais, culturais e/ou biológicos, como é o caso das outras disciplinas, ainda que a comunicação lide com todos esses campos. O livro propõe, portanto, um olhar original a respeito da comunicação, mas exclusivamente ancorado nos processos que possibilitam as trocas interativas comunicativas e na ética que os constitui.”

“Além de tudo isso, como a comunicação como disciplina não é um atributo involuntário ou inconsciente, mas um campo de estudos que supõe uma intenção quando o conteúdo das trocas é formulado, entendemos que a transdisciplina da comunicação é fundamentalmente uma ética. Toda comunicação traz em seu bojo intenções, e essas têm consequências ao serem exercidas. Einstein, por exemplo, comentou uma vez sobre o fato de a sua teoria ter sido usada para fins militares. Ele, como teórico, não construiu um campo não ético, porque sua intenção não era essa. Mas, na medida que outros teóricos se serviram desses conhecimentos para ‘comunicá-los’ pela via da construção de artefatos militares de destruição, esses últimos, por conta de sua intenção, não agiram eticamente. Só nos damos conta da ética de uma ação pela via da comunicação e, nesse livro, essa questão é explorada.”

Como a comunicação tem sido transdisciplinar nos dias de hoje?
“Dado que, ainda, para que possamos construir quaisquer ciências necessitamos comunicá-las, ensiná-las, aprendê-las, e dado que para que isso ocorra os processos comunicativos são condição prévia, a comunicação é, portanto, o seu fundamento. Nesse sentido, ela "atravessa" todas as disciplinas, sendo o material essencial de sua concepção (daí a razão do título "Travessia"). O livro defende a tese de que o campo disciplinar da comunicação não tem o mesmo estatuto dos outros campos disciplinares. Ao invés de considerarmos a comunicação como uma ciência "ao lado" das outras, a consideramos como uma ‘transdisciplina’, uma "disciplina" que é prévia a todas as outras, das disciplinas que estudam os conteúdos da cultura àquelas que são fundamentadas nas formas puras como a matemática.”