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Memória

Militante poderá concluir curso após 50 anos do golpe militar

Perseguida pelo regime militar, Maria de Fátima Pimentel Lins apresentou na quarta-feira, 2 de abril, o memorial “Não é a história toda, mas é a minha verdade” como último ato acadêmico para finalizar seu curso na Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ.

Por Paulo Calmon

A ex-militante política Maria de Fátima Pimentel Lins apresentou, na quarta-feira (2/4), o memorial “Não é a história toda, mas é a minha verdade” como último ato acadêmico para finalizar seu curso na Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ.
O direito foi adquirido quase cinco décadas depois de Maria Lins ter sido impedida de finalizar oficialmente seus estudos em Pernambuco, durante a consolidação da ditadura militar.

O evento buscou relembrar o regime e a negação das liberdades individuais durante o período, explorando a experiência da graduanda como exercício pedagógico.

Em maio de 2010, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça julgou um requerimento de Maria de Fátima, que lhe garantiu o direito de concluir o curso de Serviço Social na UFRJ, instituição que escolheu por morar atualmente no Rio. O ministério também decidiu pela anistia política com reparação econômica.

Posteriormente às primeiras medidas procedimentais, foi decidido que a apresentação do memorial seria a forma mais adequada para a conclusão do curso. Segundo a diretora adjunta de Graduação da ESS, Silvina Galizia, a decisão de transformar a conclusão de curso da ex-ativista em um ato mais amplo “significa lembrar, recordar para todos nós e fundamentalmente para os nossos alunos, um dos períodos mais obscuros da história brasileira, para que nunca mais se repita”.

Diante do reconhecimento oficial da integralização da formação acadêmica de Maria de Fátima Pimentel Lins, o diploma e a colação de grau serão os próximos passos a serem providenciados.

Trajetória

Recifense, ingressou na Escola de Serviço Social de Pernambuco em 1961. Em 1963, sob orientação da professora Hebe Gonçalves, a aluna começou a elaboração de seu trabalho de conclusão de curso (TCC), cuja pesquisa consistia na análise da alfabetização da população pobre de um bairro tradicional do Recife.

Participante da Juventude Universitária Católica (JUC) e próxima aos integrantes da Ação Popular, ela militava sob a orientação de Dom Helder Câmara ainda em 1964. Abandonou a Escola de Serviço Social na ocasião em que o movimento, sob a alegação de que era formado por comunistas, passou a ser perseguido pelo regime militar.

Após casar-se em São Paulo com Marcos Correa Lins, sociólogo e também membro da JUC, Maria de Fátima procurou continuar seus estudos na França, onde esses foram novamente interrompidos devido a uma viagem à Argélia, cujo governo foi deposto.

Em 1965, voltou para sua cidade natal sozinha e grávida do primeiro filho. Reencontrou seu marido dois anos depois, gerando outras duas crianças.  Em fuga do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), habitaram, ainda, as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1974, refugiou-se em Genebra após a prisão da cunhada, retornando ao país em 1978.