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Seminário critica remoções e caráter econômico de megaeventos esportivos

Pesquisadores condenam impactos sociais da Copa e das Olimpíadas em seminário organizado pelo Observatório das Metrópoles, entre 10 e 12 de dezembro.

 

Isabella Cardoso

Entre os dias 10 e 12 de dezembro, aconteceu no Clube de Engenharia o Seminário Nacional “Metropolização e Megaeventos: Os Impactos da Copa do Mundo e das Olimpíadas nas Metrópoles Brasileiras”, organizado pelo Observatório das Metrópoles. O evento contou com diversas mesas discutindo o tema, entre elas o debate “Os Megaeventos na Trajetória Espaço-Temporal das Metrópoles Brasileiras: global, local; passado, presente e futuro no último dia do evento”.

A mesa teve a participação de Carlos Vainer, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ e coordenador do Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza (Ettern); de Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, também do Ippur e coordenador nacional do Observatório das Metrópoles; de Claudia Favaro, representante da Articulação Nacional dos Comitês Populares (Ancop); e de Raquel Rolnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ e relatora especial das Nações Unidas para o direito à moradia.

Iniciando o debate, Carlos Vainer fez um breve histórico dos megaeventos e revelou que, desde sempre, eles provocaram mudanças no cotidiano das cidades que os recebiam. Segundo o pesquisador, os megaeventos, como copas e olimpíadas, são momentos de afirmação de identidades nacionais e também de politização. Citou exemplos, como as Olimpíadas de 1968, quando “dois atletas negros politizaram as olimpíadas ao fazer a saudação dos black power no pódio”.

Em seguida, mostrou dados que revelam o poder econômico em torno desses eventos, como a arrecadação com marketing olímpico nos últimos quatro quadriênios e as receitas da FIFA para o quadriênio de 2007-2010. Ele lembrou que até os anos 70 as olimpíadas não aceitavam jogadores profissionais e que Juan Saramante e João Havelange, ambos ligados à ditadura de seus países, reinaram na FIFA durante muitos anos.

Cidade como empresa

O coordenador do Ettern continuou, dizendo que houve uma transformação do significado de cidade. “Se a cidade é uma empresa, sua direção deve ser entregue a quem entende de negócios”, disse. De acordo com Carlos Vainer, “há um despotismo do capital e o banimento da política, pois empresa não discute política, só produz mais valia”.

O Rio de Janeiro, segundo ele, se tornou uma cidade-empresa e a exceção se tornou uma forma de poder, fazendo o estado viver em um regime onde tudo vale. Para comprovar isso, citou várias mudanças ocorridas nas leis e a criação de novos órgãos somente para atender aos megaeventos que irão ocorrer. Alguns exemplos são a criação da Autoridade Pública Olímpica (APO), do regime diferenciado de contratação, da permissão de endividamento dos municípios, da lei dos benefícios fiscais e da Lei Geral da Copa, que, inclusive, afirmou Vainer, proíbe o consumo de bebida alcoólica dentro dos estádios, mas autoriza a venda de Budweiser, patrocinadora do evento.

Ele disse, ainda, que vivemos a terceira onda de remoções no Rio de Janeiro, o que aprofunda a segregação social, provocando a “pobreza distante”. No entanto, ao comentar os protestos ocorridos no país, salientou que “estamos fazendo um marco global quando nos manifestamos localmente”.

Sagrada aliança

Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro também falou sobre o papel desses grandes eventos nas trajetórias das mudanças nas metrópoles e os impactos que os eventos poderiam ter na ação do governo sobre essas regiões metropolitanas.

Segundo ele, após os anos 1970,houve uma mudança na organização socioterritorial: a industrialização fez o povo migrar do campo para a cidade e isso alterou a organização urbana. A partir dos anos 2000, as transformações macroeconômicas e sociais foram acentuadas. Ele citou o economista Carlos Lessa, ao ressaltar que há uma “sagrada aliança” entre os grandes interesses internacionais e os locais.

De acordo com o coordenador do Observatório das Metrópoles, a política atual de gestão de conflitos de classes impede que eles cresçam e se constituam de maneira nítida. Ele falou também sobre a mercantilização das cidades, que estão sendo empurradas para uma política competitiva, deixando de prover serviços básicos e enfatizando somente o desenvolvimento econômico.

Protestos vão continuar

Em seguida, Claudia Favaro discursou acerca do trabalho dos comitês populares e da necessidade de sua criação. Segundo ela, esses comitês monitoram os impactos sociais e tentam minimizá-los, focando na organização dos atingidos. “Eles também buscam subsidiar os movimentos sociais, pressionar o governo e, agora, denunciar a máfia dos comitês organizadores”, relatou. Para isso, os comitês também produzem informações, vídeos e documentos.

A representante da Ancop frisou a fundamental importância que a academia tem na produção de pesquisas e na capacidade argumentativa para pressionar o governo. “Não podemos só identificar os impactos, mas também impedi-los”, disse.

“O Rio de Janeiro é a cidade onde tudo está efervescente”, ressaltou, citando os exemplos das manifestações contra o transporte público de má qualidade e a falta de mobilidade urbana, questões diretamente ligadas à Copa.

Orgulhosa, disse ainda que durante a Copa das Confederações não houve um jogo sem protesto e que é preciso “dar sequência a esse processo, mobilizando diversos setores sociais”. Acrescentou que é necessário, ainda, fortalecer as mídias alternativas. “Não temos mais tempo para uma Copa sem impacto e sem violação dos direitos humanos”, concluiu.

Fechando as exposições, Raquel Rolnik frisou que não é possível falar desse tema sem referência à sua dimensão global. “Como disse Carlos Vainer, os megaeventos historicamente sempre provocaram mudanças e politização”, destacou.

Ela deu o exemplo dos eventos durante a Guerra Fria e reiterou que acontecimentos esportivos desse porte evocam o patriotismo das nações.

A relatora especial das Nações Unidas para o direito à moradia também criticou as remoções que acontecem durante os megaeventos esportivos com o objetivo de atender aos interesses “do complexo imobiliário e financeiro”.