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Memória

Professora da Universidade de Buenos Aires abre Colóquio Brasil-Argentina

Nesta quinta-feira (13), a Escola de Comunicação da UFRJ abriu o Colóquio Brasil-Argentina no Auditório do CFCH. O evento teve como tema “Processos Históricos e Narrativas Audiovisuais”.

Nesta quinta-feira (13), a Escola de Comunicação da UFRJ abriu o Colóquio Brasil-Argentina no Auditório do CFCH. O evento, coordenado pelos professores Ana Paula Goulart, Marialva Barbosa e Igor Sacramento, todos da UFRJ, teve como tema “Processos Históricos e Narrativas Audiovisuais”.

A ideia do colóquio vem do convênio bilateral entre Brasil e Argentina, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Tecnológicas da Argentina (Conicet), no sentido de que pesquisadores de ambos os países trabalhem em um projeto comum. A pesquisa “Imagens televisivas de 1968 e processos históricos da televisão no Brasil e na Argentina: imagens de massa e imagens para a massa” é resultado dessa parceria.

Em entrevista ao portal de notícias da UFRJ, Marialva Barbosa diz que “o objetivo do projeto é fazer um estudo comparado, a rigor, entre os processos narrativos da televisão brasileira e argentina, tomando como foco os acontecimentos de 1968. Neste sentido, vão ser apresentados no colóquio os resultados parciais da pesquisa. Além dos resultados obtidos pelos professores que participam mais diretamente do projeto, nós organizamos um colóquio, ou seja, recebemos trabalhos de pesquisadores de todo o Brasil, que pesquisam temas semelhantes”.

 Durante a abertura do evento, Marialva, que é coordenadora do projeto, agradeceu a presença de todos, mas principalmente a do mediador João Freire (professor da ECO) e da pesquisadora Mirta Varela, que  foi responsável pela mesa de abertura, de título “A massificação da televisão e as representações do maio de 1968 no Brasil e na Argentina”. Varela é professora doutora da Universidade de Buenos Aires (UBA-ARG) e professora titular da Cátedra História dos Meios de Comunicação, realizando pesquisas com história da televisão e do audiovisual. Por esse e outros motivos, foi citada por Freire como “referência no tema”.

Simpática, antes de iniciar, a professora argentina confessou que nunca antes havia falado em português em público: “Confesso que não sei falar, mas sou ousada e vou tentar”. A palestra de Mirta teve como foco a TV como ator social e político, tomando como exemplo o movimento de protesto que ocorreu na cidade de Córdoba em maio de 69, chamado Cordobazo. Este ocorreu no governo ditatorial de Juan Carlos Onganía, devido, principalmente, à perda de direitos trabalhistas e à perseguição aos militantes comunistas. Essa revolta, de caráter espontâneo, de grande força e consequências políticas, chamou a atenção dos meios de comunicação.

Movimento argentino

As representações dos carros queimados nas ruas se tornaram um clichê televisivo, colocando em evidência, segundo a palestrante, a tensão entre possibilidade estética e veículo social vivida pela televisão. Em um momento de forte censura, a TV mostrava, por meio de imagens, a violência nas ruas, fruto da forte repressão ao movimento. A imagem que deu dimensão internacional ao Cordobazo foi a do confronto entre polícia e manifestantes, na qual os policiais, em seus cavalos, foram obrigados a recuar devido às pedras atiradas pelos militantes. A ditadura não censurava essas imagens porque as usava para reconhecer integrantes do movimento e puni-los.

A segunda parte da palestra tratou do cinema militante. Segundo Mirna, esse teve um caráter documental, havendo muito pouco de ficção. A mesma cena dos cavalos recuando, citada no parágrafo anterior, vai aparecer em três filmes diferentes da época e posteriormente em onze.

 Cordobazo era cinematográfico. A música cantada pelos manifestantes se tornou trilha sonora para algumas imagens. Essas, por sua vez, retratavam jovens, comparando os que não se preocupavam com os problemas reais da Argentina, e os vanguardistas.

A principal mudança, no ponto de vista das imagens feitas das manifestações, está na representação dos manifestantes. Até 1940, se via uma massa homogênia, distribuída de forma quase militar no espaço, que dava uma sensação de organização, de um conjunto de pessoas conduzidas por um líder que se evidenciava. No Cordobazo, há uma maior dispersão dos manifestantes, mostrando espaços vazios e lotados, olhares em direções opostas, atitudes de violência e de festa. As multidões ganharam espontaneidade, atitude, deixando de ser massa e sendo observada como povo. Mirta evidenciou também que o líder quase não aparece.

Debates

Faltando 20 minutos para o fim da mesa, o mediador abriu para perguntas, que por sua vez abordaram temas como a dificuldade de acesso ao acervo de imagens televisivas históricas tanto no Brasil, quanto na Argentina; a comparação das imagens do Cordobazo com as da ditadura militar; e o Cordobazo como imagem de lembrança, não de esquecimento. Neste último ponto, levantado pela professora Marialva Barbosa, que assistia à palestra, Mirta listou alguns dos motivos por esse movimento ter construído tamanha memória imagética e significância nos meios de comunicação. Para ela, o fato de ser um movimento popular não peronista representou um marco importante para o movimento sindical argentino.

A professora da UBA finaliza afirmando que ainda há muito pouca reflexão sobre as imagens, em um século totalmente imagético, e que, ao contrário do que muitos acreditam, estas imagens não são meras reprodutoras de conceitos, mas têm autonomia para produzi-los.

Em entrevista ao Portal da UFRJ, Mirta Varela falou sobre a importância do Colóquio para incrementar os contatos de pesquisa entre os dois países e incentivar o que ela chama de “história da mídia comparada”, pouco desenvolvida até hoje. “Eu acho que esse colóquio tenta instigar essa comparação, sobretudo do ponto de vista audiovisual. A história do cinema, a história da televisão, são muito pensadas do ponto de vista nacional. Para mim, é muito importante estabelecer ligações, contatos, diálogos entre diferentes histórias, que muitas vezes se mostram não tão diferentes, apresentando, às vezes, pontos em comum” – afirma Varela.

A pesquisadora demonstra, ainda, seu interesse pela história audiovisual do Brasil e por conhecer os trabalhos de pesquisa dessa área no país. “Na Argentina se conhecem alguns filmes brasileiros, os mais renomados. Mas, não é comum conhecer a história da televisão e do cinema. O cinema brasileiro praticamente não chega à Argentina, chegam mais os filmes norte-americanos” – lamenta a professora.

“Eu acho que é muito importante nos conhecermos, tentarmos falar nossas línguas, mesmo se não conseguirmos [risos]. Eu acho muito importante esse esforço. Gosto muito de poder estar aqui hoje” – confessa Mirna Varela.

O “1° Colóquio Brasil-Argentina” apresenta ainda cinco mesas, com os temas: Narrativas audiovisuais e vestígios do passado; Memória e identidade nas narrativas audiovisuais; O ficcional e o documental nos processos de representação do passado; As políticas e circuitos de produção audiovisual; e O audiovisual no contexto da ditadura e da redemocratização.