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Muniz Sodré, “o cara” da Comunicação no Brasil

A “Semana Muniz Sodré” foi encerrada na última sexta (20/4) com uma série de homenagens ao professor emérito da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ. Em 80% das pesquisas acadêmicas em Comunicação no Brasil, excluindo trabalhos da ECO, há referências teóricas de Sodré.

 A “Semana Muniz Sodré” foi encerrada na última sexta (20/4) com uma série de homenagens ao professor emérito da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, no ano em que completou 70 anos de vida. A mesa “Muniz e a Comunicação” reuniu os professores Emmanuel Carneiro Leão, um dos fundadores da ECO-UFRJ, ao lado de Muniz Sodré (e considerado pelo próprio homenageado uma de suas principais referências teóricas), Marialva Barbosa, Paulo Vaz, ambos também professores da ECO, e Alexandre Freeland, diretor de redação do jornal O Dia e ex-orientando de graduação de Muniz Sodré.

“Muniz Sodré é o mais importante teórico da Comunicação brasileira”, afirmou categoricamente Marialva Barbosa, sem medir palavras. “Ele é `o cara`, como diria Obama”, acrescentou a docente. Para comprovar, a professora baseou-se não em afinidades pessoais ou acadêmicas. Mas, sim, em estudos orientados por Maria Immacolata Vassallo e Margarida Kunsch, professoras da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com os dados apresentados na pesquisa, de 1970 até hoje, quando têm início os estudos de Comunicação como Ciência Humana Aplicada no país, foram encontrados 4.991 registros em dissertações de mestrado e 1.700 em teses de doutorado de referências a Muniz Sodré.

Ainda de acordo com os números coletados, em 80% das pesquisas acadêmicas em Comunicação no Brasil, há referências teóricas de Sodré. Detalhe: não foram considerados trabalhos da ECO-UFRJ, unidade da qual Sodré faz parte e cujos pesquisadores e docentes tendem a ser, naturalmente, influenciados pelo acadêmico. “Esta é a prova de que Muniz Sodré é um intelectual duradouro e de que seu trabalho influencia, sobremaneira, os pesquisadores da nova geração”, analisou.

Jornalismo com reflexão, um legado de Sodré

Alexandre Freeland, diretor de redação do jornal O Dia, ex-orientando de graduação de Sodré, acredita que seu trabalho é, até hoje, fruto dos ensinamentos do mestre. Para ele, a aplicação das teorias de Sodré no cotidiano da redação do periódico comprova que “é possível, sim, ter reflexão mesmo trabalhando no mercado”. Freeland apresentou diversas reportagens publicadas no jornal que demonstram a sua “vontade de provocar rupturas”, aprendida com o antigo professor. Uma delas foi sobre uma empresa que oferece o serviço de empregadas domésticas e que seleciona as candidatas ao serviço pela cor da pele. A reportagem denunciou a clara manifestação de racismo em suas páginas. “É preciso estar aberto a rupturas em um mercado cada vez mais ávido por notícias. A reflexão sobre as teorias da Comunicação hoje é muito maior do que se imaginava anos atrás”, afirmou.

Paulo Vaz citou a importância de Muniz Sodré no início de sua carreira como docente da ECO-UFRJ e os primeiros contatos com textos do homenageado. Vaz citou alguns dos livros de Sodré, como A Verdade Seduzida, Claros e Escuros, que “abrem a possibilidade de questionamentos”, e Antropológica do Espelho. Neste último, de acordo com Vaz, Sodré analisa o processo comunicacional de forma inédita. “É possível entender a representação da realidade através da mídia, pelas ideias de real e simulacro”, citou, em referência aos conceitos de espelho, aquilo que reflete, e medium, um “condicionador ativo daquilo que diz refletir”, de acordo com Sodré.

Reverenciado por todos na mesa, da plateia e, inclusive, por Sodré, Emmanuel Carneiro Leão saudou o homenageado com um texto de sua autoria que exalta os conceitos de Cultura e Conhecimento, dois dos temas trabalhados nas obras de Muniz Sodré. “A partir de Muniz, comunicar deixou de ser a mera divulgação de notícias para fazer parte das relações socioculturais e político-econômicas”, sintetizou.

Espírito crítico como arma teórica

Por fim, o próprio Muniz Sodré tratou de encerrar o evento com palavras de amor à Escola de Comunicação da UFRJ. Cofundador da unidade, Sodré recordou sua chegada à ECO, após período de estudos na França, onde fora aluno de Roland Barthes e tornara-se amigo de Jean Baudrillard, entre outros. Em meio ao alvoroço causado pelas ideias de Marshal MacLuhan, em fins dos anos 1970, Sodré recordou os conselhos de Carneiro Leão, no sentido de relativizar conceitos como “aldeia global”. Por tanto, como pensador do campo comunicacional, Sodré considera-se um “questionador de uma cultura sem sujeitos”, tendo se insurgido contra essa ideia em seus livros.

Sodré não descarta as novas tecnologias de Comunicação. No entanto, acredita que a “hipertrofia da informação” leva a um “desaparecimento da cultura” e a uma “informação como mera quantidade ou dado”, resultando em uma “cultura como produção mercantil”. De acordo com o homenageado, “o principal objetivo da ‘mídia’ atual é se apropriar do tempo do outro”, transformando-se em uma “mídia conectiva, mas não informativa”. Como saída, Sodré propõe que “a inteligência chegue com mais força à mídia impressa”, citando o exemplo de Freeland. “O meu ponto fulcral é não abrir mão da ideia de cultura e do senso crítico quanto às tecnologias da informação”, resume, mostrando por que é o principal e mais influente intelectual brasileiro do campo comunicacional.

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