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A cultura da não prevenção

Convidada para fazer a palestra de abertura da “2ª Semana de Integração Acadêmica”, que ocorre até o próximo dia 7 em diferentes unidades da UFRJ, Ana Luiza Coelho Netto, professora titular do Instituto de Geociências, aborda as causas da tragédia ocorrida na Região Serrana, no início do ano, após fortes chuvas e ressalta as medidas necessárias para evitar que novas tragédias se repitam nos próximos meses.

Ana Luiza Coleho Neto. Foto de Marco FernandesApós a tragédia na Região Serrana, ocorrida no início do ano, a população volta a se preocupar com a proximidade do período de chuvas. Enquanto autoridades públicas são investigadas por desvio de verbas que deveriam ser utilizadas na recuperação da infraestrutura de municípios atingidos, especialistas discutem alternativas para minimizar as consequências dos deslizamentos nas encostas e das enxurradas.

Convidada para fazer a palestra de abertura da “2ª Semana de Integração Acadêmica”, que ocorre até o próximo dia 7 em diferentes unidades da UFRJ, Ana Luiza Coelho Netto, professora titular do Instituto de Geociências da UFRJ, aborda as causas do fenômeno extremo que atingiu várias cidades, como Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo. Ressalta também as medidas necessárias para evitar que novas tragédias se repitam nos próximos meses.

“O fenômeno espelhou que estamos muito despreparados. O fenômeno não é novo, mas nunca demos importância para detonar medidas de caráter preventivo. Nossa cultura sempre foi a de reunir uma série de promessas que não tem vida longa”, afirma Ana Luiza, coordenadora do Laboratório de Geo-Hidrecologia (Geoheco).

Em entrevista ao Olhar Virtual, a geógrafa e geomorfóloga destaca ainda a importância do papel da universidade na análise das áreas com maior suscetibilidade para a ocorrência dos deslizamentos.

Olhar Virtual: Fortes chuvas no Rio de Janeiro não são um fenômeno novo. No entanto, o impacto dos desastres ocorridos no início do ano na Região Serrana foi bem maior em comparação a outros eventos extremos. Como explicar isso?

Ana Luiza Coelho Netto: Há registros de catástrofes anteriores desde os anos 60. Houve um evento de magnitude grande na Serra das Araras e eventos muito intensos localizados no Maciço da Tijuca em 1988, 1996 e 2010. Na própria Região Serrana, chuvas já causaram danos, perdas e mortes. O fenômeno não é novo e sabemos que pode ocorrer em períodos de chuva extrema. Na Região Serrana, no início do ano, a chuva foi concentrada em dois dias: 11 de janeiro e madrugada do dia 12. A chuva acumulada foi de mais 200 mm em menos de 24 horas. Somando os dois dias, chegou a 300 mm. Esse era o esperado para o mês todo. Foi um volume muito grande, acompanhado por tempestade de raios, como foi narrado pelos moradores, e tremores. A ciência ainda não responde sobre as condições de detonação desses deslizamentos. A detonação ocorreu no início, meio e final da chuva. Uma das causas é a acumulação da água do solo, mas precisamos avançar mais no conhecimento desse fenômeno. Como novidade, podemos apontar a grande dimensão espacial dessa chuva. Comparando com a Serra das Araras, percebemos que a área atingida – de 600 Km2 – foi a maior já conhecida na história do país. Na Serra das Araras, a área era de 200 Km2. Nas cidades situadas nas partes mais altas, houve deslizamentos nas encostas levando grande volume de sedimentos para os rios, formando enxurradas que atingiram vários municípios. Numa área de aproximadamente 400 Km2 foram mapeadas 3622 cicatrizes de deslizamentos associadas a este evento extremo de chuva.

Olhar Virtual: Faltou trabalho de prevenção para minimizar esses estragos?

Ana Luiza Coelho Netto: O fenômeno espelhou que estamos muito despreparados. O fenômeno não é novo, mas nunca demos importância para detonar medidas de caráter preventivo. Nossa cultura sempre foi a de reunir uma série de promessas que não tem vida longa. O número de mortes foi algo extremo na nossa história de desastres causados por deslizamentos. Embora oficialmente tenha sido divulgado um número da ordem de mil mortes, sabemos que existem muitas áreas que não foram sequer tocadas, o que pode indicar outras centenas de mortes. O fenômeno em si não é novo. A novidade foi a sua magnitude em termos da dimensão espacial e da intensidade das perdas e danos, representados, principalmente, pelo elevado número de mortes e desaparecidos. Continuo sem dar muito peso ao atual programa dos “apitos”. O plano de preparação e assistência emergencial é de grande importância, tal como outros países já adotam diante de fenômenos como os terremotos. Mas para sua real efetividade teríamos que saber, antes, para onde e como deslocar a população após o sinal de alerta. No caso da Região Serrana, por exemplo, não teria sido possível o deslocamento da população, no meio da noite, para abrigos que estivessem a grandes distâncias. Por outro lado, vejo uma grande lentidão no processo de reabilitação das áreas afetadas pela catástrofe do inicio do ano, o que significa que estas áreas estão muito mais vulneráveis a ocorrências de novas catástrofes, mesmo sob chuvas relativamente inferiores às chuvas de 2011. Esta região ainda carece de medidas e procedimentos adequados de análise espacial para identificação das atuais áreas de risco. Acho importante o trabalho de mapeamento denominado de “risco iminente”, segundo o modelo da Geo-Rio, mas este é um tipo de mapeamento de terreno já em processo de ruptura. Classificam-se de alto risco os terrenos onde as casas já mostram rachaduras e, de risco médio, o entorno dessas casas. São manchas isoladas casa a casa. O desafio, porém, é chegarmos (literalmente) “antes que a casa caia”, ou seja, antes que os terrenos entrem no estado de ruptura. Temos que analisar as condições do terreno, e isto implica o reconhecimento, caracterização e mapeamento detalhado das estruturas das rochas, solos, vegetações, construções e condições da drenagem natural e artificial, alem da análise de concentração e dos fluxos relativos à mobilização da população, da qualidade de vida e das pressões e fluxos econômicos sobre as áreas de interesse direto e vizinhanças. É possível construir estas bases de análise espacial e definir as áreas com maior suscetibilidade para a ocorrência de deslizamentos. Este mapeamento de suscetibilidade, por sua vez, deve ser integrado a uma outra análise complementar de ameaças ou perigos, baseada na avaliação estatística, probabilística, de outros eventos similares sobre a área de interesse. Essas duas bases de análises espaciais, de suscetibilidade e de ameaças, devem, então, ser integradas com a análise de perdas e danos potenciais, permitindo, finalmente, a classificação e o mapeamento de graus de riscos diferenciados frente aos deslizamentos.

Olhar Virtual: E a universidade tem muito a contribuir nesse processo?

Ana Luiza Coelho Netto: A universidade é o grande celeiro de competências afins ao desenvolvimento do conhecimento fundamental que alimenta e sustenta as inovações de natureza metodológica e/ou tecnológica, e que orientam, por seu turno, as ações voltadas à mitigação, adaptação e prevenção dos desastres. Além disso, a universidade também se constitui no grande centro de formação, qualificação e capacitação de pessoas para o enfrentamento dos desastres. Hoje, o foco das atenções recai sobre os chamados “mapeamentos de riscos”, como suporte fundamental ao enfrentamento dos desastres. De fato, eles são essenciais, mas não surgem “da noite para o dia”. Não é receita de bolo que se possa propagar indiscriminadamente – cada lugar ou região terá suas especificidades e por diferentes combinações de fatores-controles, os mesmos mecanismos poderão ocorrer, assim como os impactos e o balanço de perdas e danos igualmente poderão ser variáveis. Podemos importar modelos, mas igualmente podemos adaptar ou inovar na construção de novos modelos afins à construção metodológica das análises e mapeamentos de riscos associados aos deslizamentos e outros fenômenos correlatos. Devemos, sim, intercambiar com especialistas no Brasil e ao redor do mundo, pois trocando experiências ampliamos nossas bases de construção do saber e de suas aplicações. Mas também precisamos sair dos nossos laboratórios de pesquisas e salas de aulas para estimular os diferentes grupos sociais, especialmente aqueles que estão mais expostos aos desastres desta natureza. Estimular e aprender com as organizações de autodefesa já existentes ou impulsionando as mudanças nos atuais modelos de ordenamento e gestão territorial nos municípios e estados mais vulneráveis. Trata-se da inclusão numa luta política e por políticas mais efetivas. Trata-se de estimular a percepção sobre a natureza dos desastres e da magnitude de seus impactos sociais, econômicos e ambientais. Temos ainda pela frente o desafio maior de consolidar uma cultura de prevenção diante das chuvas extremas. A universidade não pode negar a sua participação nesse  compromisso.