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Ciência e música: destruição de células cancerígenas

A relação entre a ciência e a música coincide com o próprio aparecimento da ciência moderna. Uma equipe do Programa de Oncobiologia da UFRJ, coordenada pela biofísica Márcia Capella, demonstrou a interferência de algumas músicas clássicas em diversos parâmetros celulares, incluindo a viabilidade celular.

A relação entre a ciência e a música pode ser encarada como algo muito consistente, e seu início coincide com o próprio aparecimento da ciência moderna. A música, por se tratar de uma atividade com raízes que se entrelaçam com conceitos da física e da matemática, estimula a realização de investigações científicas sobre as suas propriedades. Uma equipe do Programa de Oncobiologia da UFRJ, coordenada pela biofísica Márcia Capella, demonstrou a interferência de algumas músicas clássicas em diversos parâmetros celulares, incluindo a viabilidade celular.

No processo, células MCF-7, de câncer de mama humano, expostas à Quinta Sinfonia de Beethoven e à Atmosphères de Ligeti, apresentaram resultados semelhantes: uma em cada cinco células expostas às músicas durante um intervalo de meia hora, morreu. Outra composição musical também foi aplicada, a “Sonata para dois pianos em ré menor” de Mozart, mas não gerou alterações na viabilidade celular. Todas as três composições, contudo, foram capazes de alterar o ciclo regular e alguns outros parâmetros celulares das amostras. A pesquisa utilizou também células renais MDCK, de cachorro, e células K562, de leucemia humana, porém sem estas apresentarem resultados semelhantes ao visualizado no caso das células do câncer de mama humano.

Segundo Márcia Capella, o resultado em si não é de todo surpreendente: “Já existem diversos artigos mostrando que frequências sonoras audíveis interferem no crescimento de células em cultura, com a atividade de enzimas intracelulares e com a estrutura de algumas proteínas da membrana celular.” Artigos como "Effect of sound wave stress on antioxidandt enzyme activities and lipid peroxidation of Dendrobium candidum" e "A pilot study on the effect of audible sound on the growth of Escherichia coli", publicados no Colloids and Surfaces B, são exemplos de estudos ligados ao tema. A diferença entre esses estudos citados, assim como muitos outros, e a pesquisa realizada pela equipe do Programa de Oncologia da UFRJ é que no lugar de serem utilizadas frequências puras, foi feito o uso de música, que do ponto de vista físico pode ser classificada como um somatório de diversas frequências sonoras.

Quanto ao uso da técnica na medicina, Márcia Capella explica que é muito cedo para saber se será possível aplicar em humanos. “Falar de uma possível aplicação em humanos nesse momento ainda é pura utopia”, diz a pesquisadora.  A utilização da música já ocorre como terapia auxiliar em diversas doenças, mas não com um caráter curativo. É o caso da prática da musicoterapia, que aplicada por um musicoterapeuta qualificado, busca desenvolver potenciais de um grupo ou indivíduo de forma que seja alcançada uma melhoria na qualidade de vida. Já no caso específico da pesquisa com as células de câncer de mama, é necessário um aprofundamento nos mecanismos do fenômeno observado, além de ser preciso que as condições de cultura de células sejam otimizadas. A partir daí, se for o caso, passar então para os estudos com cobaias.

Contudo, os resultados da pesquisa se mostraram satisfatórios, levando em conta que não era esperada a morte de células cancerígenas, e sim padrões de alterações metabólicos nas mesmas. Questões como o motivo de sinfonias tão diferentes apresentarem resultados semelhantes, e se o efeito final foi resultado das músicas como um todo ou de elementos isolados como o ritmo, o timbre ou a intensidade, ainda precisarão de mais estudos para que sejam respondidas.

Márcia Capella analisa da seguinte forma: “Nossos estudos ainda são básicos e respondem uma pergunta muito simples: se diversos artigos na literatura científica mostram que frequências sonoras audíveis interferem em diversos parâmetros celulares, poderia a música intervir também? Estamos vendo que sim”, conclui a pesquisadora.