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Professor Michael Dutton reflete a política através da arte em palestra do PACC

O professor de Ciência Política da Goldsmiths University of London, Michael Dutton, apresentou, na quinta-feira (30/06), durante a palestra Fragmentos do Político: da Torre Eiffel à Rent Collection Courtyard, uma nova maneira de abordar o político na era moderna, através da análise de três monumentos chave da modernidade: a Torre Eiffel, a Roda Gigante e o Monumento à Terceira Internacional, de Tatlin.

O professor de Ciências Políticas e especialista em política urbana chinesa e estudos culturais chineses do Department of Politics, Goldsmiths University of London, Michael Dutton, apresentou, na última quinta-feira (30/06), durante a palestra Fragmentos do Político: da Torre Eiffel à Rent Collection Courtyard, uma nova maneira de abordar o político na era moderna, através da análise de três monumentos chave da modernidade: a Torre Eiffel, a Roda Gigante e o Monumento à Terceira Internacional, de Tatlin. A palestra, realizada no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, no Flamengo, foi organizada pela Coordenação do Programa de Pós-Doutorado em Estudos Culturais do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), órgão complementar do Fórum de Ciência e Cultura (FCC) da UFRJ.

Com tradução consecutiva da professora da Escola de Comunicação (ECO), Liv Sovik, Dutton explicou que o estudo não se trata de um artigo, mas de uma série de fragmentos sobre a política na modernidade. Essa política, segundo o professor, não é a definição comum que trata de líderes, legislação ou do poder das massas. Trata-se do que o filósofo político Carl Schmitt chama de intensidade política, e que, de acordo com Dutton, vem sendo minimizada na contemporaneidade, mesmo sem deixar de existir. O estudo de Dutton abordou essa questão discutindo três monumentos da modernidade, que começa na era de ferro e vidro, utilizando a expressão do teórico da comunicação Walter Benjamin.

A Torre Eiffel e a passagem à era do ferro e do vidro
O primeiro monumento analisado por Dutton é a Torre Eiffel, situada em Paris, projetada pelo engenheiro Gustave Eiffel e construída como o arco de entrada da Exposição Universal de 1889. Conhecido por projetar pontes, Eiffel projetaria desta vez, segundo o professor, uma ponte que ligaria a era pastoral à era do ferro e do vidro. Com vigas que lembram estruturas de plantas, a torre seria “uma espécie de arbustos estruturados que marca o início da vida moderna”, analisa o professor que também associa à modernidade a exploração do trabalho no início da era industrial. A passagem do telúrico – o que é relativo à terra e ao solo –para o industrial é representado pela  Torre Eiffel, segundo Dutton. “A torre chegou antes da tecnologia que preconizava”, afirmou.

A Roda de Ferris e o lucro na dimensão do sonho
Como resposta à construção da Torre Eiffel, Dutton citou ainda dois outros monumentos: a roda gigante e o Monumento à Terceira Internacional, que não chegou a ser construído. A roda gigante projetada por George Ferris e aberta ao público em 1893, nos Estados Unidos, é o sinal da nova indústria cultural americana, transformando prazer em lucro, de acordo com o professor. “É a funcionalidade que chegou ao mundo do lazer no início do século XX”, comentou Dutton. Para o professor, a roda gigante deixa de lado a importância do desenho para se tornar um monumento à funcionalidade, na passagem do início da revolução industrial para um estado onírico de prazer e diversão, ideia que passa a ser vendida às massas americanas e mais tarde aos parques de diversão em todo o mundo.

A Torre de Tatlin e a Revolução Soviética
Já o monumento do arquiteto ucraniano Vladmir Tatlin à Terceira Internacional é avaliado pelo professor como uma nova maneira apresentada pelos soviéticos de imaginar o mundo. Dutton acredita que o monumento apresente os dois poderes preconizados pela Revolução Soviética de 1917: o poder de inspirar e o de se organizar cientificamente.

Trazendo a arte para fora da precisão geométrica, o monumento, que não chegou a ser construído, é inspirado pelas ideias construtivistas e empurra a noção de modernidade para um rumo diferente de Ferris: o rumo da revolução. Para o professor, o monumento representa a ideia da fusão entre a arte e a vida, um engajamento da arte com o cotidiano que seria chamado pelos construtivistas de “arte de produção”. Como explicou Dutton, isso se baseia na ideia de produzir objetos e utensílios que sirvam não apenas à vida cotidiana, mas à revolução.

Rent Collection Courtyard
O professor concluiu a explicação apresentando outra obra produzida para gerar intensidade política: o grupo escultórico Rent Collection Courtyard, formado por 114 peças em tamanho natural que descrevem os moradores de uma aldeia na China, assim como seus hábitos e costumes, principalmente o conflito de classes e relações de poder. 

O conjunto de esculturas foi criado em 1965 por estudantes e professores do Instituto de Belas Artes de Sichuan na China, ainda sob a ditadura de Mao Tsé-Tung. Apoiada por uma revolução cultural, da mesma forma que os exemplos citados anteriormente, a obra que trata do momento em que os senhores donos de terras cobravam o aluguel dos trabalhadores incita o sentimento de ódio de classes, defendeu Dutton. “O horror apresentado descrevia o elemento afetivo da forma política de Mao”, explicou o professor.