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Nem tão imigrantes, nem tão brasileiros

O III Fórum de Imigração convidou estudiosos, pesquisadores, especialistas, entre outros, para debater a realidade migratória no Brasil. O tema eleito para esta terceira edição foi a questão das trocas interculturais e construção de novas identidades locais.

O III Fórum de Imigração convidou estudiosos, pesquisadores, especialistas, entre outros, para debater a realidade migratória no Brasil. O tema eleito para esta terceira edição foi a questão das trocas interculturais e construção de novas identidades locais. Para abordar esse assunto, foram convidados Aleksander Laks, presidente da Sherit Hapleitá (Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista), Padre Dimitrios Nikolayidis, padre da Igreja Ortodoxa Grega no Rio de Janeiro, Merced Lemos, diretora de Assuntos Culturais no Consulado do Chile no Rio de Janeiro e Maibrit Thomsen, diretora do Instituto Cultural da Dinamarca. 

Merced Lemos, durante sua fala, levantou questões como miscigenação cultural, adaptação a uma nova sociedade e contou um pouco sobre sua experiência como estrangeira no Brasil. A chilena criticou a visão estereotipada de que a vida em território brasileiro é mais fácil e promissora. Segundo ela, muitos imigrantes olham para país de forma errada. “Hoje, é muito difícil se estabelecer no Brasil”, afirmou. “O chileno não quer saber do seu compatriota quando chega aqui”, criticou.

A palestrante também sinalizou que o povo do Chile tem uma característica migrante muito forte. “O chileno vaga pelo mundo. Ele não fica quieto. Curiosamente, aqui no Brasil, ele cria uma relação com o povo local”, disse. Merced explicou como funciona o processo de adaptação do migrante a uma nova cultura. Primeiro, existe o processo de descoberta, onde novas manifestações artísticas aparecem, como culinária, novelas, músicas, etc. Depois dessa etapa, há um movimento de introdução do estrangeiro numa das manifestações artísticas vivenciadas. Por fim, ocorre uma fusão entre a cultura local com a cultura nativa do imigrante.

Para ilustrar sua argumentação, Merced deu exemplos de como as manifestações artísticas colaboram para inserção do estrangeiro na cultura do outro país. “Eu aprendi a falar português ouvindo música popular brasileira”, contou. Segundo ela, novelas também são ótimos pólos difusores das características locais. Inclusive, até agremiações de carnaval ajudam os migrantes a se enturmarem. “As Escolas de Samba do Grupo Especial abrem portas para a coletividade estrangeira sim”, defendeu. No entanto, Merced salientou que a forma do imigrante driblar a saudade de casa é reinventar a cultura do local onde vive. “O chileno vai procurar estar no Chile em terras brasileiras”, resumiu. “Os fios chilenos e os fios brasileiros vão dar origem a um tecido totalmente novo, que não é 100% nenhuma das nacionalidades”, completou.

Maibrit Thomsen falou sobre seu interesse pelo Brasil e contou sua experiência como diretora do Instituto Cultural da Dinamarca. Ela afirmou que há dois tipos de fluxo de imigrantes para o país da América do Sul. Uma forma é a estada por tempo de trabalho e a outra é motivada pela paixão e curiosidade que o estrangeiro tem pelas terras brasileiras. Segundo Thomsen, é importante que haja uma mistura desses dois formatos para possibilitar maior diversidade. Além disso, Maibrit Thomsen explicou que o Instituto Cultural que ela dirige promove eventos para reunir a comunidade dinamarquesa que mora no Brasil e busca difundir a cultura do país nórdico entre os brasileiros.

O grego Dimitrios Nikolayidis, padre da Igreja Ortodoxa Grega no Rio de Janeiro, comentou sobre a característica migratória da Grécia. “Desde a Antiguidade, os gregos procuravam o desconhecido em busca de melhores condições”, afirmou. O Padre também abordou o processo de desculturalização que ocorre com o passar do tempo. “O grego, por mais que queira conservar seus hábitos, não consegue. A segunda geração de imigrantes não é tão atenta a cultura nativa. Eles já se consideram brasileiros. E a terceira, nem se fala”, observou.

Para fechar o debate, Aleksander Laks, presidente da Sherit Hapleitá (Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista), falou sobre seu passado como sobrevivente do Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial. Nascido na Polônia, Laks vivenciou o conflito armado a partir dos 11 anos de idade e até hoje tem fortes lembranças. “Eu posso dizer que sou uma espécie em desaparecimento”, referindo-se aos poucos remanescentes do massacre judeu da 2ª GM. Aleksander deixou claro que não gosta da palavra “naturalizado”, pois se considera um brasileiro nato. “Eu não sou polonês naturalizado brasileiro, eu sou brasileiro nascido na Polônia”, afirmou.

Laks também criticou o estigma negativo de “pão duro” e de grupo fechado que é associado ao povo judeu.  Ao final, o palestrante comentou sobre os anos de repressão nazista que experimentou. “Colegas que brincavam junto comigo me cagüetavam por ser judeu. Eu amava minha Polônia, mas ela não me aceitava”, desabafou.