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A mídia e a tragédia de Realengo

A tragédia ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na última quinta-feira, dia 7, levantou diversos questionamentos sobre segurança, desarmamento e doença mental.  A cobertura midiática gerou várias hipóteses que, no decorrer dos dias, foram se dissipando.

A tragédia ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na última quinta-feira, dia 7, levantou diversos questionamentos sobre segurança, desarmamento e doença mental. Quem acompanhou o acontecimento pelos meios de comunicação verificou também a busca desenfreada dos órgãos de imprensa pelo furo jornalístico. A cobertura gerou várias hipóteses que, no decorrer dos dias, foram se dissipando.

Quais os limites da mídia em momentos de crise? Cristina Rêgo Monteiro, professora da Escola de Comunicação (ECO-UFRJ), comentou sobre a atuação dos jornalistas na cobertura dos crimes em Realengo.

Olhar Virtual: Apurar num momento de crise é mais difícil? Por quê?

Cristina Monteiro: Toda a comunicação humana depende da forma como o observador registra o que está acontecendo, os recursos que ele tem para transmitir o que ele viu e os recursos que o decodificador tem para interpretar como ele ouviu aquela informação. Então, a dificuldade de transmitir uma informação pontual é uma dificuldade intrínseca ao ser humano, porque não se trata apenas das dificuldades que estão vinculadas à profissão do jornalista. A gente tem uma leitura subjetiva. Depende das suas crenças, das suas referências sociais, culturais e econômicas, da sua história pessoal pra decodificar o que está acontecendo. E, ao mesmo tempo, você precisa ter a capacidade de identificar o que é universal ao comunicar essa informação, trabalhando o senso comum para que a maior quantidade de pessoas entenda o que você está falando, sem deixar de lado as características, as especificidades daquele fato. Então, a dificuldade é de transmissão. A transmissão de uma informação para o maior número de pessoas, sendo fiel ao que seja mais importante, é de uma subjetividade a toda prova. Então, a dificuldade de se apurar qualquer informação já tem um grau X de dificuldade. O processo de produção hoje mudou de uma forma muito consistente e deixou entrar um terceiro personagem que não havia até pouco tempo atrás, que é o assessor de comunicação. Isso mostra pra mim que o arranjo da entrada de um “terceirizador” nos acontecimentos já é uma realidade que está afetando a capacidade dos jornalistas de grandes veículos de comunicação de se desvencilharem de situações em que essa assistência não existe. Não existia um assessor da escola, não existia um assessor do assassino e não existia um assessor da criança. Então, em casos de crise, o reporte se vê – o veículo se vê –frente a um acontecimento sem intérprete. O que acontece é quase a desesperada busca pelo clichê, pela imagem, pelo senso comum, para que todo mundo entenda o que estava acontecendo. Não havia tempo suficiente para apurar e, em minha opinião, já está se perdendo o know-how da apuração.

Olhar Virtual: Como o jornalista deve lidar com o “disse-me-disse” nessas situações? É plausível publicar algo que não pode ser checado, que foi dito por alguém sem verdadeiro conhecimento de causa da situação?

Cristina Monteiro: O jornalista vive de “disse-me-disse”. A questão é o filtro que ele tem ou que deve ter. Quando o jornalista é consciente e responsável, ele checa a informação antes de fazê-la circular. Por que ele pode até perder uma pretensa primazia, que hoje é uma ilusão. Dar furo hoje mudou. Deixou de ser dar a notícia primeiro para dar a notícia melhor. Porque mesmo que se acesse a internet e se encontre muitos sítios com informações a respeito do que você quer, você só se fia naquele que confia. Tem que ter uma referência de qualidade. Não se constrói um nome com tiro. Um jornalista só constrói o nome com posições reconhecidas e com qualidade reconhecida. Então é fundamental a relação de confiança que o internauta tem com a sua fonte. Hoje em dia, eu reparo que, na televisão, a gente não sabe mais os nomes dos repórteres. A gente só sabe o nome dos antigos que tiveram tempo de construir a sua relação.

Olhar Virtual: Qual a postura ideal do jornalista nesses casos: correr atrás da informação correta e só publicar depois de bem apurada ou informar o público à medida que os fatos vão se desenrolando?

Cristina Monteiro: Eu não sou a favor de publicar informação falsa em hipótese nenhuma. Acho que é um tiro no pé. Se eu acesso um site e sei que esse site joga o que está circulando primeiro e depois faz uma confirmação, o máximo de relação de confiança que posso estabelecer é saber que o site publica as primeiras hipóteses. Para ter certeza sobre o que está acontecendo, no entanto, eu não confio nele. Então, entre um jornalista e um fofoqueiro, eu considero que existe uma distância tão grande que eu não posso colocar essas suas pessoas na mesma categoria. Um jornalista – por isso eu defendo o diploma, por isso eu defendo a formação – é a pessoa responsável por investigar e divulgar o que descobriu, mesmo que ele seja um só e não dependa de empresa. Não acho que diploma seja sinal de reserva de mercado. Eu acho que diploma é sinônimo de qualidade de formação.

Olhar Virtual: A senhora acredita que a Internet, por ser um meio que prima pela agilidade da informação, gera mais desinformação do que informação? Diante disso, como o advento da Internet imprimiu mudanças na apuração jornalística?

Cristina Monteiro: Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A internet auxilia muito na apuração, mas ela não é a apuração. Ela é um instrumento e quem apura é o homem. A forma como a internet é utilizada depende da capacidade de quem a utiliza. Eu posso buscar coisas na internet com uma rapidez enorme. Eu tenho acesso a muitos arquivos que levaria anos para conseguir antes do advento da rede. Agora, achar que ela é ruim ou boa para o jornalismo é a mesma coisa que eu dizer que a televisão é ruim ou nefasta para o desenvolvimento humano social. A televisão é um aparelho. Quem produz o conteúdo, quem direciona o conteúdo e quem utiliza o conteúdo é quem faz aquele aparelho a serviço do que ele quer. O que está precisando andar pra frente é processo de conscientização e valorização da percepção humana de cada indivíduo.

Olhar Virtual: Qual é a sua opinião sobre a cobertura midiática do massacre na escola de Realengo? Quais os erros e acertos?

Cristina Monteiro: Houve um descuido muito grande nessa cobertura, porque cobrir para justificar os fatos nas plataformas é diferente de informar. Houve um cruzamento de linha ética que eu considero inaceitável. Considero inaceitável colocar uma criança em um programa de televisão e forçá-la a responder perguntas de uma forma marcante para fazer um gol jornalístico. Isso é um absurdo. Em minha opinião, isso é um crime. O jornalista detém um poder que só é exercido quando está a serviço, mas na hora que ele tem que denunciar alguma coisa ou garantir sua autonomia legal, nesse caso não é interessante, não vale o diploma. Aí qualquer um pode ser jornalista pelo direito de liberdade. Essa é uma liberdade inaceitável: uma criança que passou por um trauma daqueles ser submetida a um interrogatório de uma pessoa que não tem o direito de fazer isso, não tem o direito porque ela não está no lugar de fazê-lo. Não pode violentar o sentimento de uma criança marcado por uma situação. Essa pessoa não tem nem qualificação nos termos de abordagem psicológica pra fazer uma coisa dessas. Isso pra mim é inaceitável. Depois do que eu pude assistir, simplesmente me recusei a acompanhar esse noticiário. Por que ver e me envolver com depoimentos que provocam nas pessoas que já estão sofridas um sofrimento para atender o seu veículo? Isso não é jornalismo, não o jornalismo responsável. Agora é importante noticiar? Sim. É importante investigar o que levou uma pessoa a fazer aquilo, se é que é possível se descobrir. É importante mostrar o grau de exposição de uma camada da sociedade que frequenta uma escola e saber que qualquer pessoa pode entrar portando arma dentro de uma bolsa. É importante mostrar a falta de estrutura em termos de atendimento hospitalar. O lado bom da imprensa e do jornalismo é a essência dele. É mostrar, denunciar e tornar público coisas boas, e o que não for bom, divulgar pra corrigir. O lado ruim é que a gente observa uma exploração inadequada. Que essa exploração inadequada sirva para alertar a necessidade de a gente ter um comportamento mais ético na nossa profissão.