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A batalha ao vivo e em cores

Na tarde do último dia 21, domingo, foi registrado o ataque de criminosos que assaltaram e incendiaram dois veículos na Linha Vermelha. Desde então, os cariocas acompanharam, atentos, os acontecimentos seguintes, que envolveram megaoperações policiais – com a ajuda das forças armadas, inclusive – de ocupação às favelas cariocas da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão

 Na tarde do último dia 21, domingo, foi registrado o ataque de criminosos que assaltaram e incendiaram dois veículos na Linha Vermelha. Desde então, os cariocas acompanharam, atentos, os acontecimentos seguintes, que envolveram megaoperações policiais – com a ajuda das forças armadas, inclusive – de ocupação às favelas cariocas da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, onde se concentrava grande parte dos traficantes. Segundo balanço divulgado pelo site da Polícia Militar do Rio de Janeiro, na segunda-feira (29/11), à noite, no total, foram 37 mortos, 205 armas apreendidas, 123 prisões e 102 veículos queimados.

A mídia brasileira mobilizou uma cobertura intensa, de modo a prender a atenção da sociedade à invasão policial, tratando-a como a “guerra do Rio” e obtendo respaldo em imagens de forte simbolismo, como as bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro sendo hasteadas no ponto mais alto do Complexo do Alemão. A mídia internacional também noticiou amplamente o caso, utilizando frases de efeito, como o espanhol El País, que afirmou:  “a operação de reconquista do território do Rio com a maior concentração de traficantes começa a mostrar aos cidadãos quem tem o poder nas cidades: o tráfico ou o Estado".

Discurso que alimenta o medo

O professor Paulo Vaz, da Escola de Comunicação da UFRJ, aponta o uso de um argumento conservador típico no jogo usual midiático, onde se gera o medo em uma situação de crise para depois resolvê-la com algum tipo de solução excepcional. “Tal argumento consiste em, primeiramente, criar e alimentar o medo para que as pessoas fiquem extremamente assustadas, de modo a legitimar e tornar aceitáveis medidas emergenciais que usualmente deveriam ser consideradas com certo cuidado”, diz ele, exemplificando a situação com o a guerra do Iraque, quando o governo de George W. Bush legitimou a invasão com o argumento de que as armas de destruição em massa representavam uma ameaça, unindo os ataques terroristas ao World Trade Center ao Iraque, como se fosse uma única e mesma coisa.

Segundo o professor, tal solução excepcional apresentada pela mídia tende a não contextualizar ou explicar a informação, e que isso não é exclusividade do caso recente de violência no Rio de Janeiro. Mas, de modo geral, está incluído no discurso do crime feito pela mídia nos últimos 20, 30 anos.  “O que se passa a não mais fazer é articular o acontecimento criminal com características estruturais da sociedade brasileira. A cobertura criminal deixa de explicar por que existe crime na forma de, por exemplo, desigualdade de oportunidades, colocando sua origem na maldade dos bandidos e na incompetência e na corrupção da Policia”, afirma.

O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, atribuiu os ataques às ações de segurança pública que promovem a pacificação nas favelas da cidade, com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). De acordo com o sociólogo Ignácio Cano, Pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a afirmação de que os assaltos seriam uma retaliação de criminosos às UPPs é uma forma de o governador dizer que isso está acontecendo porque estamos ganhando uma batalha maior.  “Sérgio Cabral sempre fez questão de associar a expansão das UPPs a benefícios também para o ‘asfalto’, justamente para que as classes médias não passem a acreditar que tal investimento é contraproducente e não correr o risco de acabar com a sustentabilidade política do projeto”, afirmou o docente, em entrevista à a BBC Brasil.

Segundo Paulo Vaz, a mídia deveria ter explorado uma série de questões de modo a explicar o motivo dos ataques. A respeito do argumento de reação às UPPs, Vaz coloca a possibilidade de os ataques estarem ligados a reivindicações dos traficantes sobre as condições carcerárias e acredita que “não se pode aceitar em primeira mão esse argumento, ou, pelo menos, se deve olhar pra ele com algum ceticismo, porque é claro que o governo tem interesse em dizer que os bandidos estão reagindo a uma iniciativa boa que os está limitando”.

O bem contra o mal

O ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, afirmou em seu blog que “discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, quando, na verdade, não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias”. De acordo com Vaz, uma das características da mídia “é fazer uma cobertura absolutamente moral, no sentido de fazer apelo a imagens morais ao discurso do bem contra o mal, construindo o Estado de modo geral como agente do bem, mesmo que ele possa matar, e construindo os traficantes como pessoas muito malvadas”.

O professor citou a cena, transmitida pela Globo News, em que,  enquanto os bandidos fugiam, um deles caiu com o tiro. “Aquilo me impressionou de imediato porque hoje não existe mais nenhuma situação na qual a televisão mostre morte ao vivo”. Vaz afirma que, do mesmo modo, não se deve mostrar a narrativa quase como se fosse um filme, colocando a audiência como pessoas que torcem pela morte dos bandidos, no sentido da reação aceitável que se possa ter diante de algo que é ficção. “O que a mídia estava fazendo era colocar ali a luta do bem contra o mal, e, nesse caso, o bem pode fazer tudo contra o mal, inclusive fazer as mesmas coisas que o mal faz, como sair matando”, analisa. “Eu não acho que nenhuma mídia responsável no mundo possa ter como principio gerar esse desejo. E a mídia brasileira fez isso”, conclui.