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Encontro de Pesquisas:últimas sessões debatem formação profissional e cultura escolar

Na última terça-feira (31/8), o Encontro de Pesquisas do Departamento de Fundamentos da Educação, da Faculdade de Educação (FE) da UFRJ, teve suas últimas sessões na parte da tarde no Auditório Professor Manoel Maurício de Albuquerque, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFRJ.

Iniciativa do colegiado do Departamento de Fundamentos da Educação da FE-UFRJ, o Encontro de Pesquisas 2010 pretende ser o primeiro de uma série de eventos periódicos de divulgação do estado atual de pesquisas desenvolvidas pelos docentes do Departamento.

Diferenças sociais e formação profissional

 Para compor a mesa coordenada por Ledilson Lopes, professor da FE-UFRJ, estiveram presentes Mariane Campelo Koslinski, Márcio da Costa e Máximo Augusto Campos Masson, pesquisadores do Departamento de Fundamentos da Educação da FE-UFRJ.

Mariane Campelo Koslinski e Márcio da Costa expuseram estudo sobre determinantes sociológicos, raciais e geográficos na educação. Com o objetivo de compreender aspectos da desigualdade social relacionados à estrutura de oportunidades ofertada pelos sistemas públicos de educação e sobre as formas como esta é “apropriada” por diferentes segmentos da população, o estudo é composto por três projetos de pesquisa: "Segregação Residencial, Geografia de Oportunidades Educacionais e Segmentação Escolar"; "O Funcionamento de Quase-Mercados Educacionais e a Segmentação Escolar"; e "Escola e o Efeito-Vizinhança: o impacto da segregação residencial sobre o desempenho escolar de alunos do ensino fundamental".

Os docentes analisaram a distribuição e o contexto social das escolas públicas e privadas no Rio de Janeiro, relacionado-as ao desempenho e ao nível socioeconômico dos alunos. O mecanismo de acesso às matrículas também foi objeto de análise. Segundo Koslinski, nas escolas municipais dotadas de maior prestígio, o mecanismo de acesso é hierarquizado. A docente observou que “o acesso a uma determinada vaga em uma escola pública não é aleatório, mas marcado por características socioeconômicas, de modo a existir uma seleção social de quem nelas ingressa”.

Máximo Augusto Campos Masson apresentou o projeto que, em conjunto com Suzana Barros Corrêa Saraiva, professora da FE-UFRJ, resulta de pesquisas desenvolvidas sobre trajetórias estudantis, formação profissional e inserção no mercado de trabalho em diferentes cursos de graduação. Entre os cursos analisados, Masson destacou os chamados “tradicionais”, como as Engenharias, os “em expansão”, como Educação Física, e finalmente os “em crise”, onde se enquadram as diferentes Licenciaturas. Os principais pontos de análise são a inserção nos cursos, a permanência e evasão e a perspectiva de inserção no mercado de trabalho.

As Licenciaturas, de acordo com o docente, apresentam um aspecto muito particular. “Um percentual muito elevado dos estudantes de Licenciatura não deseja ingressar na área profissional para a qual está sendo orientado, de modo que as perspectivas profissionais dos jovens licenciados colocam o curso ‘em crise’”.

História da Educação e práticas de escolarização

 A Sessão 8 encerrou o evento com a presença dos pesquisadores Miriam Waidenfeld Chaves, Irma Rizzini e José Claudio Sooma Silva, todos do Departamento de Fundamentos da Educação da FE-UFRJ. A coordenação da mesa foi feita por Ledilson Lopes.

Miriam Waidenfeld Chaves, cuja pesquisa diz respeito a cultura escolar dos colégios católicos do Rio de Janeiro durante o período de 1920-1950, analisou que “os colégios católicos fazem parte das condições históricas de produção da escola moderna”. A partir da análise de impressos publicados pelos colégios centenários São Bento, Santo Inácio e São José, a pesquisa tem como objetivo detectar que tipo de valores, comportamentos e atitudes eram ali ensinados, de modo a ampliar a compreensão da escola moderna a partir da cultura escolar e das práticas no interior da escola.

“Entender a posição da Igreja dentro desse campo político escolar religioso, a forma como a cultura e os valores religiosos eram disseminados nesses colégios, e, ainda, buscar uma outra compreensão da própria escola a partir de sua lógica interna, são pontos importantes da pesquisa”, relatou a docente.

Irma Rizzini expôs seu projeto de pesquisa que trata de ações oficiais de educação para o trabalho no Rio de Janeiro. Segundo Rizzini, “o recolhimento de crianças às instituições de reclusão foi o principal instrumento de assistência à infância no país”. A docente destacou a importância de compreender as condições de possibilidade para o surgimento e manutenção de políticas assistenciais e educacionais de caráter excludente.

A pesquisadora analisou os internatos de ensino profissional como instituições que articulam educar, instruir e treinar. “A cultura de internação, calcada em um rígido regime disciplinar de inspiração militar e um regime claustral de base conventual, apresenta, todavia, indícios da existência de nuances e brechas no âmbito dessa cultura”, observou.

Rizzini destacou ainda a importância da pesquisa histórica de modo a preservar a memória escolar na cidade do Rio de Janeiro. “A preservação dessa documentação é importante para resgatar a história de uma infância trabalhadora no país”, concluiu.

Encerrando o evento, José Claudio Sooma Silva apresentou o projeto de pesquisa que estuda estratégias educacionais e representações urbanas nas dimensões da modernidade carioca durante o período de 1920-1930. O docente enfatizou a importância da História da Educação para se pensar a ideia de culturas escolares e conteúdos que se relacionam. “As práticas da educação convertem cada vez mais no sentido de tornar os alunos escolarizados”, observou.

Sooma lembrou a reforma urbana do prefeito Pereira Passos, com o objetivo de modernizar o Rio de Janeiro, no início do século XX. “Tendo acabado com as epidemias e doenças que assolavam a cidade, surgem outras modalidades de perigos urbanos, com o fluxo do tráfego e problemas de ocupação”, observou.

O professor analisou as escolas neste contexto como um projeto civilizatório, “que ensinava os alunos a se portarem como modernos e propagadores desses ideais”. O pesquisador concluiu que “enquanto o Rio de Janeiro buscou construir representações de um ideal de educação primária, as escolas buscaram construir um ideal da vida moderna, contribuindo para a tradição de urbanidade como sinônimo de boa educação”.