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Liberdade e tradição: a história do Carnaval

Em entrevista ao boletim eletrônico Olhar Virtual, Helenise Magalhães, professora de História da Arte da Escola de Belas-Artes (EBA) da UFRJ, fala sobre o início da tradição que se tornou a maior festa popular do país.

Todos os anos é a mesma coisa. Durante três dias, o país para. As ruas e avenidas, habitualmente preenchidas por veículos e pedestres apressados, são tomadas por foliões incansáveis. Assim é o Carnaval brasileiro, considerado um dos eventos mais concorridos do mundo e que movimenta anualmente, segundo dados da Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S.A. (RioTur), mais de R$ 1 bilhão  apenas na cidade do Rio de Janeiro.

O que poucos sabem, entretanto, é que essa festa, considerada hoje pagã, tem origem eminentemente religiosa. O Carnaval brasileiro sofreu forte influência do “entrudo” português, evento no qual a população saía às ruas para comemorar os dias anteriores à Quaresma, período em que os cristãos abrem mão de vários hábitos e prazeres em prol de sua elevação espiritual.

Para conhecer um pouco mais da história existente por trás do “maior espetáculo da terra”, o Olhar Virtual conversou com Helenise Magalhães, professora de História da Arte da Escola de Belas-Artes (EBA) da UFRJ e jurada da categoria “Alegorias e Adereços” do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Em entrevista, Helenise contou sobre os primórdios da comemoração carnavalesca e explicou como surgiram os blocos, cordões e carros alegóricos. A professora destacou que o carnaval é “uma questão cultural importante para o país” e reafirmou o caráter democrático do evento. Confira.

Olhar Virtual: Inicialmente, o carnaval era uma celebração religiosa. Ele, no entanto, sempre foi associado à liberdade. Como se dava essa relação?

Helenise Magalhães: O carnaval acontece, inicialmente, na Idade Média e se constituía em uma festa anterior ao período da Quaresma. Ele simboliza o “adeus às carnes”. Durante três dias, o povo saía às ruas, brincando, dançando e fazendo tudo que podia, justamente por ser um período que antecede a Quaresma, na qual as pessoas aboliam todos os prazeres. Esse é o formato inicial mantido praticamente até hoje.

Olhar Virtual: Ele acontecia de forma homogênea em todas as regiões da Europa?

Helenise Magalhães: Não. Havia diferenças. O Carnaval de Veneza, por exemplo, era mais teatralizado. O Carnaval de Portugal, por sua vez, influenciou diretamente o festejo brasileiro e era marcado pelo entrudo, festa violenta que foi importada pelo Rio de Janeiro. O entrudo português era uma brincadeira em que as pessoas jogavam urina, fezes, ovos umas nas outras. Aos poucos, esse processo ganha civilidade. Com o tempo, a brincadeira passou a acontecer também nos sobrados das elites, mas de forma mais sofisticada. Os itens anteriores são substituídos por limões de cheiro, talco, farinha.

Olhar Virtual: Essa festa é o embrião dos blocos e cordões?

Helenise Magalhães: É no século XIX que surgem os cordões, junto com o “Zé Pereira”, manifestação portuguesa na qual um português sai batendo o bumbo nas ruas. Começa então a existir organização. Em vez de invadir as ruas, as pessoas passam a acompanhar os cortejos. Primeiro, atrás do Zé Pereira, depois dos cordões, dos ranchos, dos grandes clubes. Essas manifestações migram do século XIX para o XX. Os blocos surgem já no século passado, quando a Prefeitura começa a organizar o Carnaval. O órgão queria transformar a festa em algo que beneficiasse o turismo da cidade.

Olhar Virtual: A festa de Carnaval acontecia, prioritariamente, no Centro da cidade do Rio de Janeiro?

Helenise Magalhães: No início, sim. Com a construção da Avenida Rio Branco, chamada Avenida Central, o Carnaval ganha ares de espetáculo de elite, porque passa a se ordenar na rua mais chique da cidade. Começam a surgir os corsos, desfile de carros das famílias mais abastadas, com batalhas de confete, que aconteciam com hora marcada. Isso dura, mais ou menos, uma década. Os carros, entretanto, ganham capotas e a cidade começa a crescer muito. O corso então acaba.

Olhar Virtual: Do corso passamos então aos carros alegóricos?

Helenise Magalhães: Não. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Os corsos eram desfiles da alta sociedade. O carro alegórico surge no Brasil-Colônia, como parte dos festejos realizados para acontecimentos da família real. Nesse período, carros gigantescos que jorravam vinho e tocavam música participavam do cortejo de uma festa ou celebração da família real. Isso é transferido e absorvido pelo Carnaval.

No final da década de 1920, nascem as escolas de samba, resultado de uma fusão dos grandes clubes com os ranchos. A primeira alegoria lançada é da Portela, nos anos 1930, composta por um globo girando, em um enredo sobre o professor.

Inicialmente, a apresentação dessas escolas se dá em um tablado na Praça Onze. Gradativamente, as escolas vão se organizando, graças, em especial, aos investimentos da Prefeitura da Cidade, que estava realmente interessada no turismo gerado com os festejos.

Olhar Virtual: Por que, na sua opinião, o Carnaval brasileiro se destacou dos demais? Que fatores explicam o fato de termos o maior Carnaval do mundo?

Helenise Magalhães: O Carnaval é uma questão cultural importante para o país e, sobretudo, para o Rio de Janeiro. Com a criação das escolas de samba, esse processo caminhou na direção do espetáculo. Criou-se um modelo de Carnaval diferente de qualquer lugar do mundo. Isso se sobressai e chama a atenção da comunidade internacional.

Olhar Virtual: Esse superespetáculo no qual o carnaval se transformou apagou o charme tradicional da festa?

Helenise Magalhães: Não. Deu um novo charme a ela. Nos anos 1920, a festa era mais lírica, eram os anos de formação das escolas de samba. As décadas de 1940 e 1950 se constituem na época da autoafirmação. Como toda manifestação, a tendência é crescer, se apresentar melhor. O superespetáculo foi gerado por uma mudança na estrutura e no perfil do desfile e por uma nova organização das escolas. O charme não acaba, mas se modifica, atraindo, entretanto, o interesse do público. As escolas se transformam para continuar as mesmas. Em essência, elas continuam iguais. Só precisam se atualizar para permanecerem vivas.

Olhar Virtual: A senhora considera o Carnaval, de fato, uma festa democrática? Em que medida essa noção de “democracia” aliena a população?

Helenise Magalhães: A pessoa tem opções de construir seu Carnaval. Ela pode sair numa escola de samba ou participar de uma banda. Nesse sentido, é uma festa democrática sim. O Carnaval é um momento aguardado e que tem a função, mantida desde o período medieval, de promover a alegria.