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A conjuntura econômica segundo os acadêmicos

O pensador marxista David Harvey contestou o atual modelo de desenvolvimento econômico calcado em altos percentuais de crescimento dos PIBs dos países, que, segundo ele, beneficiam apenas o capital especulativo.

De Porto Alegre – O “Seminário Internacional 10 Anos Depois”, realizou na manhã desta terça, dia 26, a mesa de debates “Conjunta Econômica”, que contou com a participação dos acadêmicos Susan George, doutora em política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), autora de diversos livros e dirigente da Associação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (Attac-França); David Harvey, professor da City University of New York; e Paul Singer, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

O evento teve início com a fala do geógrafo britânico David Harvey. O pensador marxista contestou o atual modelo de desenvolvimento econômico calcado em altos percentuais de crescimento dos PIBs dos países, que, segundo ele, beneficiam apenas o capital especulativo. "Desde 1750, a quantidade de bens e serviços explodiu a uma taxa de 2,5% ao ano, em média. E assim se manteve até o século XX. A imprensa financeira, no entanto, diz que o mínimo de crescimento aceitável é de 3%. Mas este crescimento está apresentando problemas para o mundo. Por isso, precisamos encontrar uma alternativa a este modelo de crescimento", pontuou.

Citando Marx, Harvey apresentou os sete pontos fundamentais para a transição pós-capitalista: a natureza, tecnologia, relações sociais, concepções mentais, relações trabalhistas, vida cotidiana e os arranjos políticos. Segundo ele, o fracasso do Comunismo deveu-se à fragmentação desse conceito, pautando a atuação apenas nas relações de produção. "Devemos mudar a nossa vida diária, nossas relações sociais e relações mentais. Uma das nossas grandes dificuldades é pensar na mudança em mais de uma dessas esferas", resumiu.

O acadêmico criticou o papel das universidades ao redor do mundo que, de acordo com ele, perpetuam o atual pensamento hegemônico. “As universidades precisam mudar. Tem que haver um levante dos estudantes contra as bobagens que os professores dizem. Eles apenas reproduzem o modelo vigente. Quando aconteceu a crise, a rainha da Inglaterra quis saber dos acadêmicos de Harvard por que eles não haviam previsto aquilo", contestou.

Susan George

A escritora e intelectual americana Susan George defendeu a estatização dos bancos em todo o mundo, como solução para a desigualdade social. A doutora em política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), escritora e dirigente da Associação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (Attac-França) conclamou a platéia a bradar em alto e bom som: “The banks are ours” (“Os bancos são nossos”). “Talvez não aqui, mas nos Estados Unidos e na Europa, já temos essa consciência. Devemos obrigar as instituições financeiras a fazer empréstimos para a ecologia, educação, projetos sociais. A política e a economia devem servir à sociedade, e não o contrário”, comentou.

A docente condenou ainda as políticas de controle de natalidade em países pobres, pois, segundo ela, a questão que deve ser discutida não é a falta de dinheiro, mas a especulação financeira, principal responsável pela brutal desigualdade social em todo o mundo. “O problema não é econômico, mas sim, político. Cerca de 8,5 milhões de pessoas detém US$ 38 trilhões. Ou seja, dinheiro que poderia ser investido, mas está na mão do sistema financeiro especulativo. É por isso que temos que acabar com os paraísos fiscais”, defendeu.

A problemática ambiental foi outro assunto comentado pela intelectual estadunidense. “O meio ambiente é onde o sistema capitalista obtém sua matéria prima. No entanto, a área ambiental é deixada de lado pelo sistema capitalista. A nossa tarefa é inverter a ordem desse modelo: em primeiro, a ecologia; em segundo, a sociedade; e, em terceiro, a economia”, propôs.

Paul Singer

Finalmente para Paul Singer, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a essência do debate ideológico ainda é a luta de classes. Segundo ele, é fundamental pensar em curto prazo. “Estamos em uma situação de crise internacional que não vai acabar. No Brasil, a economia voltará a crescer 5, 6% ao ano. Mas, em curto prazo, temos que reduzir o desemprego, fortalecer os sindicatos e os movimentos sociais. O mundo hoje vive de ideologias keynesianas que tinham sido enterradas. Países como a Índia e a China conseguiram crescer, apesar da crise. Mas o desemprego chegou ao auge e não caiu ainda”, expôs.

Nascido na Áustria e radicado no Brasil na década de 1940, o acadêmico não abandona os fundamentos da luta de classes, segundo a qual, há exploradores e explorados. “Se, de um lado, estão as empresas que dão as cartas na economia mundial, do outro lado, estão as classes trabalhadoras. Os países menos industrializados representam a maioria, os quilombolas, os pescadores. E eles podem representar também uma maioria política”, afirmou.

Por fim, Singer professou sua fé nas classes trabalhadores. “Os camponeses são a vanguarda da resistência ao neoliberalismo, porque fazem uma agricultura ecológica. Não somos nós, os intelectuais, cientistas, políticos que vamos mudar as coisas. A transformação deve vir através dos trabalhadores. E eu acredito na racionalidade das classes trabalhadoras. Se levarmos adiante essa fé, acredito que teremos grandes chances de ganhar essa luta”, vaticinou.