Categorias
Memória

Deslizamentos: fenômeno natural ou falta de planejamento urbano?

Para Maria Gertrudes Alvarez, meteorologista do Instituto de Geociências (Igeo) da UFRJ, o aquecimento global acentua a intensidade das chuvas. Mas a natureza não é a única responsável pelos deslizamentos que mataram mais de 50 pessoas em Angra dos Reis.

O ano de 2010 começou com tristeza para centenas de famílias em Angra dos Reis. As chuvas que assolaram a cidade logo na primeira madrugada do ano deixaram 52 mortos, segundo números oficiais, além de milhares de desabrigados. Mas a região não foi a única afetada pelas fortes tempestades: a Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, e alguns municípios da zona rural de São Paulo ainda enfrentam problemas desencadeados pelas enchentes dos últimos dias.

Os desastres ocorridos no início deste ano são fruto da combinação do aguçamento dos fenômenos naturais com a falta de planejamento urbano. Essa é a opinião de Maria Gertrudes Alvarez, meteorologista do Instituto de Geociências (Igeo) da UFRJ. A pesquisadora afirma que chuvas intensas são episódios comuns durante esse período do ano na região Sudeste. O aumento do índice pluviométrico acontece em função da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), fenômeno formado, entre outros fatores, pelo ar úmido vindo da região Amazônica.

Maria Gertrudes pontua, entretanto, que o aquecimento global acaba por acentuar a intensidade das chuvas de verão. “O aquecimento global certamente influencia. A resposta da atmosfera ao aquecimento da Terra é provocar a intensificação dos fenômenos naturais. Se está mais quente, haverá mais eventos meteorológicos. Em locais como a região Sudeste, a tendência é a maior ocorrência de chuvas”, ressalta.

Para a professora, a natureza não pode ser a única responsabilizada pelas tragédias em Angra e demais cidades do Sudeste. Maria Gertrudes acredita que a falta de planejamento urbano e de compromisso por parte das autoridades governamentais com o futuro contribui para desfechos como os verificados nessas áreas. “O maior problema é a falta de planejamento em longo prazo. Nossos governantes só querem saber do almoço; o jantar fica para ser decidido à tarde”, finaliza.