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Júlio Cezar Ribeiro de Souza: controverso balonista

Júlio Cezar Ribeiro de Souza, nos idos de 1880, teria criado o primeiro sistema de navegação para balões.
 “A noite tem a propriedade de confundir as sombras com as realidades, seja ela a que resulta da ocultação do sol ou a que provém da ocultação da verdade; mas sei que a verdade, como o sol, acaba sempre, no momento providencial, por distinguir as realidades das sombras.” Essas palavras pertencem a Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Nos idos de 1880, o paraense teria criado o primeiro sistema de navegação para balões. A partir da observação do voo dos pássaros, o cientista previu uma forma chamada “fusiforme dissimétrica”, com proa volumosa e popa afilada, para dar direção aos aeróstatos (designação dada a aeronaves mais leves que o ar, como os balões). E, de fato, assim desenhados, os zepelins dariam a volta ao mundo no século XX. Contudo, a glória pelo invento nunca aconteceu e até mesmo o seu pioneirismo é tema controverso no meio científico.

Para Rundsthen Vasques de Nader, coordenador de Extensão do Observatório do Valongo (OV) da UFRJ, o brasileiro não teve a obra copiada. “Era um autodidata que concluiu que o melhor formato deveria ser o assimétrico com o centro de empuxo à frente, mas isso já era aventado por inventores franceses. Em 1884, na França, Charles Renard e Arthur C. Krebs decolaram o balão La France, que retornou ao ponto de partida após percorrer 7.600 metros em uma média de 20 km/h, fato amplamente divulgado pela imprensa”, explica o astrônomo, pontuando que essa notícia somente chegou ao Brasil um mês depois.

“Ao tomar conhecimento do acontecido, Júlio Cezar imediatamente supôs haver sido plagiado, pois não admitia que a dirigibilidade dos balões pudesse ser alcançada por um sistema diferente do seu. Por acreditar ter a prioridade dos balões fusiformes, convenceu-se de que fora vítima de plágio. Porém não possuía qualquer direito sobre esta forma. Além disso, o La France tinha muitas diferenças em relação ao seu balão, o Santa Maria de Belém”, informa Rundsthen, destacando ainda que o balão com que Santos Dumont realizou uma volta em torno da Torre Eiffel, em 1901, era um dirigível simétrico: “Portanto, a assimetria não era fundamental para assegurar a direção, como considerava Júlio Cezar, que morreu de beribéri (doença provocada por deficiência de tiamina – a vitamina B1) e na mais completa miséria.”

Filho de família pobre do interior paraense, Vila de São José do Acará, o personagem participou da Guerra do Paraguai (1866 e 1869) quando houve o primeiro uso militar de balões de observação na América do Sul, conquistando o prestígio necessário à indicação de cargos públicos, como o de encarregado da Biblioteca Pública do Pará. Ele acabou por abandonar a função para se ocupar dos estudos sobre a navegação aérea, passando a sobreviver do trabalho de jornalista e de professor. “Não tinha recursos suficientes para bancar viagens, nem a construção de balões, realizada graças a colaborações de amigos e simpatizantes de sua causa, além de subsídios do governo. O próprio imperador D. Pedro II pagou a primeira viagem de Júlio Cezar à França”, explica Luís Carlos Bassalo Crispino, físico e professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Voava ou não voava?
Organizador do livro Júlio Cezar Ribeiro de Souza – memórias sobre a navegação aérea (Editora UFPA, 2003), Bassalo Crispino acredita que, além da delicada questão internacional do plágio, é possível que a falta do reconhecimento às contribuições de Júlio Cezar se devesse à escassez de documentos e à ausência de iconografia capazes de comprovar as pioneiras realizações. “Nos últimos anos, estes registros têm sido localizados no Brasil e no exterior. Hoje, o que já está reunido leva a apontá-lo como o inventor do dirigível”, frisa o professor, enfatizando que vários autores sobre História da Aeronáutica e da Tecnologia já mencionam Júlio Cezar como um dos principais precursores da conquista aérea, assim como Bartolomeu de Gusmão, que alcançou os céus com um balão de ar quente pela primeira vez em 1710.

De acordo com Henrique Lins, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), trata-se de um caso controverso. “Ele ‘inventou’ um meio de atingir a dirigibilidade de balões que nunca funcionaria”, dispara o físico, explicando que a tendência do balão de Júlio seria subir numa diagonal até encontrar uma posição de equilíbrio na vertical. “Ele não conseguiria descer. Neste sentido, é uma das invenções que surgiram nos primórdios da Aeronáutica e sem base científica. O mérito dele é estar pensando no voo dirigido naquele tempo, e nos confins do Pará. Ele, por sua vez, se sentia traído pelos franceses e pelo destino, transformando-se numa pessoa magoada, pois embora certo de ter chegado a uma solução para a dirigibilidade, seus modelos não voavam”, avalia o pesquisador.

Fiat Lux
Júlio Cezar chegou a queixar-se, alegando que somente teve “migalhas no país dos grandes esbanjamentos, lugar onde a ciência está completamente mistificada”. Para angariar recursos, percorreu os governos, proferiu conferências e até expôs um de seus balões dentro da Catedral de Belém. Mesmo após a notícia do êxito francês, continuou a lutar para provar a autenticidade de seu trabalho, dedicando-se a escrever na língua de Baudelaire o livro Fiat Lux para explicar a sua teoria. Na impossibilidade de lançá-lo no país a que acusava de plágio, iniciou uma tradução da obra, lançando-a em capítulos, na imprensa paraense. Não concluiria a empreitada, devido à morte, em 1887, antes mesmo de fazer as experiências definitivas
do seu invento.