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O processo criativo na obra de Darwin

Para especialista em darwinismo, assim como o artista possui um processo criativo para concluir a sua obra, a Teoria da Evolução foi constituída como um processo, não surgindo de repente na mente do cientista.

 O programa Itaú Cultural, em parceria com a UFRJ, promoveu no dia 16 de abril a palestra “A obra de Darwin como exemplo de processo criativo” com Nélio Bizzo, biólogo e professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). O palestrante contextualizou o período de criação da Teoria da Evolução e traçou um paralelo entre arte e ciência. Nélio defendeu que Darwin só foi capaz de concluir sua teoria após se afastar dos cânones teológicos que permeavam a arte e a ciência de sua época.

Segundo o especialista em darwinismo, assim como o artista possui um processo criativo para concluir a sua obra, a Teoria da Evolução foi constituída como um processo, não surgindo de repente na mente do cientista. No início de sua pesquisa, Darwin ainda estaria ligado à concepção, vigente no campo artístico e religioso da época, de que os seres vivos seriam perfeitos. Nélio contou que durante o século XIX vigorava a crença de que a natureza era a perfeita manifestação do divino e que “esta ideia atrapalhou o desenvolvimento da teoria científica de Darwin”.

Antes da publicação de A Origem das Espécies em 1859, Darwin já havia notado alguns princípios que norteiam seus estudos, como a herança de características anatômicas entre parentes e a tendência a certas mudanças entre gerações. Porém, a base de seu pensamento ainda não tinha aparecido e sua lógica ainda estava ligada à ideia da perfeição dos seres vivos. Em 1842, ele escreve pela primeira vez o termo “seleção natural”, quando observa que as barreiras geológicas, como cadeias de montanhas, costumam separar espécies muito parecidas. Ele deduz que um dia essas espécies teriam sido uma só. “Neste momento Darwin desenvolve o raciocínio de que as espécies estão perfeitamente adaptadas ao meio e que apenas mudanças neste ambiente afetam os seres vivos”, disse Nélio.

Somente em 1856, Darwin percebe que as espécies não estão totalmente adaptadas ao ambiente e que é justamente a imperfeição dos seres que permite a grande variabilidade de espécies. Está pronta então a sua famosa teoria segundo a qual as características favoráveis de um ser vivo mais forte e adaptado são passadas hereditariamente a seus descendentes conforme as mudanças no meio. “Darwin deixa de compartilhar da ideia de perfeição e vê que basta que o ser seja um pouco mais eficiente que os outros para que sua geração se desenvolva em uma nova espécie mais adaptada às mudanças do meio”.

Nélio defende que, embora Darwin tenha sido muito criticado por adotar um pensamento diferente do que vigorava entre os demais cientistas, a Teoria da Evolução só foi possível devido à influência de seu tempo. “Sua nova postura diante da ciência está impregnada da visão dominante em sua época de que o que vale é competição. O ethos competitivo da sociedade capitalista foi sua grande inspiração”, afirmou o especialista.

— A Teoria da Evolução não foi um insight genial, mas um processo bastante longo. Darwin só mudou de paradigma no período muito próximo à publicação de A Origem das Espécies — concluiu Nélio.