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Debate acalorado no CFCH

Foi acalorada a apresentação das propostas do Plano Diretor UFRJ 2020 durante a 10ª Reunião Extraordinária do Conselho de Centro do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH).

Foi acalorada a apresentação das propostas do Plano Diretor UFRJ 2020 durante a 10ª Reunião Extraordinária do Conselho de Centro do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH). Mediada pelo decano Marcelo Macedo Corrêa Castro, o encontro teve como convidados os professores Pablo Benetti, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Fau), e Carlos Vainer, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, ambos integrantes do Comitê Técnico do Plano Diretor UFRJ 2020. Como habitualmente acontece nas apresentações, Benetti exibiu a projeção dos conceitos que norteiam os trabalhos do comitê. "É um plano que expressa uma concepção; mas a universidade é um organismo vivo e que se reorganiza permanentemente", adiantou Vainer, antes da exibição.

Após a apresentação, o professor Flávio Antônio dos Santos, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), trouxe à tona a discussão sobre a localização das chamadas "unidades isoladas", no projeto que visa à integração das unidades acadêmicas dentro do espaço geográfico da Cidade Universitária. "Minha preocupação é perdermos outros prédios – como o que hoje se localiza o IFCS, que é tombado – a exemplo do que já aconteceu com o terreno do Canecão e do antigo Bingo", lembrou. Em resposta, Carlos Vainer citou as precárias condições das instalações do prédio e ainda recordou a história do Instituto. "É um prédio caindo aos pedaços. O IFCS está lá por obra e graça da ditadura militar. Ela fatiou a Faculdade Nacional de Filosofia para quebrar um foco de resistência política. Aquele prédio é um castigo para a universidade!", afirmou. Santos não fugiu à polêmica. "Devo lembrar que a proposta do Fundão também foi concebida no Estado Novo", disse.

Transferência é o ponto de maior polêmica

Amaury Fernandes, professor da Escola de Comunicação (ECO), também se manifestou contrário à proposta de transferência para a Cidade Universitária. "Fui aluno de Graduação na Cidade Universitária e vejo que o acesso à ilha desde 1982 só piorou. Hoje não há transporte eficiente para aquela região. Cerca de 80% dos alunos da ECO fazem estágio no Centro ou na Zona Sul. A proposta que eu vi foi a criação de um ramal da Supervia, que não atende aquela região. Como eles vão fazer para fazer este itinerário sem uma perda grande de tempo?", indagou. "Esta é uma idéia que é passada para eles (os alunos). Além do ramal para a Zona Norte, já há um projeto avançado para a construção de um trem de levitação sobre trilhos ligando os dois aeroportos, além de linhas de transporte hidroviário até Niterói. É mais rápido ir, por exemplo, de Nova Iguaçu à Cidade Universitária do que à Praia Vermelha. E se o problema for o campo de trabalho, há um excelente local para pesquisa em Comunicação ali ao lado, que é a Maré", contrapôs Vainer.

Fernandes questionou ainda onde ficariam as instalações da ECO numa eventual transferência para a Cidade Universitária. "Nós temos vários espaços de uso específico que não estão sendo contemplados. Onde seriam instaladas, por exemplo, as nossas ilhas de edição?", questionou. Neste momento, Benetti lembrou o questionário enviado às unidades para que as demandas de expansão das respectivas unidades fossem relacionadas. "Enviamos esta pesquisa para sabermos a expectativa de crescimento de cada unidade. Nunca em minha vida profissional eu fiz um projeto sem ouvir as pessoas envolvidas. O que apresentamos aqui foi um conceito do que pretendemos das áreas de uso comum e nada do que está aqui será feito sem a concordância de todos. A discussão se vai ou não vai é secundária. O importante é pensar no conceito de sinergia na universidade", apontou o arquiteto.

Sobre as respostas à referida pesquisa, o decano Marcelo Corrêa e Castro, questionou os números enviados pelas unidades do CFCH sobre as estimativas de crescimento para os próximos anos. "Acho que essas informações devem ser checadas. Este questionário foi respondido com pressa e falta de conhecimento do que acontecerá nos próximos anos", afirmou.

Já a professora Márcia Serra Ferreira, da Faculdade de Educação, defendeu a ida de sua unidade para Cidade Universitária. "Nós já estamos no Fundão e muito mal alojados. Temos turmas funcionando em várias unidades em salas emprestadas. Queremos permanecer na Cidade Universitária, mas em melhores condições", reivindicou. Benetti defendeu a idéia. "Concordo que a Faculdade de Educação deva ter instalações específicas. Nosso projeto prevê não apenas isso, como a criação de um espaço conjunto que agregue ainda o Colégio de Aplicação e uma Escola de Educação Infantil", explicou.

Sobre a proposta de se cobrar uma taxa de parte dos moradores das residências universitárias – previstas na proposta e destinadas a alunos, professores e técnicos-administrativos – como forma de subsidiar a gratuidade para as moradias restantes, chamadas de moradias sociais, a professora Maria Magdala, diretora da Escola de Serviço Social, posicionou-se contra. "Eu acho que as moradias não deveriam ser pagas, já que isto pode ferir um direito garantido constitucionalmente que é o acesso universal ao ensino público", afirmou. Vainer replicou. "Estamos pensando em uma política residencial para a universidade. Os estudantes não só podem como devem morar na universidade. O que questionamos é se devemos ou não ter outro tipo de moradias além das sociais. Eu defendo que sim, pois este percentual de residências pagas ajudará a manter as demais".

"Quem vai decidir é o Consuni"

Corrêa e Castro pediu a palavra para sugerir maior abertura na discussão. "A concepção está sendo feita no sentido do ‘ou é assim ou não é’. É complicado conversar desta forma. Não é um consenso dizer que a permanência de todas as unidades do CFCH e do CCJE na Praia Vermelha é algo retrógrado", analisou. "Podemos escolher fazer da Praia Vermelha um ‘bunker’ da área de Humanidades", interrompeu Vainer. "Mas acho uma estratégia suicida. Eu, que me incluo entre os humanistas, penso que nós vivemos um isolamento em relação a outras áreas da universidade. Uma recusa nossa de entrar na Cidade Universitária pode significar abrir mão de condições de primeiro mundo. Temos que pensar a área de Humanidades e a universidade. Se não a universidade vai estar fadada ao fracasso. Mas quem vai decidir isso não sou eu nem você, e sim, o Consuni", concluiu.

"Não existe projeto que não tenha discussão"

Ao final do debate, Pablo Benetti minimizou o ambiente de tensão. "Já esperava um debate acalorado. Tudo isso são contribuições. Temos que estar preparados para ouvir. O importante é pensar na universidade. São idéias preliminares e não uma proposta fechada. Não existe projeto que não tenha discussão", ponderou. Demonstrando insatisfação, Amaury Fernandes manteve as críticas. "Não creio que se modifique a cultura rodoviarista da comunidade universitária. Acho que o acesso por carro deveria ser contemplado", frisou.

Já o decano adotou postura mais comedida, mas não deixou de criticar o que considerou um debate apressado. "O surgimento do Reuni abriu um horizonte de mudança de rumo. É muito bom vislumbrar novas possibilidades de expansão, mas isso nos fez responder questões que não temos condições de refletir sobre neste momento em um horizonte tão amplo", disse Corrêa Castro.

O decano negou ainda uma posição predominantemente contrária à transferência das atividades acadêmicas do CFCH para a Cidade Universitária, mas ressaltou a importância de uma deliberação mais ampla. "Em nenhum dos documentos publicados pelo CFCH sobre essa discussão nós nos posicionamos contrários à transferência para a Cidade Universitária. Mas nós queremos saber quais serão as condições para isso. Queremos que todos se expressem e que o debate passe por todas as instâncias da universidade", concluiu.