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Hospital do Fundão volta a respirar

Nessa semana, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho começou a se reerguer, depois da grave crise pela qual passou. A paralisação das atividades de alta complexidade, como transplantes de fígados e outros órgãos, marcou o período difícil pelo qual passaram professores, estudantes e, principalmente, pacientes.

  Veja o vídeo da WebTV com o pronunciamento do diretor do HUCFF

Nessa semana, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho começou a se reerguer, depois da grave crise pela qual passou. A paralisação das atividades de alta complexidade, como transplantes de fígados e outros órgãos, marcou o período crítico pelo qual passaram professores, estudantes e, principalmente, pacientes. Alexandre Pinto Cardoso, diretor do HUCFF, explica os problemas que levaram a administração a interromper o serviço. Para ele, nesse momento, é necessário retomar gradualmente a plena forma da unidade.

O diretor informa que o objetivo é retornar com as condições anteriores à interrupção. O HUCFF já realizou, na semana passada, um transplante de medula, e, segundo o professor, já está em condições de fazer os outros transplantes de órgãos sólidos, como fígado e rim. De acordo com Alexandre Cardoso, as condições técnicas foram restabelecidas, a infra-estrutura está garantida e a equipe de transplante hepático – a última que precisava ser formada – já foi indicada desde o último dia 4.

As causas da crise

As atividades complexas foram interrompidas no dia 9 de maio desse ano, depois do último procedimento ser realizado, no dia 5 do mesmo mês. De acordo com o professor, a falta de recursos foi o principal fator do problema vivido no Fundão. “Isso ocorreu porque realizar um procedimento desta complexidade requer, não só esforços da equipe técnica, mas também um grande suporte de infra-estrutura, com insumos que são de preço elevado”, explica o diretor da unidade. “São necessárias condições ligadas principalmente à dosagem de fármacos de maneira praticamente contínua e aquisição de uma série de equipamentos de alta sofisticação”, continua Alexandre Cardoso.

Segundo o diretor, a interrupção foi, acima de tudo, uma medida de segurança. “Quando um procedimento desse tipo é autorizado, não é possível que, no meio do processo, precisemos de um insumo e este não esteja disponível. Isso pode significar a morte do paciente. Como nós não tínhamos essa segurança, decidimos interromper os procedimentos que dizem respeito ao transplante”, justifica.

Entretanto, o fato é que esses insumos são caros. O gasto com um medicamento para pacientes com leucemia, por exemplo, é de R$ 61 por comprimido. Contudo, de acordo com Cardoso, esse preço não pode ser repassado por completo ao orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS). “Para esse fármaco, o SUS colabora com R$ 41, o que significa que o Hospital tem um gasto de R$ 20, em cada comprimido. Isso resulta em 200 mil reais por mês, para atendermos aos nossos pacientes”, contabiliza o diretor. “Essa conjuntura conspira contra a conta saudável do Hospital. Isso, progressivamente foi levando a um consumo do estoque e nós trabalhávamos com uma margem cada vez menor de segurança”, conta.

Mas não é só o gasto com insumos que desequilibra as finanças do HUCFF. O gasto com pessoal também foi um fator determinante na conjuntura da crise. “O Hospital é uma coisa viva, que cresce cada vez mais. Para garantirmos esse padrão, precisamos de gente. Para podermos ter essas pessoas trabalhando aqui, gastamos R$ 1,3 milhão por mês. Esse dinheiro vem dos mesmos recursos que pagam os insumos. Logo, as contas vão ficando progressivamente desequilibradas”, expõe Alexandre.

O começo da solução

Para reabastecer os estoques de fármacos e garantir o pagamento dos funcionários, uma participação mais efetiva do governo foi necessária. Alexandre Cardoso informa que o Ministério da Educação (MEC) reconheceu essa necessidade e fechou um acordo com o Hospital. “Os recursos são da ordem de R$ 7 milhões até o final do ano, ao que corresponde parte do pagamento do pessoal. Embora o montante financeiro não tenha chegado ainda, só o compromisso já melhorou nossa situação”, avalia o diretor.

Além disso, um acordo com o Governo do Estado viabilizará um fornecimento de insumos e equipamentos, o que já representa um alívio nas contas do Hospital, no que diz respeito a máquinas e fármacos. Quanto ao Município, Alexandre afirma que a negociação foi boa, contudo essa instância não tinha mais recursos disponíveis para serem repassados ao HUCFF.

De acordo com o diretor, uma presença mais efetiva do MEC seria muito importante para evitar os recorrentes problemas com o Clementino Fraga Filho e outros hospitais universitários, que passam por transtornos semelhantes. A dívida acumulada pelo HUCFF, por exemplo, é da ordem de R$ 10 milhões. “Seria muito interessante que o MEC se interessasse por esta dívida. Não somente a nossa dívida, mas a que os Hospitais Universitários de um modo geral têm, das mais variadas formas”, sugere Cardoso.

Enquanto essa e outras fontes de apoio não se consolidam, o Hospital do Fundão retorna aos poucos, para enfrentar a longa fila de 622 pacientes. Por enquanto, a unidade funciona com 270 leitos. O plano é voltar progressivamente à capacidade original, de 400. “Acho que vamos sair dessa crise melhor do que entramos. Já saímos da parte mais crítica e é sempre muito difícil para a gente interromper as atividades, pelas conseqüências acadêmicas e para os pacientes, mas estamos nos adaptando e retornando aos poucos”, finaliza o diretor.