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Colégio Brasileiro de Cirurgiões presta solidariedade ao HU

O Colégio Brasileiro de Cirurgiões, por intermédio de seu presidente Edmundo Machado Ferraz, manifestou apoio ao Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF).

O Colégio Brasileiro de Cirurgiões, por intermédio de seu presidente Edmundo Machado Ferraz, manifestou apoio ao Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), em carta ao chefe do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital, Ricardo Antonio Refinetti. No documento, Ferraz destaca que o difícil momento que o HUCFF vivencia é conseqüência da degeneração que acomete o sistema público de saúde no Brasil. Ferraz acredita que os médicos devam agir em conjunto para resgatar a força política que possuíam, no passado.

Na visão de Ferraz, os professores universitários devem lutar, unidos, para que os hospitais universitários sejam dotados de orçamentos anuais e que os pagamentos do Sistema Único de Saúde tenham reais valores de mercados.

Veja a carta na íntegra:

Recife, 12 de junho de 2008

Ilmo Prof.
Dr. Ricardo Antonio Refinetti
Chefe do Serviço de Cirurgia Geral HUCFF/UFRJ

Meu Caro Refinetti,

Foi com muita tristeza que tomei conhecimento das dificuldades que o seu Hospital atravessa, praticamente inviabilizando o funcionamento dos diferentes serviços voltados para o atendimento da alta complexidade no Rio de Janeiro e que penaliza particularmente o Serviço que você chefia, único que tem reconhecido pelo MEC o Programa Avançado de Residência Médica em Cirurgia Geral, pelo qual tanto lutamos no Colégio Brasileiro de Cirurgiões para ver implantado esse modelo de treinamento para jovens cirurgiões brasileiros.

Na realidade, o que é mais preocupante é que esse não é um cenário isolado de seu Hospital.

É uma doença degenerativa que acomete os hospitais públicos brasileiros, particularmente os Hospitais de Ensino que mais se dedicam ao atendimento da alta complexidade em nosso país.

Fomos capazes de conceber um Sistema Único de Saúde que atende 145 milhões de brasileiros e não soubemos dotá-lo de recursos suficientes para atender as suas características de universalidade e de integral idade.

De modo perverso os Hospitais e serviços que atendem a alta complexidade são os mais atingidos por gastarem mais no atendimento e terem um ressarcimento muito aquém do custo real de tratamento efetuado.

O Brasil gasta cerca de 7% de seu PIB em saúde, porém apenas 3,5% correspondem a investimento público, o que significa menos de 300 dólares por habitante, o que é ainda irrisório frente às necessidades de nossa população.

A Organização Mundial de Saúde há muito considera que o gasto mínimo em saúde deveria ser de 500 dólares por habitante, muito abaixo do gasto da União Européia (3.500 dólares/hab.) ou dos Estados Unidos (7.000 dólares/hab.). Pior ainda, investimos menos em saúde do que o Chile, Argentina, Colômbia e a maioria dos países latino-americanos.

Tanto isso é verdade que esse ano uma recente pesquisa de opinião pública revelou que a população considera, como principal problema de nosso país, a saúde que suplantou a violência.

Se o governo não cumpre a sua parte por não ser devidamente pressionado pela sociedade, sinto também que nós médicos perdemos nossa identidade quando fragmentamos nossas Sociedades e passamos a agir isoladamente, dispersos, desarticulados e sem doutrina, preocupados com nossos umbigos, perdendo uma grande força política que já possuímos no passado.

Por outro lado, as exigências aumentaram muito no século XXI. A pressão da sociedade por melhores condições de atendimento choca-se constantemente com a incapacidade dos profissionais de saúde de cumprirem adequadamente suas obrigações, particularmente em situações de urgência ou nas necessidades de emprego de alta tecnologia.

O trabalho médico mal remunerado, condições precárias de atendimento e de exercício profissional, médicos despreparados para atenderem a atenção básica à saúde e com treinamento voltado para a formação de especialista, uma avalanche de crescente de Escolas Médicas que privilegiam o lucro, sem hospitais-escolas, dissociando os alunos dos pacientes com rótulos de medicina baseada em problemas e outros enganos pedagógicos que as avaliações periódicas do MEC tem diagnosticado com tanta precisão.

Enfim, Refinetti, esse é o cenário que estamos vivendo.

E o que podemos fazer?

Como Presidente do CBC, considero muito claro que precisamos resgatar nosso papel aglutinador de diferentes especialidades cirúrgicas convertendo nossa Entidade em uma grande Federação de Sociedades Cirúrgicas. Recuperando nossa unidade e estruturando nossas demandas e reivindicações.

Unidos, aglutinados, restaurando nossa dignidade e nosso poder político.

Como Professores Universitários precisamos lutar para que nossos Hospitais sejam dotados de orçamentos anuais, que os pagamentos oriundos do SUS tenham valores reais de mercado e possam adquirir e acompanhar o desenvolvimento da alta tecnologia.

Contudo, só conseguiremos isso unidos e com muita luta.

Não vamos por tanto desanimar.

Vamos reivindicar juntos. A UFRJ, os Hospitais de Clínicas, os Professores de Medicina, os alunos e também os pacientes e suas famílias que precisam ser atendidos e educados.

Vamos contactar a Associação Médica Brasileira.

Conte com o Colégio Brasileiro de Cirurgiões para essa tarefa.

Peço que dê conhecimento desse apoio ao Prof. Aloísio Teixeira, Magnífico Reitor da UFRJ, ao Prof. Alexandre Pinto Cardoso, Diretor do HUCFF e aos nossos colegas Professores e alunos do seu Hospital.

Acredito ser necessário comunicar todos esses fatos a Dra Márcia Rosa Araújo, a destemida Presidente do CREMERJ, e ao Dr. José Luiz Gomes do Amaral, Presidente da Associação Médica Brasileira.

Essa é uma luta de todos nós.

Vamos enfrentar juntos esse desafio.

Conte com o nosso apoio e solidariedade.

Atenciosamente,

Edmundo Machado Ferraz , TCBC
Presidente do Colégio Brasileiro de Cirurgiões