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Centro Acadêmico de Medicina divulga nota de esclarecimento sobre o protesto do dia 30

O Centro Acadêmico Carlos Chagas divulgou uma nota de esclarecimento sobre a manifestação do dia 30 de maio, realizada em prol de melhorias nas condições dos hospitais universitários e repreendida ofensivamente por policiais do Batalhão de Choque.

O Centro Acadêmico Carlos Chagas (CACC), entidade representativa dos alunos de Medicina da UFRJ, divulgou uma nota de esclarecimento sobre a manifestação do dia 30 de maio. No protesto, realizado em prol de melhorias nas condições de conservação dos hospitais universitários, estudantes interditaram a Linha Vermelha e foram dispersos por policiais do Batalhão de Choque com bombas de gás e spray de pimenta.

O Centro Acadêmico repudia a ação ríspida dos policiais, comandados pelo Tenente-Coronel Carlos Eduardo Milagres, que colocou em risco a vida de muitos manifestantes. A nota explica também que, por conta das bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia, “estudantes, profissionais, pacientes (pessoas idosas e deficientes físicos inclusive) tiveram que deixar o local, alguns feridos, com queimaduras, e muitos outros passando mal”. Segundo o CACC, foi a atitude agressiva dos policiais que levou os manifestantes a ocuparem todas as faixas da Linha Vermelha.

Confira abaixo a nota na íntegra.

Esclarecimento à sociedade sobre o protesto do dia 30/05 (sexta-feira)

Nós, do Centro Acadêmico Carlos Chagas (CACC), entidade representante dos alunos de medicina da UFRJ e co-organizadora da manifestação do dia 30/05, na linha vermelha, gostaríamos de esclarecer alguns fatos sobre o incidente com o Batalhão de Choque da Policia Militar (BCPM) durante o protesto.

Antes da passeata na sexta-feira (30/05), procuramos o comando dos policiais militares do 17º BPM que acompanhavam o ato em frente ao hospital, para explicar os motivos do protesto, que aproveitamos para ampliar para toda a sociedade. Os Hospitais Universitários, em decorrência da grave crise financeira que estão sofrendo, não tem mais condições de atender a seus pacientes adequadamente, o que poderá comprometer todo o sistema de saúde do Rio de Janeiro. O Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (da UFRJ), por exemplo, é o ÚNICO hospital no estado a fazer certos procedimentos de alta complexidade e o seu fechamento prejudicaria toda a nossa população, dos mais ricos aos mais pobres, com plano de saúde ou não, que precisarão ir a outros estados para conseguir tratamento. Além disto, centenas de acadêmicos e residentes estão com o treinamento incompleto, o que pode resultar em profissionais menos capacitados para o futuro.
    
O capitão entendeu e concordou com os nossos motivos, foi aberto ao diálogo e fez um acordo conosco para que ocupássemos a Av. Brigadeiro Trompowski e, no máximo, 2 faixas da Linha Vermelha (metade) por poucos minutos, respeitando, assim, o direito constitucional dos motoristas de ir e vir e dando a visibilidade que julgamos necessária ao nosso protesto. A CET-Rio também estava informada e já estava organizando o trânsito para evitar maiores transtornos.

Com poucos minutos de ocupação, contudo, enquanto ainda organizávamos um cordão de segurança para nos mantermos nas 2 faixas da via expressa, o Batalhão de Choque da Policia Militar, comandado pelo Tenente-Coronel Carlos Eduardo Milagres que, ao contrário do que declarou, estava no local desde o início, lançou bombas de gás lacrimogêneo de forma covarde, por trás, contra os manifestantes. Muitos estudantes, profissionais, pacientes (pessoas idosas e deficientes físicos inclusive) tiveram que deixar o local, alguns feridos, com queimaduras, e muitos outros passando mal. Esta ação nos pegou desprevenidos, assim como aos próprios PMs do 17º BPM, desencadeando forte revolta em todos nós, tratados como criminosos, e ocasionando o fechamento de todas as faixas da linha vermelha, que não era nossa intenção desde o início.

É importante destacar que apenas interrompemos totalmente o trânsito para nossa segurança, já que, com a ofensiva do Batalhão de Choque, houve dispersão dos manifestantes, com sério risco de atropelamentos. Depois de muita discussão, ânimos exaltados de ambos os lados e claras ameaças feitas pelo Tenente-Coronel (que andava sempre portando uma granada de gás lacrimogêneo nas mãos), decidimos que deveríamos sair da via expressa para preservar a todos nós do risco de novos confrontos, o que deixaria as nossas reivindicações por melhorias dos hospitais universitários em segundo plano.

Nós enfatizamos que a agressão não partiu da instituição Policia Militar, mas do comandante do seu Batalhão de Choque. É necessário frisar a irresponsabilidade do Tenente-Coronel Milagres, que se mostrou totalmente despreparado e sem competência para agir em situações como esta. Em nenhum momento se mostrou aberto ao diálogo, como os seus colegas do 17º BPM. Dizia-se o defensor do Estado, mas atacava com covardia a Sociedade, tratando a todos como marginais e se dizendo disposto a utilizar todos os métodos de repressão para resolver a situação a sua maneira, unilateral. A falta de qualificação e profissionalismo deste oficial do Batalhão de Choque é um exemplo do que não queremos para a nossa cidade.
    
É irônico que isto ocorra exatos 40 anos depois de um dos períodos mais obscuros da história do país, lembrado pela repressão do Estado e supressão das liberdades. É também lamentável que, ainda hoje, seja uma prática comum e recorrente a criminalização do movimento estudantil, como se os estudantes fossem vândalos inconseqüentes e nossas bandeiras ou formas de manifestação não fossem legítimas, mesmo que pacíficas.
    
Para concluir, gostaríamos de agradecer ao comando do 17º BPM, por sua tentativa de resolver pacificamente o incidente, aos professores, que ajudaram a mediar e controlar os ânimos, e a todos que participaram da manifestação e que injustamente foram agredido, quando estavam apenas lutando para melhorar a saúde e a educação do nosso país.

Centro Acadêmico Carlos Chagas (CACC)