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1968 e a saúde mental

Esse é o título do livro que foi lançado nesta sexta-feira (16) com uma mesa redonda. Organizado por João Ferreira da Silva Filho, professor do departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina, o livro faz parte do projeto “40 anos de 1968 – relembrar, celebrar, entender”.

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Esse é o título do livro que foi lançado nesta sexta-feira (16) com uma mesa redonda. Organizado por João Ferreira da Silva Filho, professor do departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina, o livro faz parte do projeto “40 anos de 1968 – relembrar, celebrar, entender”.

Participaram da mesa Pedro Gabriel Delgado, coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde; Marci Dória Passos, psicanalista e professora da Faculdade de Letras/UFRJ; Ana Maria Pitta, professora da UFBA e ex coordenadora de Saúde Mental do Ministério da Saúde; e Ligia Costa Leite, coordenadora da Unidade de Álcool, Drogas e Criminalidade – HESFA/UFRJ.

Segundo o professor, o que foi iniciado no ano de 1968 no campo da saúde mental e se consagrou foi a assistência. “Por ela passam aspectos básicos da vida moderna. O direito de asilo, que até então correspondia ao isolamento, transformou-se em inclusão social. A participação democrática dos pacientes em seu tratamento nas comunidades terapêuticas abarcou novos espaços além dos muros de uma cidadela asilar e construiu os determinantes de 1968 para a política pública em saúde mental”, explicou o professor.

Para Marci Dória, o evento é importante, mas ela espera que não fique apenas na comemoração de uma data. “Que seja a reafirmação de alguns valores que ali emergiram de uma forma muita impressionante. Tinha a idéia do sexo, do corpo livre, de dar voz ao corpo. Era a loucura sendo menos banida e mais incluída. O que faz com que cada um tenha que olhar a sua própria loucura. Dar voz ao louco e a ouvir o que ele tem a dizer”, analisa a professora.

Ana Pitta, que também viveu ativamente aquela época, diz que a utopia revolucionária vivenciada por ela se tornou extremamente útil na sua trajetória. “Esse livro é uma grata provocação do professor. Era um tempo bom, acho que a chamada revolução dos sonhos criou uma série de práticas interessantes, libertárias. No campo da saúde mental, os hospitais psiquiátricos realmente eram locais nefastos para qualquer trabalho. Os hospícios eram usados, inclusive, na cultura repressiva, chegando a ser conhecidos como grande locais de campo de tortura, concentração e normatização da tirania”, recorda Ana Pitta.

Pedro Gabriel Delgado, também presente ao evento e um dos colaboradores do livro, disse que o ano de 1968 marcou a sua geração pelo doloroso contraste entre viver em um país que mergulhava na noite mais sombria da ditadura e, ao mesmo tempo, olhar para o mundo (Europa) que buscava a imaginação do poder. “Maio de 68 representa uma espécie de germe de idéias, que são fundamentais e que permanecem. Conceitos fundamentais de autonomia, solidariedade, construção do coletivo, anti-institucionalismo eram permanentes nas lutas da época”, explica Delgado.

O livro, lançado às 10h30, no Salão Dourado do Fórum de Ciência e Cultura, na Praia Vermelha, traz os seguintes textos:

Maria da Glória: O direito de asilo e a livre circulação em 1968. Como as moradias podem ser terapêuticas.
João Ferreira: A comunidade terapêutica, a cidade asilar e democratização do espaço público no Brasil.
Pedro Gabriel: Os determinantes de 68 para as políticas públicas de saúde mental no Brasil.
Marci Dória: Tragédia e drama nos discursos revolucionários e a moral da culpa. O caso Louis Althusser.
Ana Pitta: A sexualidade e suas expressões: comunidades, casais e companheiros.
Ligia Leite: Menor idade, maior idade em 68 e o abandono da assistência social no Brasil.