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Memória

A arquitetura da política externa

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, e o arquiteto Oscar Niemeyer foram os convidados da palestra "Criação e Inovação na Política Externa Brasileira", realizada em comemoração aos 45 anos da Coppe.

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Para comemorar os 45 anos do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ), foi convidado o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para ministrar a palestra “Criação e Inovação na Política Externa Brasileira”. O arquiteto Oscar Niemeyer foi o convidado especial e, coordenando a mesa, estava Luiz Pinguelli Rosa, diretor da unidade.

“Estamos aqui comemorando a posição do governo, representado pelo Celso Amorim, e a coerência do grande Oscar Niemeyer, que representa o nacionalismo brasileiro, e é um grande exemplo de arquiteto com repercussão no mundo inteiro”, explicou Pinguelli.

Palavras singelas, sensíveis e vividas

Aplaudido por todos, Niemeyer disse que o Brasil passa hoje por um momento de muito otimismo, mas também de preocupação. “Hoje os governos da América Latina estão mais unidos. Devemos lutar pela soberania do nosso país. Por isso o Amorim tem uma tarefa mais importante que a minha”, disse o arquiteto se referindo ao ministro.

Niemeyer disse ainda que agora sua luta é pela juventude. “Devemos lutar contra esse homem que busca apenas assuntos especializados, ligados apenas a sua formação, sem saber nada sobre a vida. É preciso que ele tenha conhecimento desse mundo estranho em que estamos vivendo”, analisa Niemeyer, acrescentando que o mundo precisa de solidariedade.

Celso Amorim lembra que foi o próprio arquiteto que escolheu o tema da conferência. “E essa é a maior homenagem que a política externa pode receber. Oscar Niemeyer é um exemplo de vida, educação e luta por um mundo mais justo. E essa luta também é da nossa diplomacia”, analisa Amorim.

Política externa

De acordo com Amorim, desde 2003, o governo do presidente Lula tem se engajado em esforço para redimensionar o perfil do Brasil no mundo. E a solidariedade também faz parte dos diálogos do Ministério das Relações Exteriores. Segundo Celso Amorim, o interesse nacional e a solidariedade não são antagônicos.  “A política externa deve ser feita com razão, mas também com emoção. O mundo é um só. Nossa experiência com a aliança Brasil, Índia e África do Sul (Ibas) mostrou que não precisa ser rico para ser solidário. É apenas uma questão de mudar a maneira de olhar o mundo”, explicou Amorim.

Para ele o governo percebeu desde o início que países em desenvolvimento, como o Brasil, podem ajudar a tornar o sistema internacional mais democrático. “Não ficamos acomodados na posição de um país periférico a espera de favores dos mais fortes. A criação do G20 talvez tenha sido o melhor exemplo dessa atitude. A crescente relevância dos países em desenvolvimento na economia e na política mundiais é um fenômeno que veio para ficar”, analisa.

Amorim apontou também que a participação no comércio internacional de países em desenvolvimento aumentou e pode chegar a 45% do total em 2030. “Daqui a 20 ou 30 anos o PIB agregado dos países em desenvolvimento poderá ser maior do que o PIB dos países desenvolvidos. E, como antecipam diversos prognósticos de desenvolvimento econômico, Brasil, Rússia, Índia, China estarão entre as maiores economias do mundo em 2050”, adiantou Amorim.

O ministro lembrou também que a idéia de que os países giram em torno do grande centro, que são os Estados Unidos, está ficando ultrapassada. “Com a integração da América do Sul isso não ocorrerá mais. Estamos criando um centro de gravitação alternativa. Quando privilegiamos a América do Sul, queremos integrar a América Latina e o Caribe”, explicou o ministro.

Sobre a recente discussão da crise do etanol, Amorim faz uma analogia com o colesterol. “O etanol da cana de açúcar é o etanol bom, já o produzido a partir do milho, é o ruim”, brinca o ministro.

Quando o assunto foi às relações com os países vizinhos, o ministro fez questão de frisar que o Brasil não fez concessões e nem está perdendo a sua soberania. “No passado, quando o país se curvava ao FMI (Fundo Monetário Internacional), não havia preocupação de o Brasil estar perdendo sua soberania. Porém, quando é com um vizinho, como a Bolívia, por exemplo, não se fala em outra coisa senão de que o país está fazendo concessões e correndo o risco de perder sua soberania”, reflete Celso Amorim.

Ao final, Niemeyer foi presenteado. Em seguida houve o descerramento da placa comemorativa ao arquiteto, por ocasião da visita a Coppe dentro das comemorações dos 45 anos da unidade.

Estiveram presentes alunos, professores e diretores de unidades. O evento aconteceu no auditório da Coppe, às 11h.